Entrevista. Manuel Afonso: “São precisas novas caras e novas formas de falar na esquerda”

por João Moreira da Silva,    2 Abril, 2026
Entrevista. Manuel Afonso: “São precisas novas caras e novas formas de falar na esquerda”
Manuel Afonso / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Manuel Afonso trabalhou quase dez anos em call centres. Depois, foi livreiro numa livraria de uma cadeia nacional num conhecido centro comercial de Lisboa. Foi assistente editorial e, agora, é revisor freelancer. Ao longo deste caminho, foi sempre militante de esquerda. Entrou pela primeira vez num partido de esquerda aos vinte anos, saiu para fundar um novo partido alguns anos depois, mas acabou por voltar à casa de partida. Com um pé no “estranho mundo, muito fechado e estreito dos partidos de esquerda” e outro “no mundo real”, o autor fala de uma “amarga sensação de que a linguagem desses dois mundos não parece ser compatível.” 

A partir desta experiência, Manuel Afonso escreveu o seu primeiro livro: Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma Esquerda Deprimida (Zigurate, 2026). O autor abre o livro com uma provocação: “e se as críticas que são feitas à Esquerda estiverem certas?” Ao longo de mais de 300 páginas, propõe-se a parar para pensar sobre estas críticas. Reflete sobre os erros da esquerda em Portugal, os seus possíveis rumos e as mudanças que devem ser feitas por dentro da própria esquerda. Tal como um livro de autoajuda, as propostas são articuladas como conselhos – ou mandamentos.

Capa do livro / DR

O autor posiciona-se, logo à partida, contra a esquerda elitista que vive presa na bolha da academia e das sedes partidárias – a esquerda que, na sua opinião, se afastou do povo. Mais do que uma crítica ao atual funcionamento da esquerda partidária em Portugal, o livro é uma chamada de atenção: “há um mundo fora da bolha”, escreve Manuel Afonso, e a esquerda pode morrer se não for capaz de olhar e aprender com esse mundo.

Este livro é escrito para quem? Para dirigentes políticos de esquerda? Para pessoas de esquerda que perderam a crença nos partidos? Para toda a gente?

O livro foi escrito com camadas diferentes que falam para pessoas diferentes. É escrito para qualquer pessoa com interesse em política, mesmo que não seja de esquerda. Por outras palavras, qualquer pessoa que não seja manifestamente de direita pode ler este livro e retirar qualquer coisa dele. Nesse sentido, procurei escrevê-lo de uma forma acessível e divertida. Espero, no entanto, que quem tem responsabilidades políticas [à esquerda] o leia e que também faça sentido para essas pessoas.

“A esquerda é uma nuvem bastante abrangente onde há pessoas com as quais eu discordo frontalmente e outras com quem concordo muito.”

O que é a esquerda, segundo este livro?

Há dois planos. Por um lado, há a esquerda com a qual me identifico – uma esquerda anticapitalista, ou radical, de matriz socialista. Mas seria sectário dizer que isso representa toda a esquerda, porque a esquerda é uma coisa muito mais ampla.

No livro, tento fintar esse problema através da chamada teoria ou “método das semelhanças de família”: algo é de esquerda se tiver características semelhantes a coisas que as pessoas reconhecem como sendo de esquerda. É o mesmo método que usamos para definir a arte. O que é arte? É algo que está ali pendurado numa parede. Que tem umas coisas pintadas. Que é parecido com a Mona Lisa. Não é um método muito exato, mas se calhar não é o tipo de discussão que exija que sejamos excessivamente precisos. A esquerda é uma nuvem bastante abrangente onde há pessoas com as quais eu discordo frontalmente e outras com quem concordo muito.

E porquê “autoajuda”?

Quando trabalhava na livraria, que era num centro comercial, almoçava por ali e falava com as funcionárias – eram maioritariamente mulheres, muitas imigrantes e racializadas. Fui estabelecendo amizades e apercebi-me que estas colegas, quando iam à livraria, dirigiam-se maioritariamente à secção de autoajuda. E a secção de autoajuda é muito ampla e não é politicamente neutra. Lembremo-nos, por exemplo, dos casos de Jordan Peterson ou Dale Carnegie. A autoajuda começa com um milionário que escreve livros sobre como fazer amigos. Este não é verdadeiramente um livro de autoajuda, mas é uma tentativa de falar para estas pessoas.

Manuel Afonso / Fotografia de Rui André Soares – CCA

A tentativa de manter uma linguagem acessível, sem jargões, no livro, também vem do mesmo impulso?

