Entrevista. Mafalda Santos: “A Bienal de Vila Nova de Cerveira é realmente um caso paradigmático e de sucesso no que diz respeito à descentralização cultural”
“É um projeto que se tem mantido há 48 anos num território de baixa densidade populacional e que, nas suas sucessivas edições, se tem consolidado não só na sua atuação, mas na sua própria estrutura de funcionamento”, revelou Mafalda Santos, diretora artística da Bienal de Vila Nova de Cerveira que inicia a 18 de Julho e vai até dia 30 de Dezembro, em entrevista à Comunidade Cultura e Arte (CCA). O tema este ano vai ser “Territórios sem Fronteiras” que, segundo a diretora artística, tem a ver com a posição transfronteiriça de Vila Nova de Cerveira mas, também, com uma reflexão sobre “a ideia de fronteira em diferentes dimensões, não só geográficas mas também simbólicas e políticas, num momento em que também estamos a viver muita volatilidade das fronteiras, conflitos e uma geopolítica instável.”
Sobre a questão se, nas localizações mais afastadas do grandes centros, havendo oferta cultural, as pessoas vão e usufruem dessa oferta, Mafalda Santos diz: “As pessoas vão e essa é uma ideia errada [a ideia de que as pessoas não se interessam]. Claro que não vão assim do nada. É preciso chegar a elas, fazer-lhes chegar a informação, motivá-las. Isso também faz parte do trabalho. Não basta só dizer, é preciso fazer-lhes chegar essa oferta”, revelou Mafalda Santos na entrevista que se segue à CCA.
De que forma esta Bienal tem contribuído para a descentralização da cultura em Portugal?
Creio que de forma muito consistente e duradoura. É um projeto que se tem mantido há 48 anos num território de baixa densidade populacional e que nas suas sucessivas edições se tem consolidado não só na sua atuação, mas na sua própria estrutura de funcionamento. Tem vindo a acompanhar também as transformações artísticas das quais faz parte e, também, cada vez mais, à crescente profissionalização do próprio meio artístico. No caso de Vila Nova de Cerveira, é bastante evidente o efeito que tem na vila, que se auto-intitula como Vila das Artes: isso diz muito. O facto da bienal ser instalada aqui também se deve ao apoio autárquico que, desde o início, criou o apoio necessário para que esta Bienal acontecesse durante tantos anos.
Na verdade, motivou Vila Nova de Cerveira que, neste momento, tem um palco das artes, tem imensas iniciativas culturais, tem um novo festival de cinema, ou seja, o facto da Bienal estar aqui instalada e a funcionar, criou toda uma oferta cultural que define muito a identidade da própria vila e acabou também por ser um motor de desenvolvimento da mesma. Por isso, acredito que a Bienal de Cerveira é realmente um caso paradigmático e de sucesso no que diz respeito à descentralização cultural.
Estamos aqui na pontinha do norte do país, longe de muitos, da comunicação social também. É uma vila com 9 mil habitantes, então, um projeto que já tem uma dimensão como este, também com ligações internacionais, acho que realmente mostra que é possível fazer projetos fora dos grandes centros urbanos, com muitas dificuldades associadas. Em 2023, a Bienal representou Portugal na Bienal da Arte Macau, também diz muito. É um caso de sucesso no que diz respeito à descentralização cultural.
“Temos um serviço educativo que tem uma atividade muito intensa no que diz respeito ao trabalho com as escolas, mas também temos como missão e vontade envolver as comunidades locais no trabalho que se produz no contexto das residências artísticas.”
Têm procurado formas também de envolver a comunidade local? Não só a autarquia em si, mas as pessoas da localidade?
Sim, regularmente. A nossa programação é feita por biénios. Começamos a trabalhar o tema da edição seguinte no início do ano anterior porque existe uma programação regular ao longo de todo o ano que tem uma série de atividades: exposições, as residências artísticas e as atividades de mediação. Há alguma circulação também noutros espaços, parcerias que vamos estabelecendo, principalmente com o objectivo de fazer circular a nossa coleção.
