Entrevista. Manuela Couto: “O teatro vai ser das últimas árvores a desaparecer”

por Lusa,    7 Julho, 2026
Entrevista. Manuela Couto: “O teatro vai ser das últimas árvores a desaparecer”
Manuela Couto / Fotografia via IMDB
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A atriz Manuela Couto diz em entrevista à agência Lusa que “o teatro vai ser das últimas árvores a desaparecer”, num mundo em viragem, com a tecnologia a transformar a própria condição humana.

Manuela Couto estreia-se na encenação esta semana, com a comédia “Lisístrata”, de Aristófanes, a subir ao palco do Teatro Mirita Casimiro, em Cascais, distrito de Lisboa, na próxima sexta-feira, 10 de julho.

A peça “Lisístrata” foi escrita 404 anos antes de Cristo, durante uma das maiores crises da Cidade-Estado de Atenas, com a trama a decorrer durante uma guerra prolongada entre cidades gregas. Perante a incapacidade de os homens, no poder, resolverem o conflito, Lisístrata reúne mulheres dos territórios em confronto e propõe uma ação concertada de greve ao sexo, até que a paz seja atingida.

“A Lisístrata só quer a paz, ela não faz uma revolução, porque no final fica tudo na mesma. Os homens voltam, vão para dentro da acrópole, vão para a cama com as suas mulheres, as mulheres com os seus maridos. A vida volta a ser o que era, com uma grande diferença: a guerra acabou. A guerra não faz falta, porque já não havia homens, porque não só morriam os maridos, como morriam os filhos destas mulheres. E é isso que ela quer. Ela só quer acabar com a guerra”, relata Manuela Couto à Lusa.

Esta encenação corresponde à Prova de Aptidão Profissional de 24 alunos finalistas da Escola Profissional de Teatro e Cinema de Cascais (EPTC), contando ainda com o elenco do Teatro Experimental de Cascais (TEC), nomeadamente, os atores Cláudia Semedo, Rita Cabaço, José Condessa e Marco D’Almeida.

“O público sabe que vem ver a prova, isto é um espetáculo público”, disse Manuela Couto que se confessou “emocionada” ao trabalhar com futuros atores.

“Gosto muito e fico sempre muito emocionada quando vejo talento, quando vejo rapazes e raparigas com talento. Emociona-me, alegra-me, fascina-me, atrai-me muito, porque é ver que continua sempre, que há sempre alguém que vai ficar. E eu adoro atores e atrizes. Por isso gosto tanto de fazer também direção de atores. Vê-los a representar, a apropriar-se destas personagens, a trazerem [cá para fora] personagens não existem, que [só] estão escritas num papel. E ver os atores e as atrizes a darem corpo e voz e alma e o olhar e os gestos a uma ideia é uma coisa que me fascina profundamente”, afirmou.

Manuela Couto disse à Lusa que é para si “um grande prazer” quando vê este processo acontecer, “nomeadamente neste caso”, de jovens profissionais em início de carreira: “Quando têm talento, então para mim é um grande prazer. O talento não está debaixo das pedras, não o encontramos aos pontapés, e não é uma coisa fácil, é muito mais difícil do que se possa pensar e não há assim tanto, mas quando há é maravilhoso encontrar”.

A atriz considera que vivemos um momento de viragem.

“Acho que a humanidade, tal como a conhecemos, está a terminar. E vai acabar por terminar, não sei se nas próximas dezenas de anos ou centenas, mas se calhar vai ser mais depressa do que nós imaginamos”.

Manuela Couto deu como exemplo “a Inteligência Artificial e a forma como já está a transformar o mundo, a humanidade, a nossa própria condição humana”, mas está confiante que o teatro resistirá.

“Acho que o teatro vai ser das últimas árvores a desaparecer, porque vai ser a mais difícil de substituir. Já conseguimos fazer imagem na televisão, no cinema. A imagem já é absolutamente e totalmente manipulável. Agora, pessoas em cena num teatro, nessa proximidade, nessa magia que é o teatro, ter pessoas no mesmo espaço, separadas por uma linha tão ténue […], esse espaço que separa o mundo real, o mundo imaginário e ficcionado e codificado de um palco” é mais difícil.

Ao mesmo tempo, porém, “já vivemos num passado, vivemos com as referências desse passado, mas não sabemos nem que referências” se projetam, confessa a atriz”. “Acho que já existem muitas coisas que nós não sabemos, e que estão prontas para acontecer a qualquer momento… Robôs, pessoas que estão como no filme ‘Blade Runner’, em que já não se conseguia distinguir humanos dos androides. E há tantas. A [própria] personagem do Harrison Ford já não sabia se era humano, já duvidava da sua própria condição”.

“Lisístrata”, com dramaturgia Miguel Graça e encenação de Manuela Couto, estreia-se no Teatro Mirita Casimiro, em Cascais, no próximo dia 10.

Na véspera, realiza-se um ensaio solidário a favor da Associação REFOOD, com a entrada a fazer-se através da entrega de bens alimentares.

No dia 18 de julho, há uma sessão com interpretação em Língua Gestual Portuguesa e, no dia 19, uma conversa com o público após o espectáculo, que fica em cena até 26 de julho.

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