Entrevista. Massimiano Bucchi: “Um paradoxo da nossa era é que todos se queixam da má qualidade da informação, mas ninguém quer pagar por ela”
Agradecimentos: Doutora Catarina Seabra, Science Communication Lead do Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra (IIIUC), pela cedência do local para esta entrevista.
Em Abril, a Comunidade Cultura e Arte esteve em Coimbra para entrevistar o Professor Massimiano Bucchi, professor de Ciência e Tecnologia na Sociedade e diretor do Mestrado SCICOMM, na Universidade de Trento, em Itália.
Bucchi já foi professor convidado em vários continentes, publicou livros em mais de 20 países e é ex-editor-chefe da revista científica Public Understanding of Science, sendo um académico de renome mundial e director do Observatório de Ciência em Sociedade observa.it. Esteve em Coimbra no passado mês de Abril para apresentar uma palestra sobre as tendências e mudanças na comunicação de ciência, no âmbito do evento da conferência inaugural “Sharing Science at UC” do IIIUC – Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra. À sua palestra, seguiu-se uma mesa redonda para debater o estado da comunicação de ciência, os desafios e desenvolvimentos, que contou também com a participação da Doutora Joana Ferreira e do Professor Paulo J. Oliveira, ambos Investigadores Principais da Universidade de Coimbra.
O Professor costuma descrever a comunicação científica como «a conversa social à volta da ciência», em vez de uma explicação hierárquica com uma só direção. Gosto muito da escolha destas palavras e estou curiosa sobre duas coisas: primeiro, porquê a escolha de “à volta” em vez de qualquer outra, e segundo, como é que esse conceito é recebido pelo público em geral?
“À volta” enfatiza a ideia da conversa social, que a comunicação científica é um fluxo, um fluxo contínuo. Assim, poderíamos ter dito «sobre a ciência», mas «à volta da ciência» transmite melhor a ideia, porque etimologicamente, «conversa» vem de «con versare», ou seja, algo como «estar juntos» e desfrutar do prazer de estar juntos a conversar, mas não apenas a conversar, e por isso enfatiza este conceito. E quanto à forma como é recebido, é um conceito principalmente para académicos, pessoas que praticam a comunicação científica. Mesmo que não conheçam o termo, para os cidadãos, as pessoas comuns, é bastante compreensível que a comunicação científica seja tudo o que é dito ou discutido sobre ciência em qualquer contexto.
Tendo isso em conta, há alguns debates paradigmáticos que têm resultados sociais drasticamente distintos: por exemplo, nas questões relacionadas com a Camada de Ozono, que foram de certa forma resolvidas ou estão em vias de ser resolvidas, graças à ratificação universal do Protocolo de Montreal, enquanto a relutância em relação às vacinas aumentou ligeiramente ao longo dos anos — felizmente, não de forma significativa —, mas teve consequências significativas devido à erosão da imunidade de grupo em alguns países. Por que acha que estes temas tiveram resultados tão diferentes?
Porque são temas diferentes. Um diz respeito às escolhas de políticas coletivas. O outro, mesmo que, por exemplo, em Itália — não conheço os números em Portugal —, os anti-vacinas, estritamente falando, são uma minoria muito pequena, de poucos pontos percentuais, muitas vezes sobrestimada, mas é isso que se passa. Penso que na nossa sociedade, tudo o que se relaciona com a saúde e o bem-estar é considerado uma prerrogativa individual. Assim, não é um reflexo de desconfiança na ciência, mas sim uma consequência do facto de vermos a nossa saúde e o nosso corpo muito mais como uma escolha individual do que no passado. E isto é confirmado pelas muitas práticas de cirurgia estética e todo o tipo de coisas que as pessoas fazem, porque pensam que são os donos e os senhores da sua própria saúde. Talvez seja, em parte, uma consequência disso, mas, como disse, estritamente falando, é uma minoria muito pequena.

Acha que isso é consequência de todas as áreas se terem tornado mais individualistas?
Pode ser, sim.
