Entrevista. Pedro Cabeleira: “Lisboa e Porto não me preocupam. Mas o ‘Entroncamento’ devia estar em salas de cinema mais comerciais para chegar ao público comum”

por Paulo Portugal,    1 Abril, 2026
Entrevista. Pedro Cabeleira: “Lisboa e Porto não me preocupam. Mas o ‘Entroncamento’ devia estar em salas de cinema mais comerciais para chegar ao público comum”
Pedro Cabeleira / DR

A viagem do cinema de Pedro Cabeleira tem sido uma das dádivas mais fascinantes do recente cinema português. E Entroncamento assume-se mesmo como um filme capaz de ‘dar o salto’ para um público mais mainstream.

O novo filme do realizador, que teve a sua estreia mundial no Festival de Cannes, na apresentação secção Acid, a secção paralela de cinema independente, desembarca agora em diversas estações de todo o país, à procura do seu público. Isto já depois do cinema de Cabeleira ter dado nas vistas ao ser selecionado na secção a concurso ao Leopardo de Ouro, em Locarno (2017) e Berlim, a concurso com a curta By Flávio (2022). É ali mesmo nesta terra de ‘caminhos cruzados’, cada vez mais marcada pela diversidade, que desembarcamos no antigo bairro proletário da Coferpor para enfrentar a mais densa atmosfera do que apetece chamar de ‘realismo tuga’, um género a oscilar entre uma dimensão social aguda, espelhada por gangsters e pequenos criminosos, que vivem paredes meias com os feitos do populismo dos nossos dias. É isso, mesmo que espaço de cinema duro na palavra, nos gestos, de acordo com o guião escrito de parceria com Diogo Figueira, nos remeta igualmente para uma dimensão de (anti)heróis clássicos que habitam o cinema de Martin Scorsese ou Michael Mann. Ou até Wim Wenders, como sugere Pedro Cabeleira. Fomos ao encontro dele, descendo no apeadeiro do cinema Nimas, para uma saborosa conversa via zoom no dia seguinte. Agora só falta materializar o tremendo entusiasmo nas redes sociais com essa confirmação num ecrã largo perto de si. Nem se que seja numa sessão ao meio-dia.

Chegar ao Entroncamento (a esta encruzilhada de linhas) foi uma viagem de longa duração. Fala-me da motivação para fazer este filme.

Sim, são caminhos cruzados. E com um regresso que também foi difícil. Tudo começou, por volta de 2015 e 2016, quando um videoclipe para um amigo meu, no Entroncamento. Era um videoclipe musical estilo gangsta rap. Construir esse imaginário com ele foi uma das experiências mais divertidas que tive enquanto realizador. E foi essa brincadeira que me fez pensar que fazer um filme ali poderia ser algo que me interessaria fazer. Olhei para o videoclipe que tinha filmado na Coferpor – o bairro onde a Laura vai viver e onde cresci – e não acreditava que a minha rua pudesse ter aquele aspeto quando a filmei. Foi um filme que fiz também com a Leonor.

“Eu vivi no Entroncamento até aos 18 anos, nunca deixará de ser a minha terra. Está diferente porque o país mudou. Os tempos passam e ninguém é igual. Eu também mudei, mas não deixa de ser o “meu Entroncamento” na mesma.”

Sim, teremos de falar da Leonor Teles e da câmara dela…

Eram os fumos, as bicicletas, os cães, as motas, as roupas. Eram coisas muito visuais e com uma grande potencia cinematográfica. Acho que teve a ver com isso. No fundo, fazemos filmes sobre coisas que nos interessam.

O que eu acho é que o teu cinema se descentraliza. No fundo, ele faz uma espécie de regionalização, mas pelo cinema em que o Entroncamento se torna num espaço de cinema total.

Sim. Começou, com o Verão Danado, que é um filme muito Lisboa. Embora uma Lisboa à Wim Wenders, se queremos pôr por essa maneira, quando o Wim Wenders vai para os Estados Unidos. Neste caso, eu fui para Lisboa. Mas a cidade já não me estava a dizer muito. Interessou-me trabalhar outros territórios. Entretanto, surge o By Flávio e agora o Entroncamento.

“Entroncamento”, de Pedro Cabeleira

Quando regressas ao Entroncamento, sentiste que também já não era o “teu Entroncamento”?

Sim, não era o ‘meu Entroncamento’, mas ele nunca vai deixar de ser o “meu Entroncamento”. Mas será sempre a minha cidade e serão as minhas memórias. Eu vivi lá até aos 18 anos, nunca deixará de ser a minha terra. Está diferente porque o país mudou. Os tempos passam e ninguém é igual. Eu também mudei, mas não deixa de ser o “meu Entroncamento” na mesma.

