Entrevista. Paulo Branco: “O Leffest tem algo que outros festivais de cinema não têm: uma enorme liberdade”
“Se eu adormecer, acordem-me”. Paulo Branco está de chapéu, com ar apaziguado, à espera da Comunidade Cultura e Arte (CCA). A chuva deu tréguas na Baixa Chiado, onde a Leopardo Filmes continua a ter o seu centro de operações, ao contrário de outros agentes culturais que estão de malas aviadas para outros sítios.
O histórico produtor, com mão em mais de 300 filmes e trabalho directo com nomes que vão de Manoel de Oliveira a David Cronenberg, é também diretor do LEFFEST há 19 anos. Na conferência de imprensa de apresentação do programa deste ano, que traz Jim Jarmush, Pedro Cabeleira e Gaza, tem convidados especiais como Wagner Moura até Lisboa (e Amadora pela primeira vez), o produtor pediu ajuda aos meios de comunicação social, com quem nem sempre teve uma relação fácil. Acedemos ao pedido, mas com tantos temas que não cabiam em dez dias de programação.
Aos 75 anos, parece ter deixado para trás um certo traço combativo, que criou inimigos, mitos e alegadas dívidas. Tem um documentário pessoal a caminho, quatro projectos prestes a estrear em grandes festivais em 2026 e uma obra (será um livro de memórias que sempre negou a fazer) que colocará em pratos limpos a história do rosto que é sinónimo do cinema português. “Nunca tive problemas para sanar. Se os tivesse, como continuava a produzir? Nunca houve um filme que não tenha ficado por ser feito”. Este é o de uma entrevista sem fim, sem medo de adormecer, porque ainda há muito por fazer.
O que é o LEFFEST hoje em dia?
Ainda não sei exactamente. Foi uma decisão feita há dezanove anos. Nunca pensei que continuasse. Mas tem continuado. É uma maneira de continuar a reflectir sobre o que é o cinema. A partilhar com os espectadores todas essas questões. E dar a conhecer a obra de pessoas que admiro, obrigando-me a conhecê-las melhor. E que o festival tenha ligação com o mundo. Este ano, o tema é o dos exílios, que é central no festival. Queremos mostrar os melhores filmes que conseguimos ver em diferentes festivais. A equipa é pequena. Não somos daqueles festivais que vêem milhares de filmes. Não há capacidade para isso. Nem queremos. Há sempre algumas pérolas que descobrimos e que passaram despercebidas. Este ano, o último filme do Hal Hartley, “Where to Land”, que soubemos que existia através de um amigo. Não só passamos na competição como aproveitámos para fazer uma retrospectiva dos seus filmes. E temo-lo cá estes dias. Um cineasta de culto, mas que é dos mais importantes do cinema independente norte-americano. Esses filmes têm de reviver.
Todos vivemos numa bolha nesses festivais que não tem adesão à realidade. A tragédia vai oscilando entre meses muito maus e outros menos maus de espectadores em Portugal. Dantes falava-se que o olimpo eram os cem mil espectadores, agora, nem vinte mil.
Há um discurso completamente errado sobre isso. Já o oiço há 50 anos. E vem de pessoas a quem o cinema não interessa. Nunca tive uma afluência tão grande no Cinema Nimas em toda a minha carreira de exibidor como tenho tido este ano. Vamos ultrapassar todos os números possíveis e imaginários. Este fim de semana fizemos 900 pessoas. Deixou de haver um verdadeiro trabalho dos exibidores, um cuidado em relação ao público. Quando esse trabalho existe, as pessoas vêm.
“Este ano perdi uma filha. Tive pouco tempo para festivais e para filmes. Mudou a minha perspectiva completa da vida. Refugiei-me na leitura.”
Paulo Branco
Os cinemas de rua têm feito esse trabalho de captação e fixação de público enquanto há salas dos centros comerciais a fechar por todo o país.