Dentro dessas atividades existe sempre uma preocupação muito grande de envolvimento das comunidades locais. Temos um serviço educativo que tem uma atividade muito intensa no que diz respeito ao trabalho com as escolas, mas também temos como missão e vontade envolver as comunidades locais no trabalho que se produz no contexto das residências artísticas. Todas as residências contam com a colaboração de associações locais, não só as escolas como a Universidade Sénior, por exemplo, a APPACDM de Valença, mas também outros grupos mais informais, o grupo dos cavaquinhos ou dos bombos.
Também há atividades de mediação, de apresentação, de conversa, e procuramos sempre convocar essas comunidades. Para além disto, temos um programa que já vai na sua terceira edição, que é o ciclo de residências artísticas nas freguesias.
Começou em 2022, durante o período da Bienal, em que convidámos artistas a fazerem projetos nas 15 freguesias de Vila Nova de Cerveira. A nossa atividade também se descentraliza para criar outro tipo de projetos que trabalham mais as aldeias, que procuram estabelecer uma ligação com as pessoas desses lugares e que permitem também um processo artístico mais ligado ao território e às comunidades que habitam esses lugares e que as definem. Realmente, são 15 freguesias, todas bastante diferentes. É um projeto muito interessante que este ano vai ter a sua terceira edição.
“Procuramos lançar uma reflexão da ideia de fronteira em diferentes dimensões, não só geográficas mas também simbólicas e políticas, num momento em que também estamos a viver muita volatilidade das fronteiras, conflitos e uma geopolítica instável.”
Esta Bienal já conta com 48 anos. Quais foram os principais desafios ao longo deste tempo todo?
Creio que os desafios que se prendem com o facto de nos encontrarmos, não quero dizer descentralizados, mas fora dos grandes centros urbanos, claro que cria desafios um pouco mais difíceis do que quando se está num grande centro urbano. O grande desafio é, realmente, conseguir a participação das pessoas de forma mais regular, o hábito de nos visitarem, de participar. Apesar de termos sempre conseguido envolver muita gente, sentimos que se fica um bocado aquém.
Mas acho que a questão de lidar com os públicos, de os cativar e fidelizar é uma dificuldade em todo o lado. Depois, os maiores desafios dizem respeito a essa condição descentralizada de que falávamos no início, principalmente pela comunicação social, muitas vezes. Hoje em dia já começa a haver mais atenção ao que acontece em todo o país. Mas não deixa de ser difícil trazer aqui jornalistas, determinados visitantes. Já se sabe, há sempre dificuldade em se fazer muitos quilómetros.
Mas ao longo deste tempo, sente que conseguiram fazer isso, criar uma certa fidelização ou criar esse hábito cultural nas pessoas, mesmo sendo um desafio? Contribuíram para uma maior consciência cultural da população?
Acredito que sim. Claro que quando falamos de arte contemporânea, há sempre alguma resistência. Principalmente quando as pessoas sentem que não conhecem, não percebem. Mas fazemos cada vez mais esforços para amenizar esse sentimento, com os materiais de mediação indireta – com a “Mapa de Ideias”, uma empresa especializada nesse tipo de materiais – com jogos, com uma abordagem mais lúdica, com desafios diretos para observar, para interpretar. Há sempre estratégias que contribuem para as pessoas se sentirem menos intimidadas a entrar dentro de um museu e temos os nossos dias abertos, de acesso livre, com atividades paralelas, que têm tido adesão. Acredito que sim, mas queremos sempre fazer mais.
Porque é que acha que a arte contemporânea, de alguma forma, acaba por ficar um pouco mais esquecida? Porque é que as pessoas terão um pouco mais de resistência em relação à arte contemporânea?
São coisas que discutimos bastante internamente, até já em formações que temos vindo a fazer, que têm a ver com a acessibilidade da linguagem que se utiliza.
Se as pessoas veem coisas muito complicadas e menos inteligíveis, podem sentir que não é para elas. Tentamos, por isso, adotar estratégias que destruam esse mito de que a arte contemporânea é só para os intelectuais. Mas acho que cada vez mais conseguimos chegar às pessoas.
A forma como se comunica é importante?
