Entrevista. Rui Basílio: “Não tenho uma identidade única e esta é a minha identidade”
No coração de Porto de Mós, entre serras calcárias e fábricas que moldam a paisagem com o mesmo rigor de quem lapida pedra, ergue-se um ateliê onde o ferro, a madeira e a pedra convivem numa estranha harmonia. Ali, o ateliê de Rui Basílio funciona como um laboratório de contradições onde convive o gesto bruto da rebarbadora com a paciência milimétrica da soldadura, e o resultado é sempre uma história que não se esquece. Aos 34 anos, Basílio recusa rótulos e escala projetos — desde uma máscara veneziana feita com quatro mil porcas até ao desenho que só aparece quando a pedra é molhada — transformando materiais vulgares em metáforas visuais. A sua obra percorre muros, rotundas e feiