Entrevista. Patrícia Reis: “Um dos meus grandes orgulhos é ter conseguido fazer esta biografia em tempo de vida da Maria Teresa Horta”

por Magda Cruz,    5 Fevereiro, 2025
Entrevista. Patrícia Reis: “Um dos meus grandes orgulhos é ter conseguido fazer esta biografia em tempo de vida da Maria Teresa Horta”
A biógrafa de Maria Teresa Horta, Patrícia Reis
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No início do ano passado, Patrícia Reis publicou a biografia de Maria Teresa Horta, um desafio que começou em 2019. O livro dá pelo nome A Desobediente, o cognome que mais se encaixa na Teresinha, como a biógrafa lhe pôde chamar, graças à relação de confiança que construíram. 

Com o falecimento da poetisa Maria Teresa Horta (1937-2025), recuperamos a entrevista de Magda Cruz à biógrafa, onde a jornalista nos dá a conhecer a mulher que fez parte das Três Marias, por que atribulações passou durante a ditadura e que obra deixa. 

Aconteceu de tudo a Maria Teresa Horta: foi censurada, ganhou inimigos dentro do regime, foi espancada por escrever e sofreu às mãos do primeiro marido. São alguns episódios da vida de Teresa, contados num livro da editora Contraponto.

Magda Cruz: Porque é que nos interessa ler sobre a vida dos outros?

Patrícia Reis: Porque somos todos uns voyeuristas, para começar. [risos] Em Portugal, nós somos tão cuscos, até acho estranho que as biografias não sejam um género literário mais amado, mais lido. Nós gostamos sempre de perceber o que está atrás da vida da pessoa. O Vergílio Ferreira tem uma frase de que eu gosto muito, que cito muitas vezes, porque eu acho que faz muito sentido, que é: «Um livro é um biombo atrás do qual a gente se despe». E eu acho que se tu fores procurar a vida de alguém, consegues espreitar um bocadinho desse biombo, o que é que se passa aí atrás. E as biografias têm esse fascínio de se perceber a outra dimensão de uma pessoa que tem uma carreira pública, seja em que área for. No caso da Maria Teresa, tanto no Jornalismo como na Literatura, mas também no ativismo porque a Teresa é feminista ativa.

MC: E sempre o disse. 

PR: E sempre o disse e sempre foi. Ficas com uma outra noção, não é? E eu acho que também te ajuda a entender a obra da Teresa, neste caso, de uma outra forma. Acho que tu consegues perceber que a Teresa expôs a vida toda na obra dela e perceber porque é que tomou determinadas opções. 

MC: Isso é na dimensão da leitura. Na dimensão da escrita, o que é que há na biografia, para ti, para já teres escrito três. Com esta, quatro? De Vasco Santana, de Maria Antónia Palla, de Simone de Oliveira e agora de Maria Teresa Horta.

PR: Há um enorme sentido de sacrifício, há uma autoestima muito em baixo [risos] e há a mania de que o consigo fazer, apesar de ser um trabalho insano.

MC: É difícil escrever uma biografia, mas depois regressas. 

PR: É, mas esta é a última que eu vou fazer. Está publicado. Eu digo, sempre que alguém me entrevista sobre A Desobediente: «É a última. Não farei outra». A não ser que seja a do Cristiano Ronaldo, com um contrato milionário e um plano de internacionalização. Do ponto de vista financeiro, [escrever uma biografia] é um trabalho insano e que não justifica. Tu não vai ganhar dinheiro suficiente para compensar quatro anos de trabalho tão intenso. E com ma responsabilidade tão grande, sobretudo, tratando-se da Maria Teresa Horta, por ser a Maria Teresa Horta e por estar viva [aquando da publicação, em 2024]. É uma responsabilidade imensa. 

MC: Confundes-te com ela, a certo ponto?

PR: Às vezes, sim, durante a escrita. Houve ali processos de identificação muito grandes. Há coisas na Teresa que eu percebo muito bem. A sensação de carência, a sensação de abandono, a traição, o gerir mal (ou bem) os conflitos, enfim. Há várias coisas que eu acho que qualquer pessoa se pode identificar com ela. E há muitas mulheres que se vão, claramente, identificar com ela. Agora, repara: todas as biografias são muito diferentes. O Vasco Santana já cá não estava e era uma biografia muito curta. Foi um convite da Inês Pedrosa. E para te ser muito sincera, não voltei a ler. Portanto, recordo-me pouquíssimo. Sei que deu muito trabalho de pesquisa, mas recordo pouco de esse trabalho ter sido duro. Não tenho essa memória. A [biografia da] Simone de Oliveira não foi nada duro. Foi bastante divertido. Lembro-me de rirmos e chorarmos e comermos chocolates e sopa. E passarmos horas infinitas naquela casinha muito pequenina, a que ela chamava «o meu pombal». Era uma biografia assente na voz dela. Implicou, obviamente, pesquisa, e aí a minha costela de jornalista beneficia-me muito. Mas foi diferente. No caso da Maria Antónia Palla, é uma biografia a quatro mãos, sendo que é sobre a vida dela. Portanto, eu tenho de respeitar o ritmo dela, a forma dela, a narrativa dela, o vocabulário dela… E ajudar a construir, a pesquisar e a parte mais, digamos, chata da recolha de informação. Mas não é um trabalho exclusivamente meu.

MC: É dividido.

PR: Na [biografia] da Teresa, a razão pela qual eu acho maravilhoso que o Rui Couceiro, o editor da Contraponto, tenha criado esta coleção de biografias é também por dar espaço e querer que os autores sejam escritores.

MC: É essa a premissa interessante da coleção.

Capa do livro / DR

PR: Essa premissa dá-lhe uma dimensão literária muito… Para mim, foi brutalmente confortável, percebes? Porque era a vida da Teresa, mas eu podia ser um bocadinho eu. A escrita podia ser um bocadinho a minha escrita. Sem deturpar, sem inventar porque há um lado de verdade que importa manter, mas podia ser um bocadinho a minha escrita.

MC: E com a Teresa tiveste uma grande conversa ou foi sempre uma entrevista?

PR: Não, eu nunca tive entrevistas com a Teresa. Foram centenas de conversas, centenas. Ainda hoje tenho conversas com a Teresa. E é um privilégio.

MC: Como é quando ligas? «Olá, Teresinha»?

PR: «Então, Teresinha. Como estamos?» É assim que começa.

MC: E como é que ela responde, de lá?

PR: «Ah, minha querida…» E depois na, na, na…

MC: É uma relação que começa em 2019, quando começas o trabalho? Não, mais cedo? Quando é que a conheces?

PR: Não, não. Muito anterior. Eu conhecia a Teresa. Quer dizer… Era difícil eu estar nos jornais… Eu comecei no Jornalismo em 1988, o que significa que já cá ando há muitos anos a virar frangos. [risos] Mas, a Teresa era incontornável nessa altura. A Teresa era uma grande jornalista e, além disso, foi chefe de redação da revista Mulheres. Todas nós, jornalistas, liamos a revista Mulheres. Era impossível não ler. Era uma referência. Eu, depois, coincidi com ela na Marie Claire. Ela fazia o dossiê Mulheres, na Marie Claire, a convite da diretora, que era a Inês Pedrosa. Mas não desenvolvemos assim uma amizade. Era a Teresa, não é? Aquele ícone. Estava lá no sítio dela, eu estava aqui no meu. [risos]

MC: Já era bom poder dizer que partilhavam o mesmo espaço.

PR: Sim, sim. E ela era colaboradora, portanto não estava na redação. Ela chegava, entregava o seu material, discutia matérias aqui e ali, contava uma ou outra história e ia embora. Sendo que o chefe de redação, até determinada altura, era o marido dela. Depois ele sai, ela vem. Enfim. Mas para dizer que não tinha uma relação com ela. Tinha esta admiração, e este respeito imenso, e esta ideia de que ela foi pioneira em tanto, que deu espaço a mulheres como tu, como eu, como tantas outras. E depois, um dia, não sei se há 24 se há 25 anos, num pequeno-almoço num evento literário das Correntes d’Escritas, mais uma vez a Inês Pedrosa disse-me «Vamos nos sentar com a Teresa» e, a partir daqui, houve um clique de empatia, de sintonia, de compreensão. Foi muito fácil a minha relação com a Teresa.

MC: E, depois, no momento de escrever esta biografia, decides o momento de abertura. São dois episódios muito fortes da vida da Maria Teresa.

PR: O momento de abertura é a memória inaugural da Teresa. A primeira grande memória da Teresa é essa: da mãe pegar nela e a pendurar, pelos pés, à janela. E de ela ver a rua, cá em baixo. E é um momento em que ela percebe que a mãe é, nas suas diferentes dimensões, (a mãe sofria com uma depressão pós-parto violentíssima), e pode ser também a mãe-perigo. E esse é um momento de vislumbre de uma mãe com que ela não contava. E passa a ser muito vigilante do comportamento da mãe.

MC: Mesmo assim, acaba por a perdoar, em vários momentos da vida.

PR: Ela toma as dores da mãe, ela toma a defesa da mãe. Eu acho que essa defesa da mãe é o território fundador do seu feminismo. Que é poder dizer «Não, a minha mãe pode ter uma vida em liberdade. A minha mãe pode casar com quem quiser.»

MC: Mesmo quando a abandona. Ela sente um abandono.

PR: Ela sente um abandono. Sempre, toda a vida.

MC: Diz que é o seu primeiro abandono.

PR: Toda a vida. Ela não tem qualquer espécie de pudor em dizer que é uma pessoa carente por causa disso. E porque ao mesmo tempo que a mãe a abandona, a avó morre. E a avó Camila era uma referência brutal na vida da Teresa. E, portanto, para a Teresinha, este é um território fundador para quem vai ser a Teresa Horta. Eu acho que quem compreender a infância e a juventude da Teresa depois compreende tudo o resto.

A autora Patrícia Reis com a jornalista Magda Cruz, em abril de 2024, aquando da gravação da entrevista

MC: E a partir daí seguimos o que será o caminho dela pela vida.

PR: O caminho dela pela vi que é atribulado, é um romance autêntico. Tudo lhe acontece. Não há nada que não lhe aconteça. Ela é censurada, ela tem inimigo dentro do regime — que era o Moreira Baptista —, ela é espancada na rua, ela tem um primeiro casamento que, enfim…

MC: O marido chega a prendê-la dentro de casa.

PR: Ela faz uma tentativa de suicídio, ela tem um cancro de mama, ela vai para o emprego, para o desemprego, para o emprego, para o desemprego.

MC: E sempre num corpo fraco.

PR: Sempre, sempre, super frágil, mas sabes como é que diz o ditado português: «Mulher doente, mulher para sempre»

MC: E acaba até por ultrapassar o marido, coisa que ela achava que seria ao contrário. E é outro abandono.