Até do ponto de vista político. Queria perguntar-te até que tipo de envolvimento tiveste com a autarquia, e entretanto li uma entrevista tua ao jornal Público… as diferenças que existem hoje.

Pois, na altura, a autarquia na altura não era o Chega.

Exato. E como se articulou esse diálogo?

O filme começou a ser trabalhado em 2020, no início com a autarquia que logo apoiou o filme. Isto já depois do apoio do ICA [Instituto do Cinema e Audiovisual]. Na altura, a autarquia era PS. Eu conhecia muito bem o presidente da Câmara, o Jorge Faria. Conhecia-o desde criança, quando jogávamos à bola. Já tinha tido também o apoio para o By Flávio, da autarquia de Torres Novas, e falei-lhes que tinha um projeto de longa-metragem que se passava no Entroncamento, chamado Entroncamento. Portanto faria todo o sentido apoiarem. Não foi o maior apoio financeiros que tivemos, mas apoiaram financeiramente e depois apoiaram muito do ponto de vista logístico e técnico. Foi muito fixe porque com esse apoio conseguimos transformar o “Entroncamento” quase num cenário de Hollywood.

E agora, com este novo cenário, e o teu também amigo, o novo presidente do Chega?

Sim, o Nelson (Cunha) foi ao LEFFEST – Lisboa Film Festival e ele disse que gostou muito do filme. Pronto.

Apesar do filme explorar um lado, diria algo proletário, possui também um lado de realismo tuga que nunca vi no nosso cinema. E também a forma como exploraste o lado feminino que lhe dá claramente um outro contexto.

Sim, sim. O olhar feminino.

Esse lado já estava escrito?

Na génese da ideia não estava tão presente, porque a ideia era mais sobre este grupo de rapazes, na altura mais novos também. Embora já houvesse a personagem da Nadia (Cleo Diára), uma personagem forte desde o início. Depois de refletir muito sobre o tema, a cidade, o que eu ia abordar no filme, acabei por achar interessante esse shift de perspectiva. A personagem da Laura (Ana Vilaça) surge, como uma personagem externa, completamente diferente dessas dinâmicas, mas para desconstruir essas dinâmicas. É um olhar completamente diferente, porque tira o filme da bolha e faz-nos olhar também para a bolha estando dentro dela. Ou seja, ela enfia-se lá dentro, é uma mulher que vai para as dinâmicas masculinas e que as vai desconstruindo de fora.

E do ponto de vista do cinema, que tipo de influências é que existiram? Adivinho se calhar algumas, mas, gostaria que fosses tu a falar nelas.

Não sei, por exemplo, a primeira referência que tinha era o videoclipe que tinha feito. Mas à medida que ia avançando, queria que o filme comunicasse com o Verão Danado, porque percebi que ia ser um filme de guerrilha. Aproximei-me mais da linguagem e achei que faria sentido os filmes comunicarem desse ponto de vista – já não era sobre os rapazes de Lisboa, mas numa linguagem sobre os que tinham ficado para trás. Por outro lado, queria uma tensão que percorresse o filme todo; sobre o desconforto de estarmos muito tempo a ver uma coisa e não conseguirmos sair dela.

Onde foste buscar isso?

Como tinha pensado em fazer algo diferente, e filmar com a câmara ao ombro, cruzei-me com o filme do Cristian Mungiu, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007). Impressionou-me a forma como ele usava a câmara ao ombro. Mas de uma maneira diferente, bastante física, em que se sentia a respiração do operador. Tentei transportar isso para o filme. Depois, do ponto de vista narrativa, é mais até da literatura dos livros do David Foster Wallace, do Thomas Pynchon, das narrativas cruzadas, que não se fecham, narrativas de personagens que têm muita presença num capítulo, mas depois nunca mais voltam a aparecer, mas passadas 400 páginas aparecem outra vez. Queria que o filme tivesse a sensação de não conseguirmos adiantar o que vinha a seguir e não a sensação de surpresa, do twist. Independentemente de ter funcionado ou não, isso foi um risco consciente.

“Entroncamento”, de Pedro Cabeleira

Falemos da Leonor Teles e a presença da sua câmara. É justamente uma câmara que respira, mas também que evolui com as personagens. De que forma o teu trabalho com a Leonor teve essa cumplicidade (ou confiança) ou de que forma a sua atuação foi definida?

