Entrevista. Park Chan-wook: “Já não estamos só a competir uns contra os outros no trabalho”

por José Paiva Capucho,    11 Fevereiro, 2026
Entrevista. Park Chan-wook: “Já não estamos só a competir uns contra os outros no trabalho”
Park Chan-wook / DR
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Regresso do mestre que nos deu “Oldboy” acaba a ser desprezado pelos Óscares deste ano. Um dos grandes filmes saídos de Veneza em 2025 olha para a nossa relação com o trabalho, trazendo uma sátira negra para a mesa de uma família.

O Festival de Veneza não é para qualquer um. Sobretudo, para quem não tiver condições financeiras suportadas pela entidade empregadora para lá estar. Tudo acontece no Lido, uma ilha de velhos reformados que faz, há muitos anos, uma grande ode ao cinema. Parece contraditório, mas não é. A conversa a cheirar a debate ideológico entre esquerda e direita vem a propósito porque, à espera da Comunidade Cultura e Arte (CCA) e de outros tantos órgãos de comunicação social, está o realizador sul-coreano Park Chan-wook, mestre do cinema que aponta ao dedo aos efeitos do sistema capitalista nas nossas vidas, e de como nós, pessoas normais, podemos, de um momento para o outro, transformarmo-nos em monstros por tantos motivos e mais alguns. O realizador mete-nos os pés bem assentes na terra mas cheio de humor e cenas de ação de encher o olho.

“No Other Choice”, filme de Park Chan-wook

Na 82ª edição do festival, “Sem Alternativa” (“No Other Choice”), que chega agora aos cinemas portugueses, mostrou-se, em competição oficial, como um dos mais divertidos e ácidos olhares sobre o quão longe pode um homem ir para voltar a ter algo que pode definir a sua personalidade: o trabalho. Sabemos agora que foi ignorado pelos Óscares — como tem sido, infelizmente — mas isso, nem durante o evento, nem agora, lhe retiram o sentido de humor e perspicácia: “Já não estamos só a competir uns contra os outros no trabalho. É por isso que o final do meu filme é tão vazio. Tanto crime e tanto acto extremo para quê no final?”, questiona.

“Não consigo responder se a sociedade se vai unir contra o capitalismo, que consegue sempre reinventar-se.”

Esta sátira negra já está há vinte anos no forno, entre espera por financiamentos e criações de obras primas como “Old Boy”, de Park Chan-wook e teve uma primeira versão de Costa-Gavras de 2005, baseado no thriller literário “The Ax”, de Donald E. Westlake. O realizador de “The Handmaiden” (2016) e “Decision To Leave” (2022), decidiu voltar a esta história de um homem comum que perde o seu emprego — e com isso toda a sua masculinidade — e que, para o recuperar, decide enveredar pelo mundo do crime. Com muita graça, mas também com um sentido de oportunidade certeiro, pintando um retrato satírico mas muito sério sobre a relação que nós temos com o trabalho.

“No Other Choice”, filme de Park Chan-wook

Disfunção familiar, a ameaça da Inteligência Artificial, despedimentos colectivos e tomadas de poder de grandes conglomerados empresariais e You Man-su (Lee Byung-hun, uma das estrelas da famosa série “Squid Game”, da Netflix), o nosso protagonista, à beira de um ataque de nervos banhado a sangue. Mas, ao mesmo tempo que se vai afastando da sua família à procura de voltar para o seu posto, descobrindo uma nova paixão: a arte de matar. “De certa forma o You Man-su torna-se num monstro, evolui para o que conhecemos como assassino. Vai recuperando a sua confiança. Começa como alguém que perdeu o emprego e todo o seu sentido de masculinidade. Mas, se acreditarmos no seu bom coração, pode ser que tenha ganho alguma culpa no final. Há esperança, espero”, revela à CCA. Fé no mundo vinda de um homem que é desprezado por parte da indústria? Bem se precisa.