Acredito que sim. A forma como se comunica, os próprios projetos que se apresentam. Toda a gente tem capacidade para entender do que é que se está a falar. Mas quanto a estas atividades que estava a referir antes – promovermos a participação, conversas com artistas – noto que é muito bom quando o público pode fazer uma visita com o próprio artista que fala do seu processo de trabalho, de como é que fez o trabalho, das suas preocupações. Isso desmistifica muito o fazer artístico, dá mais informação sobre aquilo que as pessoas estão a ver e humaniza a relação com o objeto artístico. Por isso, investimos também nesses momentos de mediação com as pessoas que nos visitam: vamos destruindo essas barreiras.
“Se as pessoas veem coisas muito complicadas e menos inteligíveis, podem sentir que não é para elas. Tentamos, por isso, adotar estratégias que destruam esse mito de que a arte contemporânea é só para os intelectuais. Mas acho que cada vez mais conseguimos chegar às pessoas.”
E porquê este ano o tema “Territórios sem Fronteiras?”
O tema prende-se muito com a própria condição de Vila Nova de Cerveira, que é um território transfronteiriço, como também com a sua atuação, não só local mas internacional. Também procuramos lançar esta reflexão da ideia de fronteira em diferentes dimensões, não só geográficas mas também simbólicas e políticas, num momento em que também estamos a viver muita volatilidade das fronteiras, conflitos e uma geopolítica instável.
Ao mesmo tempo, queríamos que esta reflexão sobre os “Territórios sem Fronteiras” também lançasse uma reflexão mais abrangente sobre os próprios processos artísticos. Queríamos pensar numa forma interdisciplinar, não só nos meios mas também na forma de atuação, nestes projetos colaborativos que estávamos a falar, principalmente neste momento em que vemos a inteligência artificial a alterar muito a forma como vemos o mundo e como operamos nele. Também está a influenciar muito o nosso próprio trabalho a vários níveis, por isso sentimos que era um tema forte a explorar devido a todo este contexto, não só o geográfico por estarmos num território transfronteiriço que é muito particular, que marca muito a identidade destas zonas raianas, mas também por sentirmos estes mapas a redesenharem-se: uns a ficarem ameaçados, outros a serem questionados.
Ao mesmo tempo são lugares, como os locais de uma região transfronteiriça, de muita potencialidade. Não são só locais de tensão, não são só linhas imaginárias, na verdade, mas também de encontro e potencial criativo. Por isso é um tema bastante vasto que nos permite também fazermos atividades muito diversificadas e abordar o tema sob várias perspectivas.
Um dos pontos altos é também a homenagem a Silvestre Pestana. Quer falar-nos um pouco sobre a escolha desta homenagem?
O Silvestre Pestana é um artista que acompanha e participa na Bienal desde a sua primeira edição: esteve presente em todas. Tem uma ligação muito forte com a própria Bienal e com a sua história e continua a ser um artista muito pertinente, principalmente à luz deste tema. Hoje em dia, aliás. é uma grande referência também para jovens artistas. É um artista que trabalha nos mais diversos meios explorando a poesia experimental, a linguagem e o corpo através da performance.
Trabalha em vídeo e foi explorando os meios digitais e as novas tecnologias, fazendo sempre uma reflexão sobre a forma como o desenvolvimento destas tecnologias influencia a nossa forma de atuar no mundo e as implicações políticas que vêm associadas a elas. Continua no ativo muito pertinente e sentimos que seria a pessoa indicada a homenagear com esta exposição “Luso Lunar” focada, sobretudo, em instalações de grandes dimensões e nos trabalhos em vídeo.
Revisita cinco décadas da obra deste artista. Continua também muito ligado a Vila Nova de Cerveira, não só à Bienal, mas também à Associação Projecto, criada para gerir a Bienal antes da criação da própria fundação da qual ainda faz parte e participa ativamente nas reuniões. Foi isso que nos motivou para além de sermos grandes fãs do seu trabalho.
A “Inteligência Artificial” (IA) também é uma questão importante para a Bienal deste ano. Promover uma reflexão sobre a Inteligência Artificial.
