Entrevista. Patrícia Reis: “É urgente termos espaços de incerteza, de dúvida, de diálogo, de espaços para não termos razão”
Na era das certezas absolutas, Patrícia Reis relembra com o livro “O Lugar da Incerteza”, principalmente através da dicotomia de um psiquiatra para quem a razão é importante e de um padre que duvida, como deveríamos ter “espaços de incerteza, de dúvida, de diálogo, enfim, espaços para não termos razão.” E acrescenta: “vivemos nesta violência da razão e por isso escrevi “O lugar da Incerteza”, para dizer que não temos de nos precipitar, temos de ir com mais calma, pensar um bocadinho e conversarmos mais uns com os outros. Estamos muito acelerados, por um lado, e muito condicionados pela manipulação do algoritmo, que é bastante mais real do que imaginamos.”
Desde a sua opinião sobre o estado do jornalismo actual e a falta de recursos, Patrícia Reis esclarece também, através da sua experiência no mestrado em Ciências da Religião, o quão pouco sabemos de outras igrejas cristãs — principalmente a Evangélica, quando já tem uma ramificação dentro de um partido político português — como também acerca do Irão, não esquecendo que Trump já fez nove intervenções militares desde o início deste seu segundo mandato.
Nesta entrevista que a autora concedeu à Comunidade Cultura e Arte (CCA), no Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, fala também sobre as consequências das redes sociais — “não temos mais acesso à informação, temos mais acesso a conteúdos” — sobre a violência nas relações e, também, como chegámos a um período tanto social como político mais instável. Ou melhor, como tal não se prende só a um factor, mas a vários factores em conjunto que nos conduziram até aqui, avisando que nem tudo é preto no branco e visões simplistas também podem ser perigosas. No entanto, também alerta que é importante os mais jovens terem a sua própria janela de esperança. ”Esta geração mais nova é a que olha e diz assim: ‘fiz uma licenciatura, vou ganhar um ordenado mínimo, o planeta está a rebentar pelas costuras, o Trump é o presidente nos Estados Unidos e há um tipo de extrema direita em Portugal que acha que as mulheres devem ir para trás do fogão.’ Se formos só nesta enumeração de disparates, como é que podemos crer que depois as novas gerações tenham entusiasmo para a vida?”, sublinha a jornalista e escritora.
Uma vez que a sua base é o jornalismo, quando escreve um livro o jornalismo, de alguma forma, está sempre lá no processo de escrita ou consegue separar bem as coisas quando se trata de ficção e jornalismo?
Consigo separar perfeitamente as duas coisas. O jornalismo tem uma técnica, tem uma deontologia e é uma prática completamente diferente da ficção — não tem nada a ver. O que o jornalismo pode fazer — já aconteceu com outros livros anteriormente, nomeadamente com “As Crianças Invisíveis” — é servir como ferramenta de pesquisa e então, dessa forma, tenho perfeita noção de que, como jornalista, tenho ao meu dispor essas ferramentas de forma mais depurada do que a maioria das pessoas. Posso valer-me das técnicas do jornalismo para reunir informação.
Dito isto, a ficção e a literatura são, depois, a transformação e a transfiguração das coisas, não são o decalque da realidade, nem seria interessante que o fossem. O jornalismo é sobre a realidade do outro, mas o outro é real. Já a ficção é sobre a forma como encaramos os outros, aquilo que nos incomoda e o que queremos propor como pensamento. Por isso, consigo separar bem: existe a Patrícia jornalista e a Patrícia escritora.
Mas, no que diz respeito à literatura, o ser jornalista pode ajudar, de alguma forma, a ser como uma esponja que absorve o que vê, a realidade à volta, as experiências que decorrem.
Se tivermos um olhar de jornalista — e tenho um olhar de jornalista todos os dias, acredito que uma pessoa é jornalista, não está jornalista — temos uma forma muito específica de ver o mundo e, de facto, é uma esponja que está interessada e tem curiosidade por tudo: na verdade, está atenta ao mundo. Isso, obviamente, tem influência na forma como se faz a prática da ficção e da literatura. Acho que essa contaminação é inevitável, mas são, volto a repetir, duas coisas completamente diferentes.