Acaba por ser trabalho muito prático, do momento. Há referências que discutimos, coisas que ela gosta. Depois é um trabalho sobre o espaço, escolher as localizações. Ela conhecia os espaços, mas como é um filme mais low key, eu cortei algumas luzes para ficar mais escuro e ter esses pontos de luz; às vezes apontamentos de cor, pequenos pormenores. Mas é muito trabalhoso tentar ver espaços que possam funcionar dentro desta cidade que é muito fácil de filmar.

E o jogo dos atores?

Com os atores há sempre muito ensaios, o máximo que eu conseguir ter, embora gerindo agendas. E com os atores não profissionais também. Um esforço para ensaios, discutir, experimentar. E depois, no próprio dia, experimentamos, até para ter mais material na montagem.

No caso da Ana Vilaça, além da natural cumplicidade de vida, há um trabalho profissional também, não é? Como é que isso se desenrola dentro de um ambiente familiar. Porque não é só ela, mas também a vossa filha, Alma, que eu vi ontem, completamente à vontade no palco do Nimas.

Sim, já vamos ver como é que isto vai mexer no futuro dela. Mas sim, faz parte. A mãe é atriz, o pai é realizador, trabalham juntos. Às vezes não tem grande hipótese, têm que andar connosco de um lado para o outro. Quanto à Ana ela é uma excelente profissional e uma excelente atriz que se prepara muito para os projetos e realmente leva as coisas muito, muito, a sério. Ela trabalha as personagens de uma maneira muito rigorosa.

Há aqui uma questão que eu não queria deixar de abordar, e que tem a ver com o panorama de exibição do filme e as condicionantes que encontraste em certas salas. Foi remetido para sessões de matiné. Como vês isso?

Uma coisa era na segunda semana. Na primeira semana, não. Se calhar nem vai haver segunda semana. Isto da NOS é uma coisa muito complicada. Quando há um grande conjunto de alternativas espalhadas pelo país, não há problema. Em Lisboa e no Porto não estou preocupado. Em Lisboa existem alternativas: o Nimas, o O Corte Inglés, os Cinemas City, o Cinema Ideal. Acho que o filme devia estar em salas mais comerciais para chegar a outras pessoas. Essas salas são muito boas, mas o seu público não é o público comum.

E o Entroncamento é um filme para todos os públicos, não é?

Exatamente. Os nossos filmes fazem muitos espectadores, mas aquilo nunca vai chegar um o valor de espectadores, sei lá, acima dos 10.000 espectadores. É quase impossível com estas salas. Por exemplo, ontem (na sessão de apresentação no Nimas, com a equipa) fez mais do que nas salas da NOS juntas. Mas de longe.

A NOS em cada multiplex tem cinco, seis, até dez ecrãs. E esta medida das três salas de cinema português, na minha opinião, é um boicote. Eles escolheram três centros comerciais (Alameda, no Porto, Alma Shopping, Coimbra, e agora Amoreiras, a substituir o Alvaláxia, que encerrou) que não têm pessoas.

O que se poderá fazer?

Acho que honestamente temos que começar a não permitir que os filmes sejam exibidos nessas salas. As salas do cinema português são um insulto. São uma forma de ‘cinzentarem’ os filmes noutras salas. O Entroncamento estava a ter muito hype no TikTok – bem sei que é uma rede social e é muito diferente, mas o TikTok do filme já vai com mais de 1 milhão de visualizações. Pode não se refletir em espectadores, mas está a ter um alcance significativo.

É um awareness importante para o filme, não é?

É um alcance que para pessoas que vão ao Vasco da Gama, que vão ao Colombo. Por exemplo, no Fórum Montijo, passa às 12h30… Ma vai ser exibido no Almada Forum – eu fico muito contente porque tem a malta do Monte Caparica, do Laranjeiro, do Feijó, pessoas que vivem em Almada, pessoas que me conhecem. Mas não podemos esperar muito com horários às 12h e 16h.

Pois compreendo. Para terminar, fala-me do teu próximo projeto. Espero que não demore também 8 anos a ser feito.

Vamos ver, vamos ver. Não posso falar muito porque ainda não tenho financiamento. Estou a trabalhar na adaptação de um livro. Uma proposta que sempre quis fazer como realizador, que é ter um produtor a olhar para mim. E a pensar um bocadinho a coisa numa lógica de cinema clássico. Ele propôs uma ideia e eu achei que fazia sentido. Mas há ainda uma grande incerteza e imprevisibilidade.

O que é queres dizer às pessoas que podem ir ver o teu filme? Mesmo que numa sessão do meio-dia e meia?

Vão ver o filme e que façam o esforço; que toda a gente nos tem seguido nas redes sociais e que têm visto o filme na comunicação social, que o vão ver e que o procurem. É isso. Vão ao cinema vê-lo e não esperem pelas plataformas, por favor. Porque a experiência é diferente.

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