Um dos grandes problemas da esquerda é precisamente o da linguagem que utiliza. As pessoas não são burras – não se trata de não compreenderem o que um deputado ou líder de esquerda diz na televisão. No entanto, percebem que aquela não é a sua linguagem, não é a linguagem que usam no seu dia a dia. Não é a linguagem da vida delas. Cria-se uma barreira e ocorre um distanciamento entre as duas partes.

O que eu tento fazer é quebrar a barreira e tornar a leitura mais fácil, porque as pessoas estão cansadas. Na literatura, os intelectuais inteligentes e brilhantes são contra os capítulos curtos. É por isso que eu faço capítulos curtos – é uma forma de quebrar uma barreira.

A este esforço junta-se a questão do humor ou da não seriedade. A extrema-direita e a direita usam o humor. As suas danças do TikTok não são apenas uma ferramenta para bombar o algoritmo – servem para quebrar a solenidade da política. A política deve ser séria, mas não tem de ser solene. A solenidade é uma performance de seriedade. É uma forma de dizer: “isto não é para ti, isto é outro mundo que não é teu.” Quando uma personagem de extrema-direita está a fazer danças ou a tirar óculos de sol no TikTok, o que está a dizer é: “eu não estou a falar para ti a partir do pedestal da política institucional. Estou a falar a partir do terreno em que tu te moves.” Neste livro, também quis fazer esse ato.

“Um dos grandes problemas da esquerda é precisamente o da linguagem que utiliza.

Nas tuas palavras, escreves: “menos assessoria no parlamento, mais café com cheirinho, menos The Guardian e mais A Bola, menos politicamente correto e mais conversa de café”. Porque é que a esquerda deve reivindicar a tasca?

Quando os deputados da extrema-direita se comportam como broncos na Assembleia da República, nós dizemos: “parece que estão na tasca.” Mas não, não parece. As tascas não são assim. Com isto, estamos a dizer que eles se comportam de uma forma que é do povo. Oferecemos-lhe uma coisa que eles não têm. Por exemplo, olhemos para o Filipe Melo – é um quadro da burguesia, do sistema bancário, um tipo que certamente passa mais tempo em campos de golfe do que na tasca. E nós atribuímos-lhe um carácter popular que ele não tem, separando-nos a nós próprios dessas origens que estão muito mais entranhadas na esquerda do que na extrema-direita. Não se trata da esquerda não estar na tasca. Em certa medida, ela já está na tasca – mas não está na cabeça. Tem de passar a estar no corpo e na cabeça também.

Ao longo do livro, escreves sobre as várias experiências de vida que moldaram a tua visão política – o sindicato no call centre, a greve dos estivadores de Setúbal, o trabalho na livraria. De que forma é que estas experiências moldaram este livro?

Há um processo interessante a que chamamos de “politização”. Quando somos jovens de classe média, e vamos para a universidade, politizamo-nos com uma grande densidade ideológica. E, por estranho que isto pareça, este é um processo de afastamento da vida real. O que eu fiz nos últimos dez anos da minha intervenção política foi uma reaproximação.

Os choques constantes de estar no call centre, de tentar fazer política ali, fizeram-me perceber que estas ideias que eu trazia, apesar de não estarem necessariamente erradas, não funcionavam daquela forma. Nas últimas eleições legislativas, participei numa campanha porta-a-porta, que foi um exercício muito interessante. Falei com pessoas que me diziam que a sua principal preocupação era a imigração, que apresentavam argumentos que as tornavam potencialmente, mas não necessariamente, eleitores da extrema-direita. Mas, ao falar com elas, eu encontrava pontos em comum, encontrava uma linguagem em comum. Estas experiências, no call centre, no trabalho político que fiz noutros setores, desaguaram neste livro.

A dificuldade que a esquerda tem em abordar temas como a imigração ou a segurança é precisamente um dos temas do teu livro. O que devia mudar na narrativa à esquerda sobre estes “tabus”?

A esquerda não tem refletido sobre estes temas e, por isso, tem uma espécie de abordagem negacionista. Quando confrontada com a segurança, afirma que não há problema nenhum. Confunde-se segurança com criminalidade, não é a mesma coisa. É óbvio que Portugal tem indícios baixos de criminalidade – embora se as desigualdades sociais continuarem a crescer, a criminalidade também crescerá. Passámos anos a negar os números sobre a imigração, até que os números se tornam inegáveis.

No fundo, temos um discurso que é lido da seguinte forma: “se tu te preocupas com isso, é porque és racista.” Por isso, negamos uma preocupação das pessoas, imputamos-lhe um discurso moralista e seguimos em frente. E ainda acrescentamos: “a imigração é boa para a economia do país”, assumindo que a economia do país, tal e qual ela exista, é uma coisa boa – coisa que não é. Caímos em três ou quatro armadilhas ao mesmo tempo.