“A escola não é suficiente para formar um indivíduo. O indivíduo depende, sempre, da família e do sítio de onde vem.”
A Patrícia criou a revista Egoísta, uma revista cultural feita para coleção e achei bastante curioso que, enquanto estava a fazer a minha pesquisa, a Patrícia chegou a referir várias vezes que, como editora, não se preocupava com os cortes de texto neste sentido: se uma entrevista pedir umas dez, 15 ou 20 páginas, já aconteceu o caso, vão essas páginas todas. Este respeito pelo espaço que o texto pede é importante porquê? Isto é curioso porque, geralmente, somos ensinados ao contrário: um texto demasiado longo tem menos probabilidade de não ser lido.
Tenho 55 anos e estou nos jornais desde 1988 e, portanto, faço parte daquela geração de jornalistas que teve o enorme privilégio de conseguir escrever textos nos jornais e nas revistas com mais de 30 mil caracteres. Acredito piamente no jornalismo escrito, não tanto no jornalismo televisivo. O jornalismo escrito dá-nos a possibilidade de ter contexto e isso precisa do seu espaço.
Não é possível não ter espaço. Se uma entrevista tem 22 páginas e tenho o privilégio de poder publicar, publico. Foi o que aconteceu com a entrevista que a Maria Flor Pedroso fez à Leonor Beleza e que me entregou. Achei que era uma oportunidade. Não era para cortar, era para ter tudo.

Não será mais fácil, porém, isso acontecer no jornalismo cultural? Pergunto isto porque se olharmos para a história do jornalismo, até para a história do jornalismo em geral, na verdade, era feito também por escritores. Temos o caso do Hemingway, por exemplo.
Temos o António Mega Ferreira, o Assis Pacheco, felizmente temos muitos. Temos a Inês Pedrosa e muitos escritores que felizmente passaram pelos jornais. Mas a coincidência de uma pessoa ser jornalista e também escritor implica necessariamente esta separação de se saber ao que se vai, porque o jornalismo não é de todo ficção, nem nunca poderá ser.
O que acontece, hoje, nas publicações culturais, que são cada vez menos, é que o espaço é cada vez menor, ao mesmo tempo que as publicações ditas generalistas, digamos assim, também auferem um espaço muito confinado à cultura. Quando comecei nos jornais, não havia telemóveis, computadores, nada dessas coisas. Os cronistas eram naturalmente escritores que também eram jornalistas ou não, mas os escritores estavam nos jornais.
Hoje os escritores já não estão de forma tão evidente nos jornais, mas para dar um exemplo muito específico, a Maria Teresa Horta começou no jornalismo quando tinha 18 anos, antes do 25 de Abril, foi jornalista a vida inteira e toda a vida se disse jornalista. Não deixa de ser uma das grandes poetisas que temos, nem uma das nossas grandes ficcionistas. No espaço da crónica, um género muito específico dentro do jornalismo, a Maria Teresa [Horta] tinha uma abordagem mais pessoal e dentro do âmbito do território literário, porque era uma crónica. Mas não numa reportagem ou entrevista. São coisas diferentes.
Como olha para a evolução do jornalismo cultural hoje em dia, dentro dos jornais generalistas?
Penso que, infelizmente, o jornalismo cultural tem cada vez menos espaço, mas também acho que o jornalismo, hoje em dia, está muito focado no impacto negativo do que acontece. Há uma perspetiva negativa das coisas e há uma tendência para se escrever só sobre o que é negativo.
Mas isso é uma tendência do jornalismo ou é uma tendência da realidade actual?
É uma tendência do mundo, mas temos boas notícias todos os dias, felizmente. Elas existem, mas não as valorizamos.
E quanto a mais publicações culturais que não, especificamente, as secções de cultura dos jornais generalistas. Precisamos de mais? Temos as suficientes? Seria preciso investir mais em publicações?
Para termos mais publicações culturais com peso e capacidade de distribuição, com capacidade para serem apelativas para os leitores de diferentes cidades, precisávamos de um grande investimento, porque hoje tudo precisa de ser comunicado até à exaustão. Muitas vezes, o que acontece é que não há capacidade financeira para fazer esse investimento. Portanto, os projetos culturais ou estão ligados a empresas ou fundações — é o caso da Egoísta e da Electra, que é a revista da Fundação da EDP — ou dificilmente sobrevivem porque as pessoas compram cada vez menos papel. Acaba por ser algo de nicho. Por isso é que é tão importante que os jornais generalistas tenham espaços de cultura e suplementos culturais.