Alguns fizeram, sim. Há uns que se instalaram numa certa preguiça e culpam o mundo da desgraça dos seus números. Há outros que fazem, de facto, esse trabalho. Em Lisboa somos nós. No Trindade, no Porto, também. O Batalha tem apoio municipal e tem uma economia diferente. Uma sala como o Nimas conseguir fazer 85 a 90 mil espectadores é algo impensável. E ver sobretudo que os espectadores são de todas as gerações. Ver jovens na sala para verem clássicos, ou gente de mais idade para descobrir cinema novo, quer dizer que algo se está a passar. O fascínio de voltar às salas existe. Não só cá. Claro que há outros problemas. Uma grande formatação da produção internacional, sobretudo a da Europa, com novas regras, burocracia a mais. Os filmes parecem-se todos uns com os outros. No LEFFEST, tentamos escolher filmes que se distingam dessa mediania. Estou optimista. É por isso que o festival ainda existe. Se achássemos que estávamos a fazer um requiem sobre a actividade cinematográfica, não o faríamos.
“Deixou de haver um verdadeiro trabalho dos exibidores, um cuidado em relação ao público. Quando esse trabalho existe, as pessoas vão ao cinema.”
Paulo Branco.
O LEFFEST tem um apoio considerável do município da capital. Sem esse apoio, sem essa aproximação ao poder político, não seria possível ter um festival destes?
O apoio que temos é mínimo. Os outros festivais têm apoios diversificados. O início do festival foi feito com a Câmara Municipal de Cascais, agora é em Lisboa. Trazemos uma centena de convidados. Não pagamos cachets. Estão com o público. E olhando para outros festivais secundários, até em Espanha, o mínimo dos mínimos são dez vezes o orçamento que temos. O apoio não é considerável. Só com um esforço enorme é que conseguimos. Nós temos algo que os outros festivais não têm: uma enorme liberdade. Fazemos o que queremos. Somos responsáveis. Não há intervenção de organismos. Não há intervenção editorial. É uma confiança pessoal, que não se pode institucionalizar. E isso limita os apoios, claro.

Ter o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, ao seu lado durante a conferência de imprensa, não dá a ideia de que o poder político se está a colar a si?
Nenhum poder político se consegue colar a mim. Nunca aconteceu. Desde que comecei em 1977. Isso já prescreveu. Essa independência existe em tudo o que faço. E não é só nos apoios. Não posso aceitar as novas regras da Europa. Os filmes ou são bons ou são maus. Não nos sujeitamos a qualquer tipo de parametragem. E isso é que faz a força do LEFFEST. Não há comités disto e daquilo. Há conselheiros como o António Costa, a Inês Branco Lopes, minha filha, que é um dos motores deste festival. E assim continuamos. Quando não nos quiserem mais, paciência.
Gostava que o LEFFEST tivesse outra importância na Europa? Ou continua a gostar de se ver como um simples “mestre de cerimónias”?
Não saberia fazer o festival de outra forma. Sei que tenho uma escolha de filmes tão importante como a que existe nos grandes festivais. Tenho júris que vieram cá e acabam nesses palcos como o Alexandre Desplat. Tenho “monstros” como a Martha Argerich. Temos tido a capacidade de trazer gente extraordinária durante dez anos. O Wagner Moura foi presidente do júri em 2019, por exemplo.
E é o homem mais badalado do momento com o novo filme “O Agente Secreto”, do Kleber Mendonça Filho.
Sim, sim. Muitos dos grandes nomes começaram aqui. Olhe para a vinda da realizadora Laurie Anderson tantas vezes… são situações gratificantes para nós. Isto não é feito para nós. Por isso é que tenho problemas com a comunicação social. A prioridade é que o público tenha contacto com os artistas. Não é como acontece nos outros festivais: onde só a comunicação social é que pode estar com eles. Não quero transformar o LEFFEST em algo institucionalizado. Este festival para oferecer o mesmo ou pior, se fosse institucionalizado, nem dez vezes o que temos, chegaria. Esperamos é ter público.
“Nós temos algo que os outros festivais não têm: uma enorme liberdade. Fazemos o que queremos. Somos responsáveis. Não há intervenção de organismos. Não há intervenção editorial. É uma confiança pessoal, que não se pode institucionalizar. E isso limita os apoios.”
Paulo Branco
A cidade de Lisboa está muito diferente. Preocupa-o?