Não nos apercebemos como Portugal mudou radicalmente nos últimos dez anos. Desde a crise financeira, o país mudou demograficamente, mudou a sua estrutura económica. Passou a ter uma estrutura mais extrativista, assente em mão de obra ultra-explorada, exploração dos solos e dos recursos, exclusão de uma parte dos trabalhadores qualificados que tinha mais poder negocial. Muitas pessoas deixaram de reconhecer o país onde cresceram. Olham para um país que mudou radicalmente, muito rápido. E, muitas vezes, isso causa uma sensação de insegurança. A pessoa passa a viver num bairro diferente das três gerações anteriores da sua família. Deixou de ter um café ou uma mercearia porque já só há uma grande superfície. Deixou de ter serviços públicos de proximidade, onde conhecia o contínuo da escola, o professor, ou até o chefe da esquadra. E isso gera uma sensação de insegurança. Nós invalidamos esses sentimentos às pessoas e, portanto, perdemos a oportunidade de os politizar pela esquerda. Fica o vazio. Eles são politizados pela direita – que vai buscar elementos reais, como o racismo que existe na sociedade portuguesa. Mas era possível uma outra politização destes temas.

“O que move milhões de pessoas não são ideologias, são necessidades concretas, esperanças, anseios e aspirações.”

Há uma sensação de crise e depressão entre a esquerda do mundo ocidental – há quem fale numa crise existencial. Foi esta crise que levou à escrita deste livro?

Sim. Mas a crise está a tomar formas diferentes em diferentes países. No mundo ocidental, está a ocorrer uma reconfiguração da esquerda e da direita conforme os seus protagonistas, as ideias acumuladas do passado, alguns elementos de sorte e qualidade (ou falta dela) dos adversários. À esquerda, essa reconfiguração pode ser negativa, com fragmentação e perda do espaço político. Mas também pode ser positiva. O caso de França é o mais evidente, mas também temos o caso dos Verdes no Reino Unido, ou o crescimento de um movimento de esquerda nos EUA com Bernie Sanders e, agora, Mamdani. A depressão não é global. Mas sem dúvida que, em Portugal, há vários elementos de depressão.

Manuel Afonso / Fotografia de Rui André Soares – CCA

A unidade da esquerda e a recusa dos “sectarismos” é um tema recorrente deste livro. É possível fazer esta unidade sem tornar a esquerda dita radical num “atrelado” de partidos do centro? O caso de Alexandra Leitão ou de António José Seguro, apesar de diferentes, são frequentemente interpretados como tal.

Acho que é possível e temos diferentes exemplos disso. Mais uma vez, o caso de França, quando fizeram, nas legislativas, a coligação da Nova Frente Popular e agora novamente nas municipais. É uma unidade que envolve muita tensão, que se dá num contexto em que a esquerda radical é tão ou mais forte do que a esquerda moderada. Há ali várias esquerdas. O Mamdani foi isso, também. Quando ele se lançou, o objetivo era influenciar e “puxar à esquerda” um candidato um pouco menos à esquerda da esquerda do Partido Democrata. Mas o Mamdani ganhou tal preponderância que esse candidato acabou a apoiá-lo.

Por isso, acho que é possível essa unidade, sempre com alguma tensão. E, sinceramente, acho que é possível e necessário fazer uma unidade de esquerda cujos eixos centrais não sejam tão radicais como os da esquerda com que me identifico, mas que não sejam uma simples manutenção do status quo. Ou seja, acho que o que toda a esquerda, inclusive o PS, tem de pensar seriamente em ser uma esquerda de transformação e não uma esquerda de manutenção.

Os casos [de Alexandra Leitão e Seguro] são diferentes. Votar no António José Seguro na segunda volta era a única coisa inteligente que se podia fazer. Mas há um problema nos dois casos. Em ambos, estamos a dizer ao país: “isto como está é o melhor que nós conseguimos.” Qualquer mudança é vista como má – e as pessoas querem mudança.

“Quando os deputados da extrema-direita se comportam como broncos na Assembleia da República, nós dizemos: “parece que estão na tasca.” Mas não, não parece. As tascas não são assim. Com isto, estamos a dizer que eles se comportam de uma forma que é do povo.”

Em alguns destes casos, as lideranças parecem ser fundamentais para o sucesso ou insucesso da esquerda. O teu livro foca-se mais em movimentos coletivos do que figuras individuais – mas é possível a esquerda ignorar estas figuras?