PR: Ele era mais novo que ela. Ela tem mais quatro anos que o Luísde Barros. Ela nunca contou com isto. Isto é um golpe terrível. São 56 anos de casamento.

MC: Ela que nem contava apaixonar, se dizia que era perigoso.

PR: Era perigoso e não ia acontecer.

MC: Até se junta, primeiro, só para se emancipar…

PR: Sim, é um gesto rumo a uma certa liberdade, não é? Perceber que, saindo debaixo da asa do pai e da mãe, tem outro tipo de possibilidade.

MC: E compreende a mãe, de novo.

PR: E compreende outra vez a mãe, claro. Portanto, eu acho que a mãe é fundamental. O pai também. O pai e o conflito com o pai, a validação ou não do pai…

MC: Apesar de, às vezes, parecer o vilão no romance.

PR: Eu não vejo assim, sabes?

MC: Eu senti como uma farpa o facto, por exemplo, de ele não ter guardado os exemplares que ela lhe foi dando ao longo dos anos. Mas isso pode ter sido um acaso, pode ter acontecido qualquer coisa aos livros.

PR: Pode ter acontecido qualquer coisa aos livros. Eu, por exemplo, custou-me mais perceber que o Luís de Barros não assistiu a uma única sessão de tribunal das Novas Cartas Portuguesas. Quer dizer, eu contaria que o meu marido estivesse lá.

MC: Estivesse lá para, pelo menos, a apoiar.

PR: Pelo menos para a apoiar. E ela nunca o confrontou com essa mágoa. E fala disto abertamente, está no livro.

MC: No caso das Novas Cartas Portuguesas, tem apoio internacional e não tem de com quem se deita.

PR: Lá está. Portanto, há muita coisa na vida da Teresa que é contracorrente, percebes? E é sempre atribulado, tudo é atribulado. Nunca nada é evidente. Olha, não há família tradicional. Não há uma vida tradicional. [risos]

MC: Como é que escreveriam agora as Três Marias, se o livroIdentidade e Família, de António Bagão Félix, Victor Gil, Pedro Afonso e Paulo Otero, tivesse sido publicado na altura? Como é que reageriam?

PR: Esta polémica da família tradicional? Acho que o que uma delas faria era um texto sobre Maria, José e Jesus, que não é uma família tradicional, porque era uma rapariga solteira que engravida de uma entidade superior, supostamente, e depois o José acaba por aceitar casar com ela. Isto é tudo menos tradicional. Não é verdade? [risos]

MC: Ou seja, expunham…

PR: A hipocrisia de tudo isto. Não há famílias tradicionais. Há famílias tradicionais e dentro da família tradicional «pai, mãe, filhos» há violência, há bullying, há violência sexual, há violência psicológica. A maioria dos casos de agressão sexual são no seio da família, dita tradicional. Ora, para mim, como para a Teresa, para tanta gente, por ventura, mais gente do que estes senhores que escrevem estas coisas ditas mais conservadoras e com uma certa moral. Essa carga de moral é que me perturba imensamente. Porque não somos, ninguém é. As pessoas não são perfeitas. As pessoas têm todas momentos em que são infelizes na forma como dizem as coisas ou agem. Nós não somos perfeitos. E não há fiel da balança para isto. Não há certo e errado. E para mim, amor é tudo. Se tu pensares que nas instituições portuguesas estão cerca de 60 mil crianças, é o estádio do Benfica completo. Se isto não impressionar ninguém, se as pessoas não perceberem que é preferível que as crianças sejam adotadas por duas mães, por dois pais, por pai só, por uma mãe só, todos os modelos de família são válidos. Todos. Porque é que nós nos encantamos tanto quando um cão adota um gatinho bebê? Então… Para mim, existem dois tipos de família, não é? Eu tenho a minha família biológica, aquela que é minha sem eu ter pedido, não é? E que tem elementos da família que eu ainda hoje me questiono, por que carga de água é que tenho de os aturar. [risos] E depois tem a família lógica, que é a família que eu escolhi, que são os meus amigos, que é o meu marido, que são os meus filhos, que é a minha melhor amiga, que é aquela pessoa a quem eu telefono a dizer «Sabes lá o que me aconteceu?» Percebes? E isso para mim está tudo certo. Família lógica, família biológica.

MC: Depois também, numa perspectiva do que a Teresinha foi fazendo, que foi lutando contra estas ideias retrógadas. Numa crónica no Sapo24, escreves: “Um livro é uma arma transformadora do mundo. As palavras têm um poder incalculável. Espalham-se e repetem-se. As ideias que sustentam deveriam estar consagradas num sentido de humanidade. Mas nem sempre é assim. Que haja quem considere pertinente, nesta altura da história do nosso país, da sociedade global, um livro como este, é tão-somente assustador.” Como é que se combate estas ideias assustadoras que querem abalar direitos?

PR: Como toda a vida combatemos outras atrocidades, na história da sociedade, que é não vergar, não ceder, não calar, não acomodar, não dizer «Ah, isto passa.» Não passa nada. Não passa porque nós não vamos deixar que passe. É simples. E enquanto as pessoas verbalizarem, mobilizarem-se, manifestarem-se e promoverem debate…Atenção. Há uma coisa que hoje dia fala-se muito, escreve-se muito, diz-se muito, faz-se muitos comentários, muitos likes, toda a gente tem coisas para dizer. De repente, as redes sociais deram este palco tremendo a toda a gente. Eu acho que é maravilhoso quando é promotor de ideias, de debates e de pensamento crítico. Não é incrível nesta toada em que estamos muitas vezes que é «Ou estás comigo ou estás contra mim». Isso é muito pouco interessante, é muito pouco democrático. Na verdade, o que é interessante é o debate. É fundamental. Não é «Eu sou do Benfica, tu és do Sporting. E não nos damos.» Não. Bora lá então conversar sobre isto… Bora lá concordar que discordamos, mas falar de uma forma civilizada e não deixar de dizer as coisas.