Não fazemos isto para os turistas, é para o público português. Para promover alguns filmes e para que possam chegar às salas. Chegamos a Amadora em 2025, porque é importante ter estas extensões e criar novos públicos. Se Lisboa muda ou não? Muda para tudo. Acho que é fora de contexto fazer essa análise. Estou aqui, vejo bem o que tem acontecido. Mas isso é outro debate.
Falando da nova ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, que tem promovido debates e reflexões e tem pedido maior transparência nos apoios públicos. Sente que está tudo mais apaziguado dentro do sector, depois de tantos anos a discutir júris, leis e apoios?
Nunca me pronunciei, sobretudo dentro do festival, sobre quaisquer políticas públicas. Como cidadão, tenho as minhas críticas. Agora, tenho 75 anos, consigo ter o meu espaço, que é minoritário. Adapto-me às decisões que foram tomadas, as com que concordo e as com as quais não concordo. Prefiro aproveitar o que existe para produzir alguns filmes. Demonstrar que, com imaginação, uma sala consegue conquistar público. Não quero estar em querelas e discussões políticas. Claro que me expresso em privado. Com o poder político também. A minha intervenção não é para se mudar a maneira de se produzir. Sou mais crítico a nível global e europeu.

Mas tinha grandes intervenções no passado.
Se servir de alguma coisa, falo.
Até no parlamento ficou conhecido por ser polémico e interventivo.
Já o fiz, sim. O que me parece inadmissível, é que o cinema tem diversos meios de financiamento em Portugal e podiam ser suficientes. Mas se existissem. Se não ficassem no papel. Como sabe, maior parte dos financiamentos são depois cativados. Há mais de 40 milhões do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) no Ministério das Finanças. É escandaloso se se prolongar. A história do cash rebate demorou a funcionar, o que também não ajudou. Se as regras são certas? Tenho muito a dizer mas não é aqui. Se existem montantes devidos, que não sejam cativados. Mas isso é um problema do país, não é só da cultura. Vivemos num estado salazarista em que quem manda é o Ministro das Finanças. Os outros ministros são uns pequenos palhaços. Dá-me vontade de rir cada vez que oiço a discussão do Orçamento do Estado. Mas isso são outras situações, já estou a falar demais… agora, olhando para o LEFFEST: temos o filme “Entroncamento”, do Pedro Cabeleireira, que me surpreendeu muito. Temos ante-estreias como o “Maria Vitória” do Mário Patrocínio, que esteve no festival de Tóquio com grande êxito. E uma homenagem enorme à Isabel Ruth do LEFFEST, onde estão filmes que mostram que temos e tivemos uma cinematografia que vale a pena continuar a descobrir.
“Nenhum poder político se consegue colar a mim. Nunca aconteceu. Desde que comecei em 1977. Essa independência existe em tudo o que faço.”
Paulo Branco
Trabalhou com Manoel de Oliveira, João César Monteiro… os novos cineastas precisam da sua ajuda como precisaram estes?
Fui só um veículo para promover os filmes de grandes personagens que tive a sorte de encontrar. Houve uma altura em que estava demasiado só neste trabalho e ocupei um espaço que não queria. Que era demasiado abrangente. Felizmente, neste momento, produzo menos filmes. Acompanho-os na mesma. E tenho a preocupação de que todos os que acompanhei, não desapareceram. Há dois anos peguei na obra toda do João César Monteiro e é por isso que agora tudo isto está a acontecer com ele. O contrato com a Cinema Guild fui eu que o desencantei. Por isso é que há uma enorme retrospectiva no Moma, em Nova Iorque, sobre este realizador. A Rai, televisão italiana, vai passar os filmes do João César brevemente. O filme “O Delfim”, do Fernando Lopes, por exemplo, também tem andado por aí. E tantos outros. Durante uns tempos, perdi os direitos desses filmes e estavam a ser controlados por uma entidade muito grande, que não sabia o que fazer com eles. Mas chegámos a acordo e tudo mudou. Há um impacto internacional muito grande.
Vê-se mais a fazer reviver esses nomes do passado?
