Entrevista. Paulo Santos: “O Festival F faz-se do artista mais mediático ao que está a pisar pelas primeiras vezes o palco”
Depois de ter acompanhado o Festival F desde a sua idealização, enquanto vice-presidente da Câmara Municipal de Faro, Paulo Santos assume agora a direção do evento. O convite surgiu após ter abandonado a vida política e representa uma nova forma de dar continuidade a um projeto que ajudou a construir, marcado pelo legado de Joaquim Guerreiro e pela ambição de afirmar Faro e o Algarve no panorama cultural português.
A 11.ª edição do Festival F, que acontece de 03 a 05 de Setembro, apresenta na sua programação mais de 60 concertos e reserva cerca de 30% do cartaz a artistas algarvios e reforça a aposta na música em língua portuguesa. Nesta entrevista, o novo diretor fala sobre o crescimento do evento, a preservação da proximidade proporcionada pela Cidade Velha, o equilíbrio entre nomes consagrados e projetos emergentes e o desafio de manter o festival acessível às famílias.
Era vice-presidente de Câmara e assume agora o cargo de diretor do Festival F. Como está a ser este novo desafio?
Estive desde o primeiro momento em que se idealizou o F, com o saudoso Joaquim Guerreiro. O F, para nós, sempre foi mais do que um festival: foi acreditar que Faro poderia ter um papel na afirmação cultural do Algarve e do país, no apoio à música portuguesa de autor, e que também através do F poderíamos resgatar algum orgulho dos farenses, evidenciando o nosso património cultural edificado da Cidade Velha, o património natural e a capacidade natural de saber receber.
Quando decidi abandonar a vida política, era inerente desligar-me dos projetos que ajudei a construir ao longo da minha vida de autarca. Faz parte! Confesso que fiquei surpreendido quando o Presidente António Pina me convidou a assumir estas novas funções no F. No entanto, por respeito ao convite, compromisso e vontade de continuar o Festival F, não poderia dizer não a ele, às equipas que sempre se empenharam, ao legado do Joaquim e a mim próprio, pela paixão que tenho por este festival. Claro que, apesar de sempre ter estado muito envolvido no F, agora o compromisso e a dedicação são diferentes: é em exclusivo nestes meses que antecedem o F.
O Festival F chega agora à 11.ª edição. O que mudou mais profundamente desde a primeira edição e o que querem preservar na identidade do festival?
O F cresceu, confesso que mais rápido do que alguma vez pensámos. Fomos adaptando o festival aos recantos da Cidade Velha, sempre com um rigoroso respeito e preservação deste território único. Fomos encontrando, edição a edição, forma de tentar surpreender quem recebemos, pelo recinto e pela oferta cultural que construímos, tentando traçar uma visão anual sobre a música portuguesa, numa forma eclética de estilos e de reconhecimento público dos artistas.
O F faz-se do artista mais mediático ao que está a pisar pelas primeiras vezes o palco: nos sete palcos conseguimos dar voz a todos. Nesta simbiose enquadra-se também outro objetivo que temos conseguido atingir de forma gradual e consistente: dar palco aos projetos algarvios, que estão de edição para edição cada vez mais presentes, não por quota, mas por mérito. Queremos acreditar que o F também tem um papel ativo nessa afirmação.

O cartaz ultrapassa os 60 concertos e cruza géneros muito diferentes. Como é feita a escolha dos artistas e o que pesa mais: a popularidade do artista, a novidade ou a capacidade de atrair público?
Como abordei na questão anterior, a conceção do cartaz tem em conta todas essas dimensões. Essa é a matriz do F: ter palcos que permitem acolher desde as 15.000 pessoas no Ria até às 100 no Arco, gerindo o conforto de quem está a dar os primeiros concertos e de quem tem de dar resposta aos muitos fãs que necessitam de espaço. Obviamente que, nos cerca de 600 concertos que passaram no F ao longo das 11 edições, procuramos os nomes que estão com maior procura, mas sem descurar estilos e novos projetos musicais. Exemplo disso é que alguns dos nomes “repetidos” atuaram em diferentes palcos ao longo dos anos, em sintonia com a evolução da sua carreira.