A este respeito, a edição de 2021 do Eurobarómetro indicou que mais de dois terços das pessoas querem que os cientistas participem nos debates políticos para garantir que as decisões tenham em conta os resultados da investigação. Tanto quanto sei, esta questão não foi repetida em Eurobarómetros posteriores. Cientistas famosos na política, como Merkel, Thatcher, Carter e o falecido Papa Francisco, não são, na sua maioria, conhecidos pelas suas contribuições científicas. Acha que ter um cientista na política é mutuamente exclusivo para ambas as missões?
Não, não creio. Penso que os cientistas fazem parte da sociedade e, por isso, não vejo grande diferença se se voltarem para a política. Há uma coisa a que chamamos «tecnocracia», por exemplo, que é mais evidente na China, onde os políticos de alto nível, endossam esta visão de que a política deve ser guiada apenas pela ciência e pela tecnologia. Mas numa democracia é perfeitamente natural que a ciência — e não apenas a ciência — seja tida em conta nas decisões políticas, mas que os cientistas estejam envolvidos. Não creio que os exemplos que mencionou fossem cientistas, mas sim políticos com formação científica.
Agora que menciona a China, há frequentemente queixas de que existe um tal excesso de informação que é difícil distinguir a realidade da ficção. Alguns governos, como a China, começaram mesmo a exigir licenças aos criadores de conteúdos nas redes sociais, a fim de os dissuadir de divulgar desinformação. Neste contexto, e dada a sua visão da comunicação científica como a «conversa social à volta da ciência», quais podem ser as consequências de excluir, ou silenciar, um subconjunto claramente interessado, ainda que oportunista, desta equação? E como devemos avançar de forma construtiva?
Numa sociedade democrática, a censura é sempre a pior opção, e a democracia também tem a ver com tolerar uma certa dose de estupidez e conteúdos inadequados. É claro que, quando se torna ofensivo ou perigoso, deve ser regulado, mas não acho que a solução seja policiar os meios de comunicação, porque sabemos que isso é muito perigoso em muitos aspetos. É muito difícil estabelecer a fronteira, a linha divisória entre o viés político e a desinformação, bem como a linha divisória entre ciência, informação e discussão política. Se pensarmos nas alterações climáticas, na vacinação e em toda a experiência da pandemia, vemos que a fronteira é muito ténue e que tudo está interligado. Assim que se começa a censurar o que se considera informação técnica, a tentação de censurar tudo o resto torna-se muito forte.
“Numa sociedade democrática, a censura é sempre a pior opção, e a democracia também tem a ver com tolerar uma certa dose de estupidez e conteúdos inadequados.”
Autores como Steve Tesich e Francis Fukuyama discutem frequentemente o conceito de «pós-verdade». Como um renomado estudioso em comunicação científica, acha que essa distinção entre facto e ficção é histórica evoluiu ao longo da história?
Essa é uma pergunta difícil, não sou historiador. Acho que a propaganda e o conteúdo ficcional sempre existiram. É claro que hoje os meios de comunicação são diferentes e é muito mais fácil fazer circular conteúdo. Não vejo uma tendência clara. É claro que o mundo é muito diferente, os meios de comunicação são diferentes e a forma como os utilizamos também é diferente, mas não creio que devamos caracterizar isso como pós-verdade, seja lá o que isso signifique.

Estou curiosa para saber se tem alguma dica técnica para o público leigo, pois salienta que o excesso de informação não é sinónimo de compreensão. Assim, numa era em que qualquer pessoa pode ler um artigo científico online, de que competências precisam realmente os cidadãos comuns? Tem alguma sugestão sobre como e quando o público em geral deverá adquirir esta informação?
É claro que o desenvolvimento de uma consciência crítica em relação à qualidade da informação é muito importante e não é uma tarefa fácil hoje em dia, sobretudo porque um paradoxo da nossa era é que todos se queixam da má qualidade da informação, mas ninguém quer pagar por ela. Portanto, não há uma solução fácil; é necessária uma certa regulamentação, especialmente no que diz respeito à responsabilidade e à proteção de certas categorias, como as crianças. Mas não tanto no que se refere ao conteúdo, mas sim à tecnologia das redes sociais. E quanto ao resto, o desafio é desenvolver uma consciência crítica e também a capacidade de explorar as oportunidades destas ferramentas sem sofrer demasiado com as implicações negativas, que são inevitáveis.