A biógrafa de Maria Teresa Horta, Patrícia Reis

MC: Pegando nessa palavra «civilizada». O título que deste a esta biografia é A Desobediente.

PR: É o que ela é.

MC: E a palavra aparece várias vezes no livro para ilustrar comportamentos. Mas deparaste com algum outro cognome?

PR: A desobediente, a insubmissa, a libertária, a revolucionária, a pioneira. Para a Teresa tens uma coleção imensa de palavras que se ajustam, mas que todas elas vão desembocar numa certa desobediência. [risos] E eu acho que ela é desobediente e gosta de ser desobediente, porque a Teresa também se alimenta dessa desobediência, dessa revolta, dessa constante voz que ela assumiu que não ia calar. A Teresa nunca vergou, a Teresa nunca se calou. A Teresa levou encher de pancada na rua por escrever livro de poesia. Caramba! Não deixou de escrever, pelo contrário. Pelo contrário. Ela nunca pensou estrategicamente: «O mercado editorial funciona assim, eu preciso de…

MC: Foi conhecendo as pessoas que também a acolheram, logo com o primeiro livro, e que a levaram mais longe e que lhe deram contactos.

PR: Mas mesmo isso… Ela nunca pensou de uma forma estratégica. Ela nunca disse «Eu vou agradar a este crítico, eu vou agradar a Academia.

MC: Ela respeitava muito a crítica.

PR: Mas ela não respeita nada. Ela só respeita as pessoas que respeita. Ela não respeita por princípio. Eu acho muito bem. Eu também não respeito por princípio. Eu respeito a pessoa porque a pessoa… Respeitar a instituição ou as instituições, dependendo das instituições é uma outra conversa. Mas respeitar a pessoa… Há críticos altamente respeitáveis e depois há os outros, que não são tão respeitáveis assim, ou que nós não compreendemos, ou que nós achamos que do ponto de vista ético o trabalho não está bem feito, ou isto, ou aquilo, ou aqueloutro. E na Academia a mesma coisa. A Teresa começa por ser estudada pela Academia Brasileira. Aliás, como Fernando Pessoa. Porque nós não festejamos o talento das pessoas que temos cá. Só festejamos quando eles são reconhecidos lá fora, validados lá fora. Ainda hoje é assim. É uma tristeza, sabes?

MC: É uma desilusão para ti?

PR: É uma grande desilusão, mas um dos grandes orgulhos que eu tenho é ter conseguido fazer esta biografia em tempo de vida da Teresa. Ou ter feito uma egoísta homenagem à Agustina enquanto ela cá estava. Esta coisa deste paiszinho pequenino do póstumo. «Vamos fazer agora, que já cá não está para chatear…» Porquê? Nós não sabemos festejar. Nós somos um país… Qual é última palavra dos Lusíadas? «Inveja», não verdade? Ora lá está. Nós somos um país que não sabe festejar, somos país que critica com uma facilidade tremenda…

MC: Temos um Prémio Nobel da Literatura e, na altura, não foi acarinhado.

PR: Nada. Nós não temos cultura de festejo. Temos cultura de inveja, temos cultura de cobrança, temos cultura de maldizer, de criticar, de apontar o dedo. Isso é tudo muito cansativo. Eu estou muito farta disso, confesso-te. E estou numa fase da minha vida que é assim: tenho menos anos à minha frente daqueles que tenho para trás de mim. Portanto, não posso desperdiçar energias. Tenho de escolher muito bem onde é que quero ir desperdiçar a minha vida.

MC: E foste a esta batalha, de escrever a biografia de Maria Teresa Horta.

PR: E fui a essa batalha. E por isso te digo, foi insano, às vezes doloroso, foi muito trabalhoso, é de uma grande responsabilidade. Não faço outra. Uma semana depois de isto ter vindo para a rua, ligaram-me a perguntar se eu faria a biografia… Não vou dizer de quem, mas uma grande figura.

MC: É bom sinal porque gostam do teu trabalho, mas…

PR: Ótimo! Do ponto de vista do ego, o meu ego está… acarinhado. Eu agradeço muito. Mas não… É pá, perguntem-me «Então, vais escrever um romance?» Caramba! Eu sou uma romancista, não me especializei em biografias. Aconteceram umas biografias. Perguntem-me o que é eu vou fazer. Outras coisas. Perguntem-me porque é que eu gostei de fazer a curadoria da exposição do fotoginalista Alfredo Cunha. Estás a perceber o que eu quero dizer?

MC: Então deixem-me perguntar-te. Tens vários romances. Estás a pensar em voltar a esse género. Temos livro de contos em cima da mesa, também, «Vinte Grandes Contos de Escritoras Portuguesas».

PR: É uma edição da Sibila, que eu adoro. É maravilhosa e tem contos incríveis. E começa logo com Ana Plácido.

MC: Só de escritoras portuguesas.

PR: Sim, só de escritoras portuguesas, o que significa que elas existem, não é? É assim como as mulheres no podcast «Um género de conversa». Olha tantas mulheres a dizerem coisas interessantes.