Cerca de 30% do cartaz é composto por artistas algarvios. O festival assume também o compromisso de descobrir e projetar novos músicos da região para o resto do país?
Como referi, assumimos o compromisso também com a criação que se faz no Algarve, não por quota, mas por mérito dos projetos apresentados. Esta edição é disso um bom exemplo. A 4 de setembro, Ricardo Ribeiro atua acompanhado pela Orquestra de Jazz do Algarve e, a 5, Carminho sobe ao palco com a Orquestra do Algarve. São dois dos concertos mais aguardados desta 11.ª edição e ambos nascem do encontro entre artistas consagrados e estruturas musicais da região, aquilo que o F procura fazer desde o início. Acreditamos que o F tem contribuído para a criação e a afirmação de muitos projetos algarvios.
“A capacidade do recinto tem-se mantido nas últimas edições e estamos muito satisfeitos. Tendo em conta o feedback que temos tido dos nossos festivaleiros, a nossa preocupação principal tem sido manter e garantir a melhor experiência a quem nos visita, com segurança e conforto.”
A presença de artistas do Brasil e de Cabo Verde reforça a aposta na lusofonia. Há intenção de transformar o Festival F numa referência nacional para a música em língua portuguesa?
O Festival F é provavelmente o maior festival de música em língua portuguesa em Portugal. Oferecemos todos os anos um cartaz único, com atuações irrepetíveis e uma grande diversidade no que respeita à cultura de língua portuguesa. Esta não é a primeira vez que recebemos artistas lusófonos e essa é hoje uma dimensão estruturante do festival: nesta edição, a presença do brasileiro Tz da Coronel e do cabo-verdiano Nelson Freitas reforça esse cruzamento. O F é, e será cada vez mais, uma casa da música em língua portuguesa, e acredito que já somos uma referência nacional nesse domínio.
O festival cresceu de 5.000 para 38.500 metros quadrados e já recebeu mais de 350 mil visitantes. Até onde pode continuar a crescer sem perder a experiência de proximidade proporcionada pela Vila Adentro?
Tem sido um orgulho ver o Festival F crescer e tornar-se numa referência a nível nacional. A capacidade do recinto tem-se mantido nas últimas edições e estamos muito satisfeitos. Tendo em conta o feedback que temos tido dos nossos festivaleiros, a nossa preocupação principal tem sido manter e garantir a melhor experiência a quem nos visita, com segurança e conforto.
Este é um festival também de famílias, para todas as idades. Nesta fase, mais do que crescer, o objetivo é consolidar aquilo que conquistámos até aqui. Procuramos descobrir e abrir novos espaços ao público, mas não para aumentar a capacidade de lotação geral.
“Dentro das orientações financeiras do Festival F, há premissas de equilíbrio financeiro, de afirmação da cidade de Faro e de construção de um evento acessível às famílias.”
Organizar um festival desta dimensão no centro histórico de Faro traz desafios particulares. Como conciliam milhares de visitantes, concertos e estruturas temporárias com a proteção do património e a vida dos moradores?
Esse é um pilar fundamental do F. A Cidade Velha é um legado que temos de respeitar e preservar. O F tem de responder ao conforto e às necessidades do público, adaptando-se aos constrangimentos e às condicionantes do local, e nunca o contrário. Penso que temos conseguido garantir esse equilíbrio.
Num momento em que os grandes festivais portugueses enfrentam custos de produção cada vez maiores e bilhetes mais caros, o Festival F mantém um passe de três dias a 45 euros em pré-venda. Como é que conseguem manter este preço?
O Festival F é organizado por entidades públicas, a Câmara Municipal de Faro, o Teatro Municipal de Faro/Teatro das Figuras e a Ambifaro, com um orçamento previamente aprovado que tem de ser cumprido segundo as regras da contratação pública. Dentro das orientações financeiras do Festival F, há premissas de equilíbrio financeiro, de afirmação da cidade de Faro e de construção de um evento acessível às famílias.