“A ficção e a literatura são, depois, a transformação e a transfiguração das coisas, não são o decalque da realidade, nem seria interessante que o fossem. O jornalismo é sobre a realidade do outro, mas o outro é real. Já a ficção é sobre a forma como encaramos os outros, aquilo que nos incomoda e o que queremos propor como pensamento.”
Mas a questão de serem de nicho, será porque as pessoas estão menos interessadas no papel ou porque essas publicações, já por si, nascem e crescem dentro de uma bolha?
Não é a cultura, tudo nasce e cresce dentro de uma bolha. A malta da economia também diz que tem uma bolha que é só deles. A malta do desporto também tem uma bolha que é só deles.
Mas o objetivo é falar para quem está fora desses meios.
Claro, obviamente, o que estou a dizer é que é muito fácil criarmos estas bolhas. O objetivo é sempre falar para quem está fora. Mas hoje, isso implica um grande investimento em comunicação. É só isto que estou a dizer. Quando queremos que alguma coisa vingue, temos necessariamente de comunicar. Para isso é preciso dinheiro. Hoje em dia, para atrair alguém para um livro, uma revista ou uma publicação específica dentro de uma determinada área, também precisamos de comunicação. As pessoas estão muito viciadas nos telemóveis, nas redes sociais: lêem três ou quatro linhas e está bom.
Há uma grande tendência para o comodismo e para promover o não-pensamento: não penses tanto, lê só assim umas coisas e apanha o que acontece só assim no ar. Precisávamos de uma grande campanha nacional de incentivo à leitura, porque a leitura promove o vocabulário, uma construção frásica melhorada e permite-nos manter o vocabulário.
Estamos a simplificar cada vez mais o vocabulário e a leitura, sobretudo, permite-nos uma coisa inacreditável: o pensarmos sobre as coisas e a capacidade de as conectarmos umas com as outras. Hoje vivemos num mundo ao revés, parece que ninguém quer exatamente promover pensamento e isso é uma grande preocupação.
Mas não é um contrassenso, na altura em que dizemos que temos mais acesso à informação?
Não temos mais acesso à informação, temos mais acesso a conteúdos.
Fomos levados a crer que isso seria informação, ou passamos a ter mais informação, mas paralelamente já não há tanto tempo para leitura.
Não há tanto tempo para leitura, mas o português médio passa nas redes sociais cerca de quatro horas por dia, tem imensa graça.
Porque são feitas para viciar?
Provavelmente, como sou viciada em livros desde sempre, tenho alguma dificuldade. Não estou a dizer que as redes sociais não tenham o seu espaço e não sejam importantes, atenção, embora sejam o cano de esgoto da humanidade, por onde tudo aquilo que é feio e horroroso passa de uma forma impune. Acredito que é urgente, nesta altura do campeonato, termos espaços de incerteza, de dúvida, de diálogo, enfim, espaços para não termos razão. Vivemos nesta violência da razão e por isso escrevi “O lugar da Incerteza”, para dizer que não temos de nos precipitar, temos de ir com mais calma, pensar um bocadinho e conversarmos mais uns com os outros. Estamos muito acelerados, por um lado, e muito condicionados pela manipulação do algoritmo, que é bastante mais real do que imaginamos.

Também há esta consequência: podemos falar e dar a nossa opinião, mas criámos esta ilusão de que somos especialistas em tudo, basta ver um vídeo de cinco minutos sobre um tema.
Por isso digo que conteúdo não é jornalismo e conteúdo não é informação. Estamos muito cheios das nossas certezas nas redes sociais. É isso a que chamo violência da razão: as pessoas estarem tão preocupadas em ter razão. Acho muito mais interessante as pessoas estarem mais preocupadas em poder dizer “eu não sei, gostava de falar sobre o assunto e ouvir a tua perspectiva”. Mas as pessoas também não estão muito interessadas em ouvir os outros, estão muito mais interessadas em se ouvir a elas próprias. Há uma capacidade de escuta ativa muito limitada hoje em dia.