Vejo-me a ir por todos os caminhos. Estou com quatro filmes para estrear. O “O Barqueiro” do Simão Cayate está à espera de festival internacional. Estou a acabar “As Memórias de Cárcere” do Sérgio Graciano que é extraordinário. Outro projeto, muito ambicioso, que é “Aqui”, baseado no livro “A Trilogia de Jesus”, com o Tiago Guedes, que espero que esteja num grande festival para o ano. E vou começar “Os Ternos Guerreiros”, da Agustina Bessa Luís, com o Francisco Botelho. E ainda uma adaptação de uma pequena novela do Juan Carlos Onetti, que conheci ao lado do Jean-Luc Godard, chamada “Os Adeuses”, que há de começar.
Tem projectos mais autorais…
Sim. Mas trabalho com realizadores com quem tenho toda a confiança. Já não faço 17 filmes num ano, isso é verdade. Mas consigo acompanhá-los melhor. Ainda há espaço para eu continuar.
“Agora, tenho 75 anos, consigo ter o meu espaço, que é minoritário. Adapto-me às decisões que foram tomadas, as com que concordo e as com as quais não concordo. Prefiro aproveitar o que existe para produzir alguns filmes. Demonstrar que, com imaginação, uma sala consegue conquistar público. Não quero estar em querelas e discussões políticas. Claro que me expresso em privado. Com o poder político também.”
Paulo Branco
Façamos uma retrospectiva da sua carreira. Fazer esse caminho sozinho, não pode ter sido mau para o próprio cinema português? Agora temos mais produtores influentes, é verdade.
Existem porque fizemos esse percurso. O cinema português esteve quase a deixar de existir. Quando o António Cunha Teles me foi buscar para ser produtor, em 1979, o cinema estava quase a desaparecer. Como houve a institucionalização da figura do produtor, lancei-me às feras. Salvou-se o cinema. Tive a sorte de ser escolhido por quatro ou cinco nomes, do João Botelho ao Manoel Oliveira. Como é que conheci o Pedro Costa? Porque foi assistente do Jorge Silva Melo no “Agosto”. O João Canijo? Porque foi estagiário no “Francisca”. Agora todos eles fizeram as suas carreiras. Não precisam de mim. Fiz o que pude com o espaço que tinha. Não sei dizer porque outros não o fizeram. Não sou eu que sei o meu lugar no cinema português. Isso deixo-o a si.

Vamos ter mais cinemas de rua em Lisboa? Já esteve com o King, com o Monumental…
Comecei como exibidor, como brincadeira, em Paris. Bom, não foi bem brincadeira, levei muito a sério essa sala. Decidi sê-lo cá quando vi a dificuldade que os meus filmes fossem exibidos. Mesmo depois do sucesso do “Francisca” tive dificuldade em estrear o “Silvestre”. Aconteceu numa salinha por detrás do Saldanha. Nenhuma outra sala queria o filme. Uma vez, olhei para a carteira de filmes que havia em Portugal, e, durante um mês, não havia uma produção independente. Foi aí que me lancei no Fórum Picoas. Havia um enorme espaço por preencher. Agora, as pessoas ou querem ou não. Não podem estar à espera que ofereçamos as salas ou que existam subsídios para ter uma sala. Durante quinze anos, não tive um tostão de apoio para uma sala de cinema. Nada. Zero. Aliás, quase vinte e cinco anos. Quando decidiram meter apoios, eram limitados. Achei óptimo, mas limitados. Quem se quer lançar nesta actividade, tem de acreditar.