Não podemos. Há uma parte do livro em que contrario a ideia de que as pessoas são burras porque votam nos indivíduos. Claro que votam nos indivíduos, porque as pessoas percebem que as lideranças contam. Eu posso ter um partido com ideias incríveis – mas se as lideranças forem um bando de sacanas, ou um grupo de “anhados” bem-intencionados, não terei sucesso. São precisas novas caras e novas formas de falar.

O problema do debate sobre as figuras põe-se quando este é o início do debate e não seu fim. Isso tende a apagar o debate sobre as ideias. Temos de pensar que ideias é que queremos construir, que ideias é que precisamos, que formas de funcionar – e, só depois, quais são as figuras que podem potenciar isto, em vez do contrário.

Escreves sobre um “mito da insubstituibilidade” nas lideranças políticas. Há um problema de renovação geracional na esquerda portuguesa?

Sim. Na verdade, este é um problema das organizações em geral, de toda a política. A nossa imagem de um político é de um tipo velho, com cabelos brancos. Embora, por incrível que pareça, a direita seja mais dinâmica nisso do que a esquerda. A esquerda tem esse problema em particular porque está acossada. Gera-se a mentalidade de que mais vale um mal conhecido.

Apesar de referires frequentemente os partidos políticos de esquerda neste livro, nunca são explicitamente mencionados os nomes do Partido Comunista Português (PCP), do Bloco de Esquerda (BE) e do Livre, assim como o nome de figuras políticas de esquerda no ativo. O que te levou a esta escolha?

Foi uma escolha deliberada, para não contaminar. Por exemplo, agora vou apresentar o livro com o Miguel Prata Roque, do PS. Conto fazer outras apresentações com pessoas do BE ou do PCP, com pessoas que não são de partido nenhum, talvez mais uma ou outra com pessoas de sensibilidades mais à esquerda do PS. Quis construir um livro sobre o qual qualquer uma dessas pessoas, mesmo não concordando, pudesse falar e pensar um pouco. Se o enchesse de siglas ia ser mais difícil. Ia potenciar que as pessoas fossem recolher as ideias feitas que têm, algumas certas e outras erradas, sobre partido A ou B. Ia dificultar um exercício de reflexão mais aberto.

⁠”São precisas novas caras e novas formas de falar na esquerda”

Criticas várias vezes a falta de capacidade de mudança da esquerda neste livro. A dada altura, lanças uma provocação – dizes que temos “a esquerda mais apegada ao sistema institucional em todo o mundo ocidental”. A esquerda tem de aprender a criticar o Estado?

Claro, acho que das piores coisas que se instalou foi a ideia de que a esquerda representa o Estado e que a direita está do lado do privado, o anti-Estado e a liberdade. A disputa entre esquerda e direita é sobre quem é que manda no Estado. Não é sobre mais ou menos Estado. A direita quer o Estado a decidir o que vestimos e quem é que pode mudar de nome. Quer um Estado totalitário.

A questão é que as pessoas estão saturadas com o Estado – e têm toda a razão. O Estado, o Estado como está organizado, serve para lixar as nossas vidas. E nós [a esquerda] passamos a vida a dizer que o Estado é bom. Ou quando nos imputam isso, não refutamos. Ficamos na defensiva.

O Estado não pode ser um mecanismo de transferir riqueza para os mesmos de sempre. Para isso, tem de ser o povo a mandar no Estado. Temos de criar mecanismos democráticos de decisão. Por exemplo, quando eu era mais novo, as escolas organizavam eleições para conselhos diretivos. A comunidade escolar, ou uma parte da comunidade escolar, votava nos seus membros, que decidiam quem é que dirigia a escola – não era um burocrata imposto pelo poder político.

Manuel Afonso / Fotografia de Rui André Soares – CCA

O atual debate sobre a revisão da Constituição também é um debate sobre o papel do Estado. Como é que a esquerda se deve posicionar nesta conversa?

Acho que a esquerda pode lutar contra uma mudança autoritária da Constituição sem defender a Constituição como a melhor coisa de sempre. Temos de dar um passo atrás e ver o problema com algum distanciamento. Nós estamos a assistir a transformações políticas e sociais de uma dimensão que talvez só seja comparável com o fim da Idade Média e o início da era moderna. Falo de tecnologia, de geopolítica, de ecologia, do que são as classes sociais hoje. Achar que uma arquitetura institucional feita à medida de um mundo que está a desaparecer pode servir para os próximos 10, 20, 30, 40 anos, é enganarmo-nos a nós próprios. Temos de enfrentar esse problema com coragem e não com dogmas doutrinários, porque as pessoas sentem isso. Parece que que estamos a defender uma religião de Estado que se chama Constituição de Abril – que nem sequer é de Abril, na verdade, é de Novembro. Soa a fake!