Dentro da ideia destes territórios que se diluem, é impossível ignorar a forma como a “Inteligência Artificial” está a alterar as nossas vidas. Ainda é algo muito desconhecido. Será que estes mapas que temos hoje vão continuar a fazer sentido com todas as transformações que a IA vai introduzir. Ao mesmo tempo, já é uma ferramenta utilizada nos processos de criação artística, literária, em todos os níveis. É impossível ignorar a forma como está a transformar as nossas vidas e o modo de trabalhar. Por isso, sim, faz todo sentido fazer esta reflexão dentro do tema.
Porque a Inteligência Artificial também está a obrigar a arte a fazer uma introspecção sobre o seu futuro, certo?
Sim, as questões de autoria também, mas não só. Abala igualmente a nossa própria relação com a realidade. Vejo até pela minha filha que tem 10 anos e questionamos se há essa implicação: Isto é verdadeiro ou não? Isto abala muito a nossa concepção das coisas. Sentimos que a realidade tal como a conhecemos, definida tal como é – estes mapas, estas linhas que no fundo são todas imaginárias – são construções que fazemos para nos situarmos, para operarmos, e tudo isso está a ser abalado. Não sabemos o que é que isto vai fazer ao mapa que nos liga ao território.
“Aproximamo-nos dos 50 anos e queremos sobretudo consolidar o trabalho que é feito localmente com as comunidades, fortalecer as ligações e as parcerias que permitem a circulação internacional de projetos e, também, a nossa presença fora de Portugal.”
Fala-se, muitas vezes, que mesmo se as pessoas mais afastadas dos grandes centros tivessem mais acesso a opções artísticas, acabariam por não ser consumidoras dessa oferta. Há a ideia de que as pessoas não vão ou não se importam. Mas o que acha? Se as pessoas tiverem opções, acabam por usufruir dessas opções?
Acredito que havendo oferta cultural e estratégias para oferecer às populações, as pessoas vão. Por exemplo, aqui o “Palco das Artes” abriu em 2024, agora tem sessões de cinema e estão cheias. Quem diz cinema, diz outros espetáculos que têm vindo a promover. As pessoas vão e essa é uma ideia errada. Claro que não vão assim do nada. É preciso chegar a elas, fazer-lhes chegar a informação, motivá-las. Isso também faz parte do trabalho. Não basta só dizer, é preciso fazer-lhes chegar essa oferta.
Há mais alguma coisa que queira destacar sobre a Bienal deste ano?
No seguimento do que estamos a falar, posso destacar que a Fundação tem programação todo o ano, não acontece só no período da Bienal. A própria Bienal, que acontecia só no Verão, agora vai até dezembro. Ou seja, dá oferta cultural no período em que inicia o ano letivo e as pessoas já não estão de férias. Posso destacar que vai acontecer até 30 de dezembro com muita programação. Para além das exposições patentes no Museu Bienal de Cerveira, com a exposição de Silvestre Pestana, do concurso internacional e dos artistas convidados, temos três polos externos de exposição.
Ainda vamos ter programação paralela de cinema, de performance, de projetos experimentais ligados à música nas freguesias e atividades de mediação, os ateliês livres, que acontecem em todas as edições: as pessoas podem vir trabalhar nas nossas oficinas e experimentar diferentes técnicas artísticas, com orientação de artistas convidados. O que posso destacar é que vai ser um ano muito intenso, com um programa bastante ambicioso e que espero que as pessoas acompanhem e usufruam.
Quais são os objetivos da Bienal para o futuro? De que forma querem continuar a afirmarem-se?
Aproximamo-nos dos 50 anos e queremos sobretudo consolidar o trabalho que é feito localmente com as comunidades, fortalecer as ligações e as parcerias que permitem a circulação internacional de projetos e, também, a nossa presença fora de Portugal. Com os 50 anos, espero que se possa fazer uma reflexão sobre a memória e a história da Bienal de Cerveira, que tem uma história singular, com uma raiz muito radical, mas que possa ser uma reflexão feita com os olhos no futuro. Ou seja, podemos a partir daqui, com esta reflexão, reimaginar o papel da Bienal e a sua atuação local e internacionalmente. Espero que seja também um biénio de celebração, claro, com os 50 anos.
