Entrevista. Maria Grazia Calandrone: “A história da humanidade tem origem nas migrações: cada um de nós é fruto de misturas que nos tornam mais fortes, mais capazes, mais inteligentes”
“Considerei incompreensível e injustificada a suspensão do Espaço Schengen no passado mês de julho, que acaba de ser prorrogada”, referiu Maria Grazia Calandrone sobre a suspensão do acordo por parte do governo Italiano com Espanha, como resposta à crise migratória de Ceuta. Suspensão essa que acabou por ser alargada este mês de Setembro por mais 15 dias. Como a escritora e jornalista italiana, autora do livro “Escrito com sangue na água” — edição portuguesa recente da Alfaguara, chancela da Penguin — refere, “os italianos, no estrangeiro, também foram frequentemente alvo de hostilidade. (…) Mas tudo isto [a hostilidade a imigrantes] surpreende porque toda a história da humanidade tem origem nas migrações: cada um de nós é fruto de misturas que nos tornam mais fortes, mais capazes, mais inteligentes.”
Tendo sido a Itália um país fortemente pautado pela migração tanto para o exterior como interna (do sul do país para o norte), esta, aliás, foi também parte da história de seus pais, Lucia (de Palata, província de Campobasso) e Giuseppe. A lei do divórcio em Itália só é consagrada em 1970. Em 1964, ano do nascimento de Maria Grazia Calandrone, uma mulher podia ser condenada por adultério simples, enquanto que um homem só incorria contra a lei se fosse viver com a nova companheira ou a mantivesse em regime de “concubinato”.
A verdade é que Lucia, mãe de Grazia, nunca quis, na verdade, casar com o seu marido oficial. Tratou-se de um matrimónio combinado porque os terrenos do seu marido confinavam com os da sua família e, por isso mesmo, tratou-se de um casamento infeliz. Lucia, depois, apaixona-se e mantém um caso com Giuseppe, é instaurada uma queixa crime de adultério por parte de seu marido, Lucia decide ir viver com Giuseppe já grávida da escritora e ambos fogem para Milão e, depois, para Roma, onde Maria Grazia acaba por ser abandonada, em Vila Borguese. Os seus pais, sem vislumbrarem escapatória, suicidam-se depois, tendo sido este um caso bastante documentado pela imprensa italiana.
Esta é a história que Maria Grazia Calandrone conta no “Escrito com sangue na água”, no qual, a partir de testemunhos verídicos, a escritora segue o rasto da sua mãe, Lucia. É precisamente sobre este livro que autora conversa com a Comunidade Cultura e Arte, na entrevista que se segue.
A condição das mulheres na Itália dos anos 60 era completamente diferente da atual. Pode-nos falar um pouco sobre essa realidade? Por exemplo, em Portugal, foi um período profundamente assinalado pela violência doméstica.
Decidi escrever este livro exatamente por esse motivo. Não sabia de nada e o que descobri parecia ser muito semelhante aos casos de muitas outras mulheres. Depois da saída do livro, descobri que em todas as famílias italianas há uma Lucia, uma pessoa a quem foi imposto um casamento e que foi vítima de violência doméstica. É uma história comum na qual, infelizmente, muitas famílias italianas se reconheceram e reconhecem, principalmente na história das avós. Era uma condição dura devido a uma sociedade patriarcal, evidentemente. Não era estranho para as mulheres serem agredidas. Ao invés disso, era estranho a minha mãe não ter aceitado. De vez em quando, nasce alguém que não aceita o que é a conduta normal, por isso, Lucia não queria ser agredida.
Franca Viola, por exemplo, foi a primeira mulher que se impôs ao “matrimonio riparatore”, casamento por reparação, com o homem que a violou. No caso de Franca Viola, o pai apoiou-a, no caso de Lucia, não. [Em Itália, uma mulher, caso fosse violada, seria pressionada para casar com o seu abusador para repor a sua honra. Estes casamentos eram conhecidos como “matrimonio riparatore” e ilibavam o criminoso de responder perante a lei pelo crime cometido. Esta prática foi abolida do código penal italiano em 1981. O caso de Franca Viola ficou conhecido por, justamente, a então jovem, em 1966, ter sido a primeira mulher a levar o abusador a julgamento e, assim, a responder perante a Justiça italiana.]
“Ao estudar as migrações provenientes de África, descobri que o Saara encerra mais mortes invisíveis do que o Mediterrâneo. Penso que temos memória curta. Também em “Escrito com sangue na água” estabeleço um paralelo explícito entre os imigrantes de hoje e os imigrantes italianos.”
Convém recordar que era uma Itália não muito longe do fascismo de Mussolini. Existiam também importantes questões jurídicas em jogo. O adultério era severamente condenado e o divórcio ainda não existia. Era também por esse motivo que, em seguida, a sua mãe tenta sustentar que a filha fosse do marido e que, junto com Giuseppe, tenta encontrar outro lugar onde viver e construir outra vida?
Absolutamente. Além disso, é importante realçar que a legislação era diferente entre homens e mulheres porque, na verdade, as mulheres eram sujeitadas a dois anos de prisão apenas por adultério, já os homens apenas incorriam em crime se fossem viver com a nova companheira. Como existia essa lei que permitia ao marido denunciar a mulher, o marido da minha mãe recorreu a essa lei e Lucia teve de fugir. O estranho e extraordinário é que ela fez tudo à luz do dia, não queria trair. Deixou o marido e foi viver com o homem que tinha escolhido, coisa que hoje seria normal e, infelizmente, naquela época era um crime penal. Por essa razão, foi forçada a fugir com o meu pai. O fascismo — não o chamo de ideologia, porque não quero dignificá-lo —, o patriarcado e a predominância da figura do homem como autoridade e dominador, certamente tiveram uma grande influência a nível cultural, assim como a miséria. Digamos que, no que diz respeito a casamentos arranjados, a miséria do pós-guerra certamente teve um papel importante. Assim, nas pequenas localidades italianas, havia a necessidade de preservar e consolidar a riqueza e as propriedades da família. Por isso, estas mulheres, e na realidade também os homens, eram sacrificados para aumentar ou manter as propriedades da família.

No livro, há uma parte que diz que a sua mãe fez simplesmente a mala e foi viver com Giuseppe. Naquela época, uma escolha desse género requeria grande coragem. Vê a sua mãe como um espírito livre, uma mulher que sonhava em conquistar a sua liberdade?
Sim, e compreendo-a muito bem, porque sou assim. Digo sempre aos meus filhos: vocês e a liberdade são as coisas mais importantes da minha vida. É profundamente verdadeiro, quase geneticamente até. Por isso, se tinha um caráter semelhante ao meu, pergunto-me como é que ela conseguiu suportar tudo aquilo durante tantos anos. Todos os dias ela [Lucia] tentava obter o apoio dos pais, mas infelizmente não conseguiu.
“No que diz respeito a casamentos arranjados, a miséria do pós-guerra certamente teve um papel importante. Assim, nas pequenas localidades italianas, havia a necessidade de preservar e consolidar a riqueza e as propriedades da família. Por isso, estas mulheres, e na realidade também os homens, eram sacrificados para aumentar ou manter as propriedades da família.”
Para escrever o livro, a Grazia recolheu uma série de testemunhos. Como conseguiu descobrir estes testemunhos e como foi a experiência de escutá-los?
As testemunhas foram aparecendo. Tinha ido à televisão apresentar o romance anterior em que falava, essencialmente, da relação com a minha mãe adotiva. Durante esse programa, contei o motivo pelo qual tinha sido adotada. Quando voltei a casa, encontrei mensagens de amigas da minha mãe que não pude, de maneira nenhuma, ignorar. Eram pessoas que tinham conhecido Lucia e que queriam falar comigo sobre ela. Parti com a minha filha, fui ouvi-las e não digo que tenha sido como encontrá-la, mas foi como mergulhar completamente na realidade dela: olhar nos olhos das pessoas que tinham olhado nos olhos dela, sentir o cheiro do lugar, das casas. Apesar de terem passado tantos anos, aquele lugar parece realmente ter ficado parado no tempo.
Fui, como disse, com a minha filha, que se parece muito com a minha mãe, por isso foi realmente uma espécie de viagem no tempo, de certa forma. Quando percebi que aquela história era emblemática de uma determinada Itália, comecei a procurar materiais de arquivo, a estudar o que significava a migração interna, sobre a qual não sabia nada e acerca da qual, na prática, não existe literatura.
Pode falar um pouco sobre essa migração interna na Itália e o seu contexto?
Significava uma sorte diferente. Se conseguissem entrar no tecido social, laboral e económico da cidade — porque vinham todos, na sua maioria, das zonas rurais do Sul e dirigiam-se para Turim e Milão, para as cidades que começavam a industrializar-se, onde havia trabalho —, tinham uma vida digna e podiam até ajudar os seus conterrâneos a migrarem para lá. Aqueles que não conseguiam integrar-se, como aconteceu com os meus pais, porque eram procurados pela polícia, simplesmente não podiam trabalhar e acabavam na periferia da periferia.
Vi documentários sobre as condições de vida dessas pessoas [migrantes italianos que migravam internamente para o norte de Itália] e algumas chegavam até a viver em vagões de comboios abandonados, no meio da lama, nos campos à volta de Milão e de Turim. Não era, no entanto, o caso dos meus pais. Quando se ia fazer um passeio pelo centro, ia-se à cidade, porque eles estavam de fora. Ora, nós, na Itália, esquecemo-nos de tudo isto e, por isso, votámos num governo que levanta muros.
Quando tentei fazer entrevistas, em particular uma na qual estabelecia um paralelismo entre a nossa condição naquela época e a condição dos migrantes que são rejeitados pela Itália, alguns ficaram muito zangados.
“Digo sempre aos meus filhos: vocês e a liberdade são as coisas mais importantes da minha vida.”
Ainda existe essa diferença entre o sul e o norte da Itália?
Está mais atenuada, mas ainda existe. O setor editorial está quase todo concentrado no norte, de Roma para cima, como Turim e Milão. É onde podemos encontrar as grandes editoras como a Mondadori. O sul, no que diz respeito à cultura, é mais voltado para a música e o teatro. É menos organizado porque embora existam muitas pequenas editoras e muitas atividades teatrais, musicais, culturais e associações, tudo é mais descentralizado. Não existem os grandes grupos que existem em Milão e Turim.
Sente que escrever este livro foi importante para se aproximar da sua mãe, para senti-la mais próxima? Ajudou-a a compreendê-la melhor?
Ajudou-me a conhecê-la porque não sabia nada sobre ela, a não ser aquilo que, biológica e inconscientemente trago comigo. Não o fiz por mim, não era essa a intenção: fi-lo porque queria contar a história dela [Lucia]
Percebi que era uma mulher que tinha sofrido tantas injustiças que, de alguma forma, precisava de ser resgatada, mas tentei manter a máxima honestidade possível. Não sabia o que iria descobrir: se tivesse descoberto que a minha mãe era egoísta ou uma pessoa sem escrúpulos, tê-lo-ia escrito.
Descobri, no entanto, que era uma mulher de bem, uma mulher que, simplesmente, queria viver a vida que tinha escolhido. Por isso, quanto mais a conhecia, mais me afeiçoava a ela. Também foi importante para poder transmitir aos meus filhos uma imagem concreta dos meus pais, e não aquela figura tão misteriosa e fantasmagórica que foram para mim.
“Infelizmente, a realidade demonstra que alguns homens não estão preparados para receber uma rejeição por parte das suas companheiras, não sabem lidar com o facto de serem deixados e reagem de forma instintiva e irracional.”
E no que diz respeito a Giuseppe?
Giuseppe é mais controverso, na verdade, porque já tinha uma família e não se portou bem, uma vez que deixou a esposa e os cinco filhos. Apaixonou-se perdidamente por Lucia que tinha 28 ou 29 anos mas, infelizmente, deixou aquela família com uma dívida assustadora. Acho que, infelizmente, foi este o motivo pelo qual a esposa não o reconheceu quando encontraram o corpo, para não herdar essa dívida monstruosa. Esta história teve grande ressonância nos jornais.
Cresceu com o peso desta história ou foi ganhando consciência do que aconteceu aos poucos?
Não. Soube desta história quando tinha quatro anos. Foi a minha mãe adotiva, Consolazione, que me contou. Escrevi um livro sobre uma mulher nigeriana a quem o Estado italiano retirou as duas filhas que, agora, não a querem conhecer porque, tal como acontece com muitos filhos adotivos, foram entregues para adoção.
Como todos os filhos adotivos, sempre tive um pacto de fidelidade muito forte com a minha mãe adotiva. Por isso, não é que fosse um tabu conhecer a história da Lucia, mas acredito que, se a realidade não me tivesse praticamente obrigado a conhecê-la, não teria investigado.
“Devemos, sobretudo, estar gratas às pessoas que vieram antes de nós: digo-o também no campo da literatura. Hoje em dia, na literatura, falamos nós próprias enquanto mães, por isso, a imagem da mãe foi completamente revolucionada. Antes não era assim, era a mãe sacrificada, sobretudo para nós, mães mediterrânicas.”
O livro nasce de fatos reais, mas mais do que um texto jornalístico, um documentário, é uma obra narrativa que se lê também como um romance. O quão importante foi encontrar o tom certo para contar a história da sua mãe?
Essa foi a parte mais difícil, porque perguntava-me onde é que me devia colocar. Torno-me em Lucia e conto a história na primeira pessoa, como se soubesse tudo, ou conto-a na terceira pessoa? No fim, escolhi a verdade, ou seja, escolhi contar a minha investigação. Apareço no livro apenas como a filha, que é aquilo que é verdadeiro, e conto precisamente os factos tal como aconteceram: esta filha de 56 anos que vai, juntamente com a sua própria filha, à procura da mãe e da avó de Ana.
Percebi que a coisa mais honesta seria, precisamente, contar a investigação, mas foi resultado de uma reflexão porque, efetivamente, não era de todo garantido que fosse abordar a história deste ponto de vista.
Essa história é também uma forma de lembrar às mulheres de gerações futuras a importância de defenderem os seus direitos e de continuarem a lutar pela sua liberdade?
Absolutamente. Devemos, sobretudo, estar gratas às pessoas que vieram antes de nós: digo-o também no campo da literatura. Hoje em dia, na literatura, falamos nós próprias enquanto mães, por isso, a imagem da mãe foi completamente revolucionada. Antes não era assim, era a mãe sacrificada, sobretudo para nós, mães mediterrânicas.
Devemos sentir gratidão pelas pessoas que nos permitiram ter, por exemplo, a lei do divórcio, direitos — ainda não todos, mas caminhamos no sentido da igualdade — e poder falar da própria maternidade também com as suas sombras, incluindo aqueles dias em que só nos apetece estar sozinhas: enfim, tudo aquilo que faz parte da realidade. É fundamental, na minha opinião, recordarmos as conquistas sociais.
“Seria muito mais sensato que a humanidade se preparasse para o futuro, em vez de se opor ao inevitável, numa resistência obtusa que apenas provocará novas mortes evitáveis.”
O feminicídio em Itália ainda é uma realidade. O país ainda se encontra abaixo da média da União Europeia no Índice de igualdade de género e, a cada passo, ouvimos falar de ondas de feminicídio como a que ocorreu no passado mês de Agosto. Que tem a dizer sobre isto?
Têm surgido, ultimamente, vozes que chegam ao ponto de negar esta evidência. Felizmente, parece-me que a atenção continua elevada. Quando vou às escolas apresentar o livro que escrevi sobre um caso judicial de violência doméstica, “Magnifico e Tremendo Stava L’amore”, encontro jovens muito bem preparados. Mas, obviamente, não conheço as escolas onde este tema nem sequer é abordado, para além de estar em causa a aceitação da proposta de educação sexual e afetiva.
Infelizmente, a realidade demonstra que alguns homens não estão preparados para receber uma rejeição por parte das suas companheiras, não sabem lidar com o facto de serem deixados e reagem de forma instintiva e irracional. Tenho, no entanto, grande confiança nos Centros de Apoio e Escuta para homens agressores [Centri di ascolto per uomini abusanti] porque já é tempo dos homens assumirem a responsabilidade pelos seus comportamentos. É tempo também da reação perante a violência não ser inteiramente colocada nos ombros das mulheres, que acabam por ser culpabilizadas por não conseguirem libertar-se de uma relação violenta. É um percurso longo e tortuoso, cheio de recaídas. Aprendi-o ao escrever o livro: vi o abismo que engole aquelas famílias e aprendi a não julgar.

Sendo a Itália um país caracterizado por uma forte onda de imigração, seja para o estrangeiro ou mesmo internamente, dentro do país, como interpreta a crescente resistência aos imigrantes, cada vez mais forte na Europa? Como acha que o governo de Meloni tem lidado com a questão?
Como já referi, publiquei há pouco um livro que conta a história verídica de uma jovem nigeriana vítima de tráfico, a quem o Estado italiano retirou duas filhas, declarando-as em situação de abandono, enquanto a mãe, há já 12 anos, bate a todas as portas para poder, pelo menos, voltar a vê-las.
Ao estudar as migrações provenientes de África, descobri que o Saara encerra mais mortes invisíveis do que o Mediterrâneo. Penso que temos memória curta. Também em “Escrito com sangue na água” estabeleço um paralelo explícito entre os imigrantes de hoje e os imigrantes italianos.
A propósito, dei uma entrevista ao La Stampa, um jornal de Turim, que atraiu uma avalanche de insultos. Do mesmo modo, considerei incompreensível e injustificada a suspensão do acordo de Schengen no passado mês de julho, que acaba de ser prorrogada.
É possível estabelecer uma correlação entre os próprios imigrantes italianos, o que passaram, e o que os imigrantes estão passar actualmente em Itália?
Os italianos, no estrangeiro, também foram frequentemente alvo de hostilidade. Em alguns países europeus, o reagrupamento familiar não era permitido e os pais eram obrigados a esconder os próprios filhos. Mas tudo isto [a hostilidade a imigrantes] surpreende porque toda a história da humanidade tem origem nas migrações: cada um de nós é fruto de misturas que nos tornam mais fortes, mais capazes, mais inteligentes. O esforço geral que está a ser feito para fechar as fronteiras é simplesmente sangrento e inútil, tendo em conta que a crise climática irá progressivamente esvaziar os países do Sul do mundo. Seria muito mais sensato que a humanidade se preparasse para o futuro, em vez de se opor ao inevitável, numa resistência obtusa que apenas provocará novas mortes evitáveis.