MC: Quem diria que há vozes femininas que podem ter chamadas para debates.

PR: Em áreas tão distintas, não é? Espetacular. Como é que se continua a fazer debates na televisão…

MC: E algumas com mais conhecimentos do que…

PR: Do que muitos homens. E como é que se continuam a fazer debates e balanços do ano em que o painel é só masculino? Pois é a vida, não é verdade? O caminho faz-se caminhando, cá estamos para continuar a dizer que ser-se feminista não é uma questão de género. É uma questão de inteligência.

MC: Aí está uma boa frase.

PR: Eu tenho muito gosto em de ter feito a biografia, estou muito aliviada, estou muito contente. Não acho que seja perfeita, é uma biografia contaminada de afeto também, é verdade, mas acho que eu fui honesta no trabalho que fiz e acho que fui favorecida por ter a confiança da Teresa.

MC: A própria Teresa perguntava «Porque é que te metes nisto?» O que é que lhe respondias? [risos]

PR: Eu ria-me. [risos] Houve momentos em que pensava «Porque é que me meti nisto?» É muito trabalho. É, de facto, muito trabalho. Eu espero que chegue às pessoas e deem umas às outras.

MC: É um volume bastante maneirinho para o que é a vida da Teresa.

PR: Podia ser muitíssimo maior. Eu tive de fazer opções e escolher é excluir.

MC: Deste mais importância à infância e à juventude.

PR: Sim, à infância e à juventude. Sim, à primeira idade adulta. Dei porque eu acho que justifica toda a vida da Teresa. A partir daí, tu percebes a Teresa. Se perceberes a Teresinha, percebes a Teresa. E eu espero que as pessoas leiam e que gostem e, sobretudo, que possa promover a obra da Teresa, que é incrível, e que chegue às novas gerações.

MC: Ainda vamos falar de livros. Antes, queria te perguntar, ainda agora falávamos do Prémio Nobel da Literatura, a Teresa foi apontada pela Sociedade Portuguesa de Autores, a certa altura. Achas que ainda há hipótese?

PR: Em 2019. Não, não acho que haja qualquer espécie de hipótese, porque no regulamento do prémio diz que é preciso ter dois volumes publicados na Suécia. Ora, a Teresa não tem uma obra internacional como a Agustina não tinha, como tantas outras não têm. Sueco, senhora, quem é que publica na Suécia? Pois é… Por exemplo, eu não vou ganhar este prémio. [risos]

MC: Pode ser com biografia do Ronaldo.

PR: Só se for… Cristiano, liga-me.

MC: Ainda na Teresa, quem conhece a obra de Maria Teresa Horta, ou mesmo a história de vida, sabe que As Novas Cartas Portuguesas foram escritas a seis mãos, com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. E toda a gente já pensou nisto, aliás é uma grande preocupação também da PIDE, que é quem é que escreveu o quê.Tu, enquanto uma das pessoas que melhor conhecem a escrita da Teresinha, consegues perceber que textos…

PR: Acho que é uma enorme arrogância nós queremos… Com exceção da primeira carta, que foi escrita pela Maria Isabel Barreno. Isso é público. Elas fizeram este pacto porque decidiram também contaminar a escrita, a própria escrita, das referências e da forma como as outras escreviam. E, portanto, esta osmose, esta contaminação faz com que seja muito difícil depois de dizer «Espera lá, a Teresa usa…»

MC: Nem elas sabem…

PR: Não, a Teresa sabe. A Teresa sabe e a Maria Velho da Costa também sabia. E acho que a Isabel também sabia. Agora, elas fizeram este pacto e nunca quebraram… E nós podemos ter a arrogância de dizer assim «Este vocábulo é da Teresa», do universo da Teresa, não é?

MC: E é engraçado se estivermos redondamente errados.

PR: E podemos estar redondamente errados porque a Maria Velho da Costa pode ter dito «Ah, vou usar isto», não é? Ou a Isabel. «Vou usar isto porque é da Teresa». E esta contaminação é que é interessante.

MC: Numa obra a seis mãos, isso é que é interessante. Então, vamos perceber porque é que escolhes «Anunciações», de Maria Teresa Horta, para trazer ao podcast. Porquê este livro e não outro?

PR: Foi por causa desse livro que eu escrevi uma dissertação de mestrado sobre a Teresa, numa área onde as pessoas acham que eu não me colocaria. Eu fiz o mestrado em Ciência das Religiões. Eu sou absolutamente fascinada por religiões. Que na verdade é História, Filosofia, Psicologia, Sociologia. Enfim, é um conjunto de coisas. E, portanto, a minha proposta para o meu orientador era… Eu gostava de fazer uma dissertação sobre a influência das narrativas bíblicas numa pessoa que renegou totalmente a fé, que era um princípio da família. E ela diz «Eu não acredito, eu não vou mais à missa, eu não compactuo com isto, eu não consigo entender isto», por causa do dogma de Maria. E eu achava isto fascinante. Fui falar com a Teresinha, disse-lhe que ia fazer este mestrado e que, no final do mestrado, escreveria uma dissertação sobre ela e a influência das narrativas bíblicas. Ela olhou para mim e disse-me assim: «Tu não estás bem, não há nenhuma influência das narrativas bíblicas na minha obra». E depois eu fui provar por A mais B, porque é que há, desde os anjos…

MC: Os anjos, que aparecem desde cedo.