“A principal ligação que vejo entre a democracia e a ciência, e a comunicação científica, é a liberdade de expressão, que é, naturalmente, muito poderosa e importante, particularmente para as ciências sociais, mas não só.”
Não se trata apenas de adquirir informação, mas de saber, na prática, o que fazer com ela.
Sim, e poucas pessoas sabem como pesquisar o que realmente precisam, mesmo com a Inteligência Artificial. Portanto, deve-se aprender a usar estas ferramentas de forma crítica e não apenas aceitar o que o algoritmo quer que vejamos. Isso também deve ser feito nas escolas.
Existe uma forma ética de consumir Inteligência Artificial para comunicação científica, porque sinto-me muito hesitante em usá-la?
Acho que devemos estar o mais conscientes possível de como estas ferramentas funcionam e tentar tirar partido delas sem aceitarmos passivamente o que os proprietários destas tecnologias, as grandes empresas tecnológicas, querem que façamos com elas.

Passo agora ao seu livro Newton’s Chicken, no qual descreve as formas como a ciência se cruza com a culinária e vice versa. Essa metáfora é recebida da mesma forma em diferentes regiões geográficas: para os europeus do sul, como portugueses e italianos, a comida é parte integrante do nosso ethos, mas será que funciona igualmente bem para culturas que encaram a comida apenas como combustível e sustento?
Em termos gerais, funciona, porque a comida é algo que nos interessa a todos de uma forma ou de outra; como diz, tem mais ressonância cultural em certas partes do mundo. Mas, ainda assim, é algo que não consumimos apenas, é algo em que pensamos, sobre o qual falamos, que vemos na televisão. E o livro usa o tema da comida e da culinária como porta de entrada para compreender a relação entre a ciência e a cultura popular, e a comida foi central para essa relação desde o início da ciência moderna, no início do século XVII.
Outro conceito que descreve e sobre o qual gostaria de saber mais: a «culinária» é descrita como uma analogia para atos negativos e criminosos, como a fraude. Na história recente, a série de televisão Breaking Bad também utiliza a cozinha com uma intenção negativa (“cozinhar” metanfetamina). O que pensa sobre os cientistas serem retratados como vilões nos meios de comunicação, por vezes até como psicopatas ou sociopatas, e que consequências, se é que existem, se podem esperar disso?
O imaginário ficcional funciona sempre nos dois sentidos, porque capta algo que está presente na sociedade e na cultura popular e, depois, claro, desenvolve-se. Por isso, não creio que seja a causa de um determinado estereótipo ou representação, mas sim que incorpora certas características do imaginário popular, que também podem ser positivas, como sabemos em alguns casos. No fim de contas, em Breaking Bad, ele é o vilão, mas é também o herói da história. Afinal, trata-se de ficção; pode ser poderosa, mas sabemos que a imagem do cientista é uma das mais positivas na opinião pública, quando comparada com outras figuras profissionais. Portanto, se teve algum efeito, não foi assim tão negativo.
“O desenvolvimento de uma consciência crítica em relação à qualidade da informação é muito importante e não é uma tarefa fácil hoje em dia, sobretudo porque um paradoxo da nossa era é que todos se queixam da má qualidade da informação, mas ninguém quer pagar por ela.”
Numa entrevista de 2022 a Esa Valiverronen, mencionou «uma experiência espetacular e sem precedentes de comunicação científica», referindo-se à pandemia da COVID-19, bem como recordando uma «crise dos mediadores» discutida pela primeira vez há uma década. Agora que estamos um pouco mais distantes de 2020, como antigo editor-chefe da Public Understanding of Science, como viu o campo da comunicação científica evoluir e tem alguma previsão?