O que a levou a tirar o mestrado em Ciências da Religião?
As religiões são basicamente história, psicologia e filosofia. São três áreas de estudo que me interessam muito e acho que estamos muito mais formatados pelas diferentes religiões, e pela forma como impactam a nossa existência, do que o que queremos aceitar como válido. Tenho um enorme fascínio por religiões e fui, portanto, fazer o mestrado para ter um ginásio mental. Tinha uns 47 anos, já não me recordo, adoro estudar e achei que era uma boa oportunidade. Depois do mestrado inscrevi-me no doutoramento, fiz o primeiro ano que é a parte chata, a parte curricular, e depois desisti porque não estava tão motivada quanto isso, mas o mestrado foi incrível e aprendi muito. Recomendo a toda a gente.
“Acredito piamente no jornalismo escrito, não tanto no jornalismo televisivo. O jornalismo escrito dá-nos a possibilidade de ter contexto e isso precisa do seu espaço.”
Mas acha que falta também literacia em relação às outras religiões? Até para nos ajudar a perceber melhor o mundo em que vivemos?
Falta, certamente. Ninguém sabe nada sobre o Islão neste país. Temos uma ideia, sabemos assim umas coisas pelo ar. Mas são só ideias. Ajudava muito tentarmos perceber as coisas antes de condenarmos aquilo que não conhecemos, seja em que circunstância for. Falamos, neste caso de religião, que tanto pode ser a islâmica, como a judaica. Devíamos tentar perceber. Devíamos tentar perceber, mas temos a arrogância de pensar que a nossa fórmula de vida é a correta. Em Portugal, somos basicamente resultado de um ADN judaico-cristão e sabemos muito pouco das igrejas cristãs.
Acha que sim? Das igrejas cristãs também?
O que se sabe sobre a capacidade da Igreja Evangélica em colocar-se dentro dos partidos políticos? Sabe-se alguma coisa? Só para dar um exemplo, falo da Igreja Evangélica que é profundamente politizada em vários países — podemos citar o Brasil só para simplificar — mas já está instalada em Portugal e com um pezinho em partidos políticos. Seria, se calhar, interessante os senhores jornalistas irem investigar e perceber o que são os evangélicos: ao contrário dos católicos, não têm uma hierarquia, não há um papa e cada igreja existe por si só. Não existe, portanto, uma Igreja Evangélica, existem várias, muitas igrejas evangélicas.
Esse processo de regulação do poder, essas ideias e como as processamos, para mim, é muito interessante. Vivo fascinada ao tentar perceber a cabeça dos outros.
Tocamos aqui em dois pontos essenciais, a Igreja Evangélica e o Islão. Por um lado, em relação ao Islão, há partidos políticos que podem fazer uso das ideias feitas que temos sobre religião de forma populista e manipulada. Em relação à Igreja Evangélica, é muito interessante porque, se calhar, há pessoas que pensam que vão encontrar ali um certo tipo de cristianismo familiar ao que conhecemos, mas é diferente.
Acho que tudo isso é passível de estudo e de alguma curiosidade. Logo, curiosidade significa ir à procura e aprender. Aprender é uma coisa incrível.
Em relação à obra “Lugar da Incerteza”, porquê que é que decidiu deitar as personagens deste livro no divã? Ou seja, porquê a escolha do psiquiatra em torno do qual várias histórias acontecem?
Tenho um grande fascínio por psiquiatria e acho que os psiquiatras também observam as pessoas a partir de determinadas categorias. O que tentei foi que este psiquiatra, que está cheio da sua razão — a razão para ele é muito importante — conseguisse ser, ao longo do livro, desmontado da sua certeza e fosse transfigurando a sua forma de estar por conta desta contaminação através dos seus pacientes, da sua filha, da sua ex-mulher e por aí fora.
As personagens que me surgiram primeiro foram o psiquiatra e o padre: o padre porque tenho este fascínio por religiões e achei engraçado tentar criar um diálogo entre alguém que tem muita razão e que vem da ciência — psiquiatria — e alguém que está assente na fé e que está cheio de dúvidas. Ou seja, como é que este encontro poderia surgir.