PR: Sim. Mas também é preciso dizer que a avó Camila também lhe passou esse património. E é cultural, é educacional. Está no nosso ADN. Nós não temos como nos livrar de uma tradição judaico-cristã. Existe, não é? Ainda agora celebramos a Páscoa. Enfim, e depois acabou por me dizer, «Sim, tens razão».

MC: E porque é que devemos ler este livro, «Anunciações»?

PR: É um romance em forma de poesia. E é um romance sobre a reivindicação de Maria do seu papel de mulher através de uma construção ao avesso da história. Portanto, há uma anunciação de facto, que é o anjo Gabriel, que vem, mas que se apaixona por ela. Portanto, a seguir há sexo. A seguir, nasce o Salvador e Deus zanga-se e manda aos seus anjos espiões. É fascinante.

MC: A imaginação que a Teresa teve para desafiar um dogma.

PR: É tão fascinante. Ela desafia tudo. Ela dizia-me «Isto é uma heresia, não vou conseguir que o Tolentino apresente o livro. Tolentino ainda não era cardeal, mas, enfim, é membro do clero. E o Tolentino fez uma apresentação do livro brilhante, devo dizer. E escreveu sobre o livro. E o livro é incrível, porque o livro dá uma dimensão humanista a Maria. E devolve-lhe algum poder, não lhe devolve todo o poder porque depois no fim não corre bem. Mas eu não vou fazer spoiler.

MC: Fica para a leitura.

PR: É um empoderamento de Maria, em certa medida. É um facto, mas é muito mais do que isto. E, finalmente, Maria ter uma voz. Não há, em nenhum dos evangelhos, uma frase de Maria. Uma. É sempre silenciosa, obediente, servil, bondosa, submissa. Portanto, tudo o contrário da Teresinha. [risos]

MC: Serviu para carregar e educar.

PR: Sim, e para calar e para servir. E este modelo, esta Santa Trindade, que nós podemos ir buscar às narrativas bíblicas da Eva manipuladora e mentirosa, da Maria silenciosa, obediente, mãe. E depois a desgraçada da Madalena, que há um Papa no século XI que decide que ela é prostituta. Não há nada na Bíblia que diga que a senhora é prostituta, que ela tenha sete demónios dentro do corpo, que Jesus retira, como retira a outros. E nós, ainda hoje, achamos que era prostituta. É uma coisa que ficou. É inacreditável. Esta Santa Trindade feminina define muito os servos desses senhores que escreveram o tal livro sobre o qual nós não vamos fazer propaganda, portanto não vamos dizer o título, vamos dizer nomes, não vamos dizer nada. Esses senhores da família tradicional partem deste quadro, desta Trindade. As mulheres são isto. Ora, as mulheres não são isto. São muito mais do que isto. O livro é fascinante, as «Anunciações» é fascinante. É um livro que eu recomendo muito.

MC: Achas que a Maria Teresa ainda publica antes de…?

PR: Não. Não acho, tenha a certeza. A Teresa continua a escrever todos os dias e a datar os seus poemas, como toda a vida fez. Há milhares de poemas naquela casa, em todo o lado, em pastas e pastinhas, dentro de livros, na mesinha à frente dela perto da televisão, na mesa de cabeceira, em todo o lado. O facto de ela ter recusado manter-se ativa, no computador, não lhe permite, depois, trabalhar o poema. E eu acho que estes últimos anos foram anos muito difíceis para a Teresa, é evidente. Anos muito solitários. Repara, o Luís de Barros morre em novembro de 2019 e a seguir temos a pandemia.

MC: Foi duríssimo.

PR: Foi duríssimo e a Teresa vai fazer 87 anos, no dia 20 de maio [de 2024]. Portanto, diria que não…

MC: Não podemos pedir-lhe mais.

PR: Não, ela deu-nos tudo. Não podemos pedir mais. Temos de a resguardar, tratar-la bem, dar-lhe colo e mimo, que é o que ela merece. E é tarde. Todo o reconhecimento e todas estas coisas…

MC: A um nível institucional, gostavas que houvesse?

PR: Eu acho que ela já deveria ter tido o Camões. Com certeza. Estão muito atrasados, é muito injusto. Sabes? É muito injusto. Mas, lá está. É uma personagem incómoda. Não é consensual. É desobediente. A Teresa teve pouquíssimos prémios. Pouquíssimos. Porque ninguém sabe o que é que vai sair daquela boca. Porque ela é uma mulher coerente. Claro que ela não queria receber um prémio das mãos de Pedro Passo Coelho, enquanto primeiro-ministro. Claro que não. Obviamente que não. É uma questão de coerência. Se calhar, outras pessoas teriam dito «Bom, é um prémio, é uma instituição e teriam acatado. Ela não faz cedências, sabes? Aquilo em que acredita e é aquilo em que acredita. Acabou. Isso é incrível.

MC: Outra mulher incrível, e já falamos dela neste episódio, é Agustina.

PR: A Agustina dizia à Teresa… A Teresa conta isto com alguma graça… A Agustiana dizia à Teresa, quando a Teresa começava a barafustar com isto ou com aquilo, a Agustina dizia «Teresa, tente, tente…» Que é como quem diz «Tente dosear a sua verve.»

MC: E têm parecenças, as duas.

PR: Têm as duas uma coisa incrível, além do enorme talento, claro, que é, ambas são senhoras de um enorme sentido de humor. Porque a Agustina tinha um sentido de humor inacreditável. A Agustina entrava num evento literário e era, além de radiografar rapidamente toda a gente, as tantas dizia «Ah, vamos às compras. Isto não tem interesse nenhum» [risos] Aquilo de que ela gostava era de ir às compras. Bom, gostava de outras coisas e, obviamente, era uma mulher incrível e tem uma obra, lá está, uma obra que não teve uma via internacional. Porquê?