Mas é viável? Monumental e o King não foram…
Se começo a contar essa história… não é se é viável ou não. Houve uma megalomania minha. Há muitos erros da minha parte. E paguei o preço. A Autoridade da Concorrência também devia ter actuado e não o fez. São águas passadas. Não fico à espera das ajudas do Estado. Tenho de tornar a sala rentável. Claro que concorro aos apoios que existem e merece-os. A projeção que temos é única. Há pessoas que estão lá a trabalhar, temos uma boa produção de textos. Isto é criado só com um ecrã. É um enorme desafio. Mas vale a pena. Se se pode multiplicar por muitos espaços? Não, mas há espaço para outros. Nós temos a concorrência desleal, mas normal, do Cinema São Jorge. Todas as semanas têm um festival. Há espaços suficientes em Lisboa para ter uma diversificação de programação. São raras as cidades na Europa que o têm. O número de produção independente exibida em Portugal é comparável com qualquer outro país europeu. Se os filmes são bem lançados ou mal, isso é outra história. Assistimos a algo trágico: que é a diminuição da cultura em todo o lado do espaço mediático. Há excepções, como o jornal Público. Ainda assim, muitos filmes não têm espaço. O Expresso é a desgraça que é. A pior, de todos os órgãos de comunicação social, é a televisão pública. Tem um papel de promoção essencial, agora, ao nível da informação e da defesa dos próprios filmes que fazem, é mau. No caso do “O Lavagante”, por exemplo, tive mais espaço na CM TV do que na RTP1. Quando há este desinteresse completo das elites, que a única coisa que dizem é que o cinema está morto, quando são esses que falam nos jornais, estamos limitados aos filmes que temos. Agora há oferta? Há. O país é que está muito atrás dos outros. O suplemento do Expresso nos primeiros anos era extraordinário. Onde está? Mesmo o suplemento do Público. Tudo isso tem desaparecido. Tudo. Agora falo como lisboeta. Na província também há algum interesse de entidades, que têm conseguido levar cinema a esse lado. Não podemos limitar-nos aos números do multiplex. Esses já não sabem fazer o trabalho.
“Vivemos num estado salazarista em que quem manda é o Ministro das Finanças. Os outros ministros são uns pequenos palhaços. Dá-me vontade de rir cada vez que oiço a discussão do Orçamento do Estado.”
Paulo Branco
Muita gente do cinema português fala do Paulo. É quase uma figura mítica. Elogios, histórias de alegadas dívidas. Do que já ouviu falar de si, quão é verdade e não é. Não quereria esclarecer tudo?
Olhem para os meus filmes. Não tenho de esclarecer. Vou contar a minha história brevemente. Não digo como, vão saber daqui a uns meses. É o meu lado.
Ouvi falar de um documentário.
Isso também existe. Estou a tentar adiar ao máximo. Claro que gosto de falar dos meus 300 filmes. Não vieram do acaso. Tenho uma ligação com todos. Posso dizer como existiram, condições de produção, tudo sob o meu ponto de vista. Não vou ter muito contraditório porque há quem já tenha morrido. Também não tenho interesse em efabular.
Mas os problemas que teve estão sanados?
Nunca os tive. Como é que se continua a produzir, se os tivesse? Estou aqui a falar consigo, se realmente não enfrentasse as coisas olhos nos olhos, como seria? Todos nós passamos graves problemas. No entanto, nunca houve um filme que tenha ficado por ser feito.
“Houve uma megalomania minha. Há muitos erros da minha parte. E paguei o preço. A Autoridade da Concorrência também devia ter actuado e não o fez. São águas passadas. Não fico à espera das ajudas do Estado.”
Paulo Branco
As pessoas podiam ter medo de si.
Medo de quê? Há muita maneira de falar das pessoas. Há muita lenda. Muita gente que não me conhece e vive segundo as histórias que ouvem contar. Vou eu desmentir? Era o que faltava. Vou alimentá-las, talvez.
Mas vai ser um filme, um livro?
Não posso falar mais. Foi algo que aceitei e não estava à espera.
O que é que o tem encantado mais no cinema?
Este ano perdi uma filha. Tive pouco tempo para festivais e para filmes. Mudou a minha perspectiva completa da vida. Refugiei-me na leitura. Estou a descobrir agora alguns filmes. Maior parte dos filmes que vi, estão no LEFFEST. A competição deste ano permite dizer-me que me revejo nesse cinema. Há sempre uns que me enchem as medidas, daí que valha a pena tentar encontrar pérolas. Todos os anos, há três ou quatro filmes que me deixam surpreendidos. Há um filme que me diz muito, que é o “Laguna”, onde vou estar presente na conversa. O realizador Sharunas Bartas faz o luto da filha que perdeu. Lá estarei.