“O jornalismo cultural tem cada vez menos espaço, mas também acho que o jornalismo, hoje em dia, está muito focado no impacto negativo do que acontece”
E isso tem tudo a ver com o excerto do Michael Cunningham que decidiu colocar no início: “You measure people first by their kindness and their capacity for devotion. You get tired, sometimes, of wit and intellect; everybody’s little display of genius.” Achei interessante porque há também aqui esta dualidade entre a inteligência e a bondade. Se calhar a inteligência ou saber, por exemplo, quem foram os Yes [a banda], pode não ser tudo.
Acho que o maior investimento que temos é a gentileza, a bondade e a capacidade de estarmos disponíveis para os outros. Isso para mim é essencial. É um bocado lamechas, provavelmente. A maior parte das pessoas dirá que é lamechas para a ciência, mas vivo bem com isso. Acredito que é muito mais interessante ser gentil do que ser um génio seja em que área for, não interessa.
A inteligência sem bondade pode ser perigosa? Se calhar também estamos a assistir a isso.
Estamos, sim. Estamos a assistir a isso. A inteligência sem bondade pode ser bastante perigosa e pode dar muito mau resultado. É um facto. A bondade é bastante mais interessante e é um património bastante mais rico do que só a inteligência pura e dura.
“O maior investimento que temos é a gentileza, a bondade e a capacidade de estarmos disponíveis para os outros. Isso para mim é essencial. Acredito que é muito mais interessante ser gentil do que ser um génio seja em que área for, não interessa.”
Assim como a ideia de poder e de força sem bondade também pode ser perigosa.
Também pode ser perigosa. Sim, claro.
Num post seu, nas redes sociais, escreveu precisamente sobre a campanha da APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima sobre a localização de outras pessoas através do smartphone. Escreveu como isso se relacionava precisamente com a relação da Isabel e Camila: a forma como o telemóvel era controlado sem se saber. Há também uma falta de literacia para o controlo emocional nas relações amorosas?
Se quer saber, acho que há uma falta de literacia em tudo. As pessoas não se querem informar, fazem-no pela superfície e não aprofundam coisa nenhuma: vão só navegando no algoritmo que lhes dá aquilo que querem promovendo, acima de tudo, o não-pensamento. Acho que as pessoas têm de aprender a estar no compromisso emocional mas cada relação é uma relação e cada pessoa é uma pessoa. Neste caso, especificamente no triângulo Isabel, Bárbara e Camila, há circunstâncias muito específicas. Há pessoas que querem coisas, fantasiam e atiram-se de cabeça: a Camila atira-se de cabeça para engravidar porque quer recuperar a namorada, não é porque quer engravidar.
Vive nessa ilusão de que se ela fizer este gesto altruísta, a Isabel vai voltar para ela. Claro que isso é bastante imaturo e uma ilusão até bastante infantil por parte da Camila. Mas o que é interessante nas pessoas é a sua complexidade, a sua contradição, a sua capacidade de não serem coerentes a vida inteira, de duvidarem: hoje é assim, amanhã é assado. Esse património característico das pessoas, o seu espectro emocional tão vasto e tão oscilante, é irresistível para qualquer escritor.
“Em Portugal, somos basicamente resultado de um ADN judaico-cristão e sabemos muito pouco das igrejas cristãs.”
Mas neste caso em específico também parece que estamos a assistir a um retrocesso quanto aos níveis de violência no namoro quando deveria ser o contrário. Devíamos ter uma maior inteligência emocional.
Se calhar, hoje em dia, já deveríamos ter uma melhor inteligência emocional relativamente aos conflitos bélicos, à pobreza, à fome, aos estados de calamidade e por aí fora. Estamos no século XXI e aprendemos muito pouco. Continuamos a cometer erros completamente estúpidos. Não há outra maneira de o dizer. Há uma estupidez na condição humana que não se repete, porque a história não se repete exatamente, mas rima.
Agora é o Irão, mas já deveríamos saber mais. Quem diz o Irão, diz a Ucrânia e por aí fora, porque existem não sei quantos conflitos no mundo. É atroz a lista de conflitos que existe no mundo, mas também é atroz perceber que, do ponto de vista do comportamento dos seres humanos, as mulheres, em momentos de crise, são sempre confrontadas com a possibilidade de poderem perder os seus direitos adquiridos.