“Quando somos jovens de classe média, e vamos para a universidade, politizamo-nos com uma grande densidade ideológica. E, por estranho que isto pareça, este é um processo de afastamento da vida real. O que eu fiz nos últimos dez anos da minha intervenção política foi uma reaproximação.”

A dada altura, escreves que “os cravos viraram a anestesia perfeita para adormecer Portugal.” A esquerda portuguesa precisa de superar o 25 de Abril enquanto “mito fundador”?

Precisa de superar o 25 de Abril e de olhar para a Revolução. Para o 26, para o 27, para o 28 de Abril. Para os 18 meses seguintes da Revolução. O 25 de Abril continua a ser um bom mito fundador, mas temos de olhar para ele como ele foi. Não precisamos de inventar grande coisa. O papel deste mito fundador deve ser o seguinte: até vencermos, temos de assumir que fomos derrotados. Se assumirmos que vencemos, se assumirmos que a vitória já foi no passado, não lutaremos por uma vitória futura.

É preciso olhar para a Revolução como uma derrota da esquerda?

Uma derrota parcial. A Revolução teve duas grandes componentes. Uma, em que a esquerda foi vencedora, foi a destruição do Estado Novo – em grande medida feita pelos movimentos de libertação africanos nas ex-colónias, enquanto, aqui deste lado, o castelo de cartas já estava praticamente caído, foi só dar o pontapé final. Nesta componente da conquista das liberdades democráticas, a esquerda foi vencedora. Só que a Revolução não parou no dia 27, 28 de Abril, no 1.º de Maio. A Revolução continuou porque houve uma disputa sobre quem ia mandar no Estado. O povo ensaiou várias formas de mandar no Estado – e essas formas foram derrotadas. Não podemos, por isso, dizer que o que o único projeto em jogo era uma democracia representativa na qual as pessoas comuns delegam a soberania em políticos profissionais. Esse não era o único projeto em jogo. Podemos discutir se esse era o melhor projeto possível, mas havia um outro com muita força que foi derrotado.

“É possível e necessário fazer uma unidade de esquerda cujos eixos centrais não sejam tão radicais como os da esquerda com que me identifico, mas que não sejam uma simples manutenção do status quo. Ou seja, acho que o que toda a esquerda, inclusive o PS, tem de pensar seriamente em ser uma esquerda de transformação e não uma esquerda de manutenção.”

De certa forma, essa lógica serve para contradizer a atual narrativa da direita sobre uma dita “Revolução Socialista” que tomou conta do Estado até hoje.

A nossa direita tem uma coisa muito particular, que acho que não há em mais nenhum país do mundo. A direita diz que a Revolução levou a um Estado socialista e que o problema de Portugal é o socialismo – mas diz que temos de recuperar o 25 de Novembro porque foi quando se derrotou o socialismo. Ou é uma coisa, ou outra. E este é um problema que a esquerda compra, em certa medida. Quer dizer, se este Estado é socialista, o que é que é um Estado capitalista?

Na sua comunicação, a esquerda tem de abandonar “palavrões” como socialismo e comunismo para ser bem-sucedida? De ter uma visão mais pragmática?

Acho que temos de ter vários canais de comunicação, com níveis diferentes. Antigamente chamava-se agitação e propaganda. A revolução russa, a grande revolução comunista, não foi feita em nome de comunismo, foi feita em nome da paz, do pão e da terra. Eles não escondiam que eram comunistas. Não se trata de dizer “não, não sou, quer dizer…”. Mas o que move milhões de pessoas não são ideologias, são necessidades concretas, esperanças, anseios e aspirações. Nesse processo, acho que também precisamos de nomes novos para as coisas. Aliás, o nome comunismo na altura foi um nome novo. O nome velho era social-democracia. Talvez agora precisemos de um nome novo.

Alguma sugestão?

Eu gosto de neocomunismo, se calhar não é assim tão novo. Mas gosto da ideia – se há um neofascismo, precisamos de um neocomunismo.

Se tivesses que escolher três figuras em Portugal a quem gostavas de oferecer o teu livro, a quem é que o oferecias?

Ofereci o livro a amigos militantes próximos, ofereci-o a dirigentes operários com quem me cruzei nas minhas lutas. E acredito que há outros que poderão ter vantagens em ler o livro – mas essas vantagens só serão potenciadas se for por vontade própria e não por imposição.

Enquanto ex-livreiro, em que prateleira é que arrumavas este livro?

Fazia um truque: punha um exemplar na ciência política e outro exemplar na autoajuda.

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