MC: Não se fez por isso.

PR: Não se fez por isso. É uma pena.

MC: Mas um dos livros que temos publicados é este «Ronda da Noite». Também é uma autora que admira-os o suficiente para trazer ao podcast. Porquê este livro?

PR: Porque nós tínhamos decidido a Agustina, a Inês [Pedrosa] e eu, que iríamos à Amesterdão ver «A Ronda da Noite» para ela escrever este livro. E depois ela a adoeceu e já não fomos. E portanto a Inês e eu recolhemos muito material para lhe enviar para casa para ela poder escrever sobre o quadro, sobre o Rembrandt. Eu gosto muito deste livro, muito mesmo. E é o último livro dela. E, às vezes, as pessoas pensam «Ah, é o último livro, se calhar já não é tão bom…» É inacreditável de bom que é. Não há nada na Agustina que seja mau, hã? Nada, é sempre bom.

MC: Nos jovens já é um nome um bocadinho mais difícil de entranhar, não é?

PR: Se calhar, porque também… Porque tem «A Sibila», não é verdade? Precisamos de desconstruir algumas coisas, calhar precisamos de começar com outro tipo de textos. A Agustina escreveu crónicas maravilhosas, se calhar, os miúdos precisam de começar de outra maneira. Não sei, não sou professora, mas o sentido do humor, o sentido da observação dela… As pessoas não ficam imunes àquilo, pelo contrário. Portanto, é possível aderir àquilo dependendo de como é que tu dás aquilo, mas isto é mesmo para o Camões, ou para o Eça, não é? Eu, durante o confinamento, para dosear com a escrita de A Desobediente, reli grande parte do Eça, que eu não lia há 30 anos ou mais. E diverti-me imenso, como não me tinha divertido do início. [risos] Há ali um lado humorístico, há ali um lado de crítica à sociedade, há ali um retrato inacreditável. E, portanto, eu acho que é possível. Às vezes, tem muito a ver com o entusiasmo do professor que tu apanhas.

MC: É preciso ter essas estratégias e, como dizias, começar pelas crónicas, por exemplo.

PR: E também é preciso que as pessoas, em casa, leiam. Os meus filhos são dois grandes leitores. Porquê? Há livros em todo lado, até na casa de bem.

MC: Nunca lhes recusaste um livro.

PR: Não, nunca recusei um livro. A única coisa que eu nunca recusei aos meus filhos foi livros. Recusei outras coisas.

MC: Era um ritual semanal, não era?

PR: Era.

MC: Que coisas é que eles escolhiam ou escolhias tu por eles?

PR: Não, não. Houve uma altura em que deles, muito novinho, com sete ou oito anos, chegou e disse «Eu vou levar este livro». E o livro chama-se Sexo para a adolescentes. E eu disse-lhe «Olha, sabes, eu acho que isto é capaz de ser um bocadinho cedo.», «Não, mas eu quero este.». «Ok, tudo bem.» E levei o livro. Passado umas horas, aparece junto de nós e diz «Hm, se calhar vocês ficam aqui com este livro e eu depois volto cá mais tarde.» Pronto, chegou lá por ele, não era a altura. Está ótimo.

MC: Nem percebeu o que estava a ler, se calhar. Tudo codificado. Sempre lhes fizeste leituras à noite, e aquela não era uma boa leitura.

PR: Sempre. Eu tive mais de dez anos a ler alto, à noite.

MC: És uma grande conhecedora da Literatura que há para crianças.

PR: Sim, mas também fui buscar muita coisa que eu tinha lido. Por exemplo, a Ursula K. Le Guin, que é uma das minhas autoras de eleição, porque eu gosto muito de ficção científica e de fantasia, gosto bastante. Que é a avó do Harry Potter, se quiseres. Há um livro inacreditável chamado O Feiticeiro de Terramar, que é um livro que tem um feiticeiro especial, uma espécie de Dumbledore que o acompanha, uma escola de magia, um mau… Enfim, e foi escrito 1963. E eu lembro-me de dar esse livro ao Sebastião, que é o mais velho, e, no fim, ele aparecer, e faltavam três ou quatro páginas para o fim do livro, e dizer-me assim «Ó mãe, por favor, diz-me que isto não vai correr mal» [risos] Foi um livro absolutamente fundador de certas ideias. E hoje, os meus filhos têm 24 e 28 anos, ainda hoje falamos sobre esse livro, acreditas? É muito engraçado. É um livro especial.

MC: Que mais é que lhes lias, sabes?

PR: Li o Harry Potter todo, claro. Com certeza. Ligo Os Três Mosqueteiros.

MC: E eles comportavam-se bem, assentavam bem? E lias muito durante uma noite?

PR: Aí durante uma hora e tal.

MC: Ainda é bastante. Chega a uma idade em que já leram muita coisa.