É que apesar de se tratar de uma sátira laboral onde uma certa ideia de família (com dois lindos labradores à mistura) é completamente destruída, a ameaça maior vem mesmo de mãos não humanas dentro daquela fábrica de papel. Que é como quem diz: da Inteligência Artificial. “A tontice maior nesta história é que a competição por um lugar numa empresa já não é só entre humanos, há pessoas a serem despedidas por causa da IA”, argumenta Park Chan-wook. Portanto, o protagonista de “No Other Choice” arrisca-se a ir parar à prisão, e a meter-se nas mais mirabolantes situações para se livrar de alguns funcionários da empresa, para nada. “Todos esses crimes, todos estes actos extremos, foram para quê?”, pergunta.

Park Chan-wook durante as filmagens “No Other Choice”

A sua forma recta e crua de contar histórias torna-se mais saborosa porque Park Chan-wook usa técnicas — desde a música a movimentos de câmara — que utilizam o inusitado da ação para fazer crítica social. Sobretudo, vindo de um país com uma das maiores cargas laborais do mundo, como a Coreia do Sul. “Não consigo responder se a sociedade se vai unir contra o capitalismo, que consegue sempre reinventar-se. Neste filme, aponta-se a arma à pessoa errada. Se o protagonista fosse mais esperto, mudava o modo de atuação, fazia um sindicato, uma organização, apontava a arma ao sistema. Não fez nada disso, usou a coragem para algo errado”, afirma.

“No Other Choice”, ao contrário de filmes como “O Agente Secreto”, “Sirat” ou “It Was Just An Acident”, não foi nomeado aos Óscares este ano. Saiu do Festival de Veneza sem prémio algum. O realizador sul-coreano continua a ser daqueles casos designados como “mestres do cinema” mas para o lado de fora da indústria de Hollywood. Em 2020, pouco tempo antes de começar a trágica pandemia de Covid-19, o filme “Parasite” impactou totalmente os Estados Unidos da América, ao bater recordes e vencer várias estatuetas douradas, fazendo com que o mundo ocidental desperta-se para o riquíssimo cinema da Coreia do Sul. O realizador Bong Joon-ho ficou nas bocas do mundo e furou um sistema que parecia impenetrável, como se comprova no seu mais recente filme, “Mickey 17”, com Robert Pattinson à cabeça. Só que depois, ficámos todos em casa. “O sucesso do “Parasite” foi o pico da história do K Cinema mas “No Other Choice” não é a resposta” a esse filme: “já tinha isto na cabeça há 20 anos!”, responde o cineasta. “Temos muito orgulho desse feito, infelizmente, depois veio a pandemia, os cinemas fecharam e continuamos a sofrer as consequências da Covid-19. Continuámos com o orgulho, mas perplexos”. Ainda assim, também Park Chan-wook conseguiu furar e trabalhar em inglês: “Stoker” (2013) ou “The Sympathizer” (2024) são exemplos disso mesmo.

“No Other Choice”, filme de Park Chan-wook

O tempo em Veneza para entrevistas é curto. E, na recta final, Park Chan-wook, numa mesa com alguns jornalistas onde estava também a CCA, conseguiu não falar muito da política à volta do festival e focar-se no essencial do seu cinema. “Sim, é verdade, o lugar casa é sempre importante nos meus filmes. Existe uma palavra em sul-coreano que tanto significa família como casa. O espaço físico é importante para nós. Se morarmos numa habitação emprestada ou não tivermos uma nossa é sinal de insegurança”, argumenta. O realizador sabe fazer retratos certeiros e trazer a sua cultura mas não pretende ser um porta-voz. Tem projetos que vão finalmente ver a luz do dia, “The Brigands of Rattlecreek” ou “Genocidal Organ”, e parece sempre falar como se estivesse em início de carreira. E, não sendo “No Other Choice” autobiográfico, conseguimos, já mesmo no fim, sacar uma semelhança: “Posso dizer que já estive desempregado. Penso sempre que o meu mais recente filme é o último”, sublinha o cineasta.

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