É sempre difícil prever o futuro. Penso que a comunicação científica se tornou mais visível, também para os decisores políticos e a opinião pública, em muitos aspetos. A razão pela qual desenvolvemos o conceito de «conversa social» com Brian Trench é que, teoricamente, o campo da comunicação científica não se desenvolveu de forma significativa nos últimos anos. Em termos empíricos, o desenvolvimento foi significativo, existindo vários estudos de qualidade. Mas, conceptualmente, não houve muitas novidades. Mas espero que a nossa compreensão continue — a comunicação científica está em constante mudança, é sobre isso que vou falar hoje, e, por isso, a nossa compreensão tem sido a de nos adaptarmos e mudarmos.

Portugal é uma democracia relativamente nova e, por coincidência, tanto Portugal como Itália celebram o dia 25 de abril como o dia da libertação de ditaduras repressivas. Encontrou alguma diferença entre a comunicação científica e a receção do público em democracias de longa data e nas relativamente recentes?
Essa é uma boa pergunta, nunca tinha pensado nisso nesses termos. A ciência desempenhou certamente um papel, mesmo antes de os países serem plenamente democráticos, na emancipação da sociedade e no desenvolvimento daquilo a que chamamos de sociedade secular. Isto é particularmente evidente na Europa desde meados do século XIX. Penso que a principal ligação que vejo entre a democracia e a ciência, e a comunicação científica, é a liberdade de expressão, que é, naturalmente, muito poderosa e importante, particularmente para as ciências sociais, mas não só. Essa é a principal ligação que vejo.
Depois de ouvir a sua discussão sobre o seu livro sobre o Prémio Nobel e seus vencedores no podcast «Bridging the Gaps», fiquei interessada na sua perspetiva sobre as conversas que aconteceram, que poderiam não ter acontecido, e vice versa, conversas que não aconteceram e poderiam ter acontecido. O que teria acontecido se Watson e Crick nunca tivessem conhecido Franklin ou Wilkins? E diz-se que Gregor Mendel conhecia Darwin, mas não o contrário. Podemos especular como teria sido a conversa social em torno da ciência com encontros fortuitos de mentes?
Podemos especular sobre tudo, mas é difícil. A circulação de informação pode ser algo muito bom e poderoso, mas também pode ser uma limitação por vezes; porque, por exemplo, um cientista pode abandonar um projeto quando sabe que outra pessoa o está a fazer. Tivemos casos na história da ciência em que descobertas importantes foram feitas de forma independente ou de maneiras diferentes, porque o cientista não sabia da existência de outros cientistas que estavam a trabalhar nos mesmos temas. Ou, no caso de Mendel, ninguém sabia deste trabalho até 30 anos depois. Por isso, é uma questão mental.

A especulação é, acima de tudo, uma questão filosófica. A sua investigação mostra que a comunicação científica chega frequentemente a pessoas que já se interessam por ciência — a famosa expressão «pregar aos convertidos». Como podemos chegar àqueles que sentem que a ciência não é para eles? Será realista, desejável ou mesmo viável que todos compreendam a ciência?
Depende do que entendemos por «compreender a ciência». Se se refere à compreensão do conteúdo técnico específico, então a ciência tornou-se muito difícil até para os próprios cientistas fora da sua área específica. Mas se se trata da conversa social à volta da ciência, das imagens, das sugestões, das implicações, da criatividade, da complexidade da ciência, então é algo compreensível para todos; ou dos usos políticos da ciência, é algo que diz respeito a todos nós.
Os cientistas e a tecnologia estão a fazer avançar o conhecimento humano mais do que nunca. Neste contexto, os seres humanos modernos correm o risco de perder o seu sentido de admiração pela vida? Ou seja, se compreendermos tudo tecnicamente e pudermos explicar todos os fenómenos da vida, será que podemos perder a admiração pelo facto de ela realmente existir?
Sim, este é um argumento que se avança por vezes. Não sei. Existem alguns exemplos na astronomia, na física e na matemática, em que a compreensão técnica e a apreciação estética se combinam e se reforçam mutuamente, por isso não sei se são mutuamente exclusivas.
Pode falar-nos um pouco sobre o que está a trabalhar neste momento? O que podemos esperar no futuro?
Sim, um dos temas que me interessa é o papel do som na comunicação científica. Sons naturais, sons médicos, música, a acústica de certos materiais. E como é que isso pode ser utilizado para a comunicação pública da ciência.