PR: E, ao mesmo tempo, também havia ali um momento que era nosso. Houve uma altura que o mais novo me disse, «Bom, mãe, mas eu agora vou passar a ler sozinho.» Para mim, foi um baque. Eu só pensava «A sério? Então e agora? O que eu vou fazer?» Então, decidimos ler um último livro, os dois. E eu escolhi o livro maior.[risos] Fez-lhes muito bem, sabes? Quando as pessoas me dizem «Ah, mas os meus filhos não leem…» A minha primeira pergunta é sempre «E lê?» Porque se nós não dermos o exemplo, se nós não dissermos «Olha, tens aí a história do Luís Jorge, o filho da Teresa. Gostava muito de ler… A mãe sempre agarrada aos livros e, portanto, uma certa rejeição natural, não é verdade? E a mãe dá-lhe a Guerra dos Mundos, do Orson Welles, e começa por ler com ele. E, depois, a terminar a altura, diz-lhe «Olha, Luís Jorge, queres saber o resto? Lê.»

MC: E ele leu?

PR: Claro, e tornou-se um bom leitor.

MC: Não podemos esperar bons leitores, se não formos bons leitores. Num país em que lemos, em média, um livro e meio, não podemos esperar grandes leitores…

PR: Já agora, vou deixar este recado, que é uma das minhas batalhas. Também não podemos dizer que somos escritores e escrever, teoricamente, um livro sem sermos leitores. Não há escritores que não sejam escritores. Às vezes, eu já fiz cursos de escrita criativa, em que me chegavam lá pessoas e diziam «Vou escrever um livro, mas eu não leio.» Caramba! A sério?

MC: Que exemplos é que tens? O que é que há mais na tua biblioteca?

PR: O que é vais fazer à tua vida? Portanto, querem escrever? Leiam. Tem de ser mesmo bons leitores.

MC: Até para não escreverem a mesma premiss de outro autor — e pior.

PR: Bem pior.

MC: E esta A Fera na Selva, de Henry James, é um dos livros…

PR: De cabeceira.

MC: Quiseste incluir um livro estrangeiro nas tuas escolhas. É um livro que tens à tua cabeceira.

PR: Tenho. Há anos. Recorro a ele porque é uma pequena novela sobre um homem que viveu a vida ao lado à espera que lhe acontecesse uma coisa extraordinária, e essa coisa extraordinária, efetivamente, acontece-lhe e ele não dá por ela.

MC: Parece a história da nêspera. [risos]

PR: E, portanto, eu acho que de vez quando preciso de me recordar que não posso viver a vida ao lado. Portanto, volto a ele. É muito bonito, é muito delicado. Bem, é Henry James, é bem feito, não é? É muito bem feito.

MC: E porque é que o recomendarias e a quem?

PR: Eu recomendo a qualquer pessoa, porque é um livro pequeno, é uma pequena novela, é muito bem escrito e acho que é intemporal porque é sobre a atenção que nós damos às coisas da nossa vida, ou não damos às coisas da nossa vida, na presunção do nosso ego, da nossa vaidade e da nossa forma de sermos auto-centrados e acharmos que está tudo na nossa cabeça e que temos tudo planeado e que sabemos…

MC: Este teu A Desbediente já está no mercado há mais ou menos mês. Já vai na terceira edição. Como é que sentes com esta tua Teresinha chegar a tanta gente?

PR: É uma loucura. Sinto-me uma popstar. [risos] Sabes que ao fim de tantos anos a escrever livros, eu sabia que isto ia ser uma coisa completamente diferente, em termos de receção e de impacto, de todos os outros livros, claro. Porque a Teresa também é isto, tem este impacto. Mas não deixa de ser estranho a forma como editora, a Contraponto, as pessoas todas da editora, a Inês Conde, na comunicação, o Rui Couceiro [editor], as pessoas que fizeram as revisões, as paginações… O carinho com que trataram o livro e com que me trataram a mim, uma coisa quase comovente.

MC: E os teus colegas biógrafos? Já te deram notícia desta biografia?

PR: Os meus colegas biógrafos foram incríveis. Incríveis! A Isabel Rio Novo, a Filipa Martins, o Paulo M. Morais, incríveis de apoio, de incentivo, do «Não desistas, bora lá!» Fazer parte de uma família de biógrafos! É bom.

MC: Ainda queria explorar um bocadinho os teus novos livros. Há bocado fugiste um bocadinho à pergunta sobre o romance… Apetece-te de escrever romance? Apetece-te escrever conto? O que é te apetece?

PR: Parar um bocadinho é fundamental, porque foi uma tarefa e tanto. E eu sinto que estou completamente exausta e seca. Tenho uma ideia para um romance. É uma ideia bocadinho complicada de fazer, e gostava imenso de ter a total liberdade de dizer «Vou escrever quando vou escrever». E quando acontecer, acontece. Porque também não podes obrigar a escrita. Às vezes, as pessoas dizem «Ah, mas ser disciplinado, escrever todos os dias…» Tu ouves o Paul Auster dizer que trabalha sete horas por dia, e bem, até o Lobo Antunes, tantos. As mulheres têm sempre muita coisa para fazer. Não dá para ficar sentada sete horas por dia, em frente a uma secretária,porque é preciso ir às compras, e à farmácia, e é preciso atender este e aquele, e há um filho e um afilhado e uma sobrinha e um gato… As mulheres nunca podem estar sete horas sentadas num sítio qualquer sem serem interrompidas. [risos] Portanto isso para mim seria uma impossibilidade. Depois, eu sempre fiz outras tantas coisas, não é? Eu gosto muito de fazer outras tantas coisas. Mas, lá está. Às vezes as pessoas dizem assim «Então, como é que tu te defines? Qual é a tua profissão?» Caramba! Qual é minha profissão? Eu sou jornalista, sou escritora, sou produtora, sou editora, sou curadora, sou muita coisa. Como somos todos, não é? Como somos todos. E ainda bem que somos, que bom.

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