Quando falam sobre o aborto, por exemplo, fico de cabelos em pé. Quando me dizem que os estudos apontam que a violência no namoro é cada vez maior — de rapazes para raparigas, de raparigas para rapazes, de rapazes para rapazes e de raparigas para raparigas — uma pessoa pergunta a si mesma, mas isto vem de onde? Porque é que isto é assim? Porque é que as pessoas acham que têm que mandar umas nas outras? Porque é que as pessoas consideram ainda as namoradas ou os namorados como propriedade sua?
Posso interrogar e tentar perceber, mas tenho grande dificuldade, confesso. Tenho também um grande desgosto porque nunca imaginei chegar aos 55 anos e o mundo estar neste estado. Para mim é um mundo de avesso, a vários níveis.
Nunca pensamos que certos líderes estariam agora no poder.
Não, pois não. Nunca imaginei.
No denominado mundo livre.
Também nunca imaginei que em um ano sob a presidência de Trump, ele entrasse em conflitos bélicos com seis ou sete países. E ainda temos mais três anos. [Trump já fez nove intervenções militares desde que foi eleito]. Como é que é possível que um país como os Estados Unidos tenha este presidente? Como é que isto aconteceu? São milhões de pessoas a votar naquela criatura. Não são dezenas, são milhões. Como é que isto acontece? Porque é que acontece? Não tenho estudos para isso.
Mas a escola falhou, ou criámos a ilusão, nestes anos da democracia, de que a escola estava a ter um bom papel e que a partir de uma determinada altura só seria possível a evolução.
A única coisa que lhe sei dizer é o seguinte: em 52 anos de democracia, Portugal cresceu e melhorou extraordinariamente. Há 52 anos, uma parte substancial da população era analfabeta. Não havia ensino obrigatório, serviço nacional de saúde, não havia, não havia e não havia. A lista é extensíssima. Como é típico dos portugueses, preferimos queixar-nos do que está mal do que olhar para aquilo que está bem ou para aquilo que melhorou. Há muita coisa que melhorou e a escola também faz parte desse conjunto de coisas. Se a escola é suficiente para formar um indivíduo, não é. O indivíduo depende, sempre, da família e do sítio de onde vem. Se tenho em casa um pai que grita com a minha mãe, se calhar vou gritar com a minha namorada, independentemente da escola. As generalizações, portanto, também não nos ajudam. Não podemos dizer: “A escola e o sistema escolar não estão a ajudar-nos a evoluir enquanto seres humanos.” Se calhar há algumas pessoas que não, se calhar há outras que sim. Estas generalizações são muito perigosas também. Há sempre espaço para melhoria, para evolução, mas as coisas não são preto no branco. Não dá para apontar o dedo a uma só coisa: às famílias, ao governo, ao Trump, às redes sociais. É um conjunto de coisas que faz com que o mundo, muitas vezes, pareça andar para trás em vez de andar para a frente. O interessante e fundamental é que existam espaços de debate para que as pessoas possam pensar e conversar sobre os assuntos. Parece é que estes espaços de debate não existem com tanta facilidade hoje em dia.
“As religiões são basicamente história, psicologia e filosofia. São três áreas de estudo que me interessam muito e acho que estamos muito mais formatados pelas diferentes religiões, e pela forma como impactam a nossa existência, do que o que queremos aceitar como válido.”
Já que focou essa questão, durante algum tempo os debates políticos que existiam eram, sobretudo, sobre posições económicas. Agora são mais pautados a nível ideológico, e de forma mais extremada.
Não acho que isso se deva só a uma coisa, é um conjunto. É esse conjunto de coisas que é interessante analisar, mas também é importante conversarmos, partilharmos opiniões, histórias, testemunhos, e tentarmos encontrar soluções em conjunto. Isso é fundamental e penso que a nossa classe política está muito afastada daquilo que é a realidade do cidadão comum.
Não terá sido isso, o afastamento da classe política, ou de uma elite, das classes populares, que levou essas mesmas classes sentirem-se atraídas pela imagem de um líder?
A única resposta que tenho é que leiam o livro do Miguel Carvalho sobre o Chega [“Por dentro do Chega“] e depois chegamos a diferentes conclusões. No meio das coisas positivas, existem muitas outras que falharam. As que falharam tiveram aspectos fundamentais em certos círculos.
Estou em Lisboa: é muito diferente a vida em Lisboa ou no Porto, do que a vida em Trás-os-Montes ou no Alentejo. Muitas vezes as pessoas sentem-se profundamente abandonadas porque deixaram de ter centros de saúde, escolas perto, e sentem-se abandonadas pela política. Os políticos só vão ao interior do país quando estão em campanha, basicamente. É ler, portanto, o livro do Miguel Carvalho.
“A nossa classe política está muito afastada daquilo que é a realidade do cidadão comum”
Já que falámos das diferentes realidades das várias regiões, ainda há pouco tivemos a ameaça da VASP em acabar com a distribuição dos jornais. Trás-os-Montes seria uma das regiões afetadas.
Também há outra pergunta que podemos fazer: A VASP está a distribuir nestes distritos, mas depois vai buscar os exemplares dos jornais e das revistas para o abate, ou os jornais e as revistas vendem? Qual foi o último jornal que a Ana comprou? Qual foi a última revista? Posso lhe dizer que compro os jornais todos os dias. Já não conheço ninguém que faça isto.
É preciso uma renovação do negócio e perceber que o mercado de consumo da comunicação social mudou. Mesmo assim, os negócios de comunicação social digitais têm muita dificuldade em vingar. Queremos muito ter uma resposta simples para tudo, sobretudo para aquilo que está mal. Acho que é mesmo muito difícil termos uma resposta simples.
Em relação à pergunta que me colocou, sobre a última vez que comprei um jornal ou revista, também posso dizer que na minha cidade nunca vi à venda as revistas culturais de culto de que os meus colegas de Lisboa ou Porto falam.
Mas não há assim tantas revistas culturais de culto: contam-se pelos dedos das mãos. Têm uma tiragem muito reduzida e vivem ali na corda bamba. É, depois, uma pescadinha de rabo na boca. As pessoas não compram porque não encontram; não encontram porque ninguém compra; ninguém compra, ninguém distribui. As variantes do problema são tantas, que não há uma resposta simples. Há, claramente, uma transformação do consumo a partir do momento em que temos redes sociais e internet, isso é evidente.
Não há volta a dar, vamos ter de viver com isso e cada vez mais com a inteligência artificial. É melhor mentalizar-nos de que é assim, mas isso não significa que não tenhamos, por exemplo, as Correntes d’Escritas com o auditório literalmente cheio, só para ouvir escritores. Não se ouve um telemóvel: isso é admirável, mas ainda possível.
Estas situações dão-nos esperança. O festival existe há 26 anos e todos os anos tem público. Qualquer festival literário, independentemente de onde seja, tem sempre gente. O que significa que as pessoas também querem estar presentes, ouvir os escritores e desfrutar dos músicos e poetas. Ainda há esperança e isso é importante. Se não tivermos esperança estamos, pura e simplesmente, a dizer às gerações mais novas que é tudo uma merda. Não pode ser tudo uma merda. Esta geração mais nova é a que olha e diz assim: “Fiz uma licenciatura, vou ganhar um ordenado mínimo, o planeta está a rebentar pelas costuras, o Trump é o presidente nos Estados Unidos e há um tipo de extrema direita em Portugal que acha que as mulheres devem ir para trás do fogão.” Se formos só nesta enumeração de disparates, como é que podemos crer que depois as novas gerações tenham entusiasmo para a vida?
A esperança é necessária para mantermos a democracia no futuro?
Com certeza. Assim como termos um papel ativo. Todos os nossos gestos são políticos. Todas as nossas conversas são políticas. Toda a nossa troca de ideias é política. Isso é fundamental porque enquanto as pessoas viverem isoladas dentro do seu smartphone sem partilharem, não crescem, não são confrontadas com outras perspectivas, nem promovem pensamento. Vivem só na solidão digital e, hoje em dia, é das coisas que mais me assustam porque afeta tudo o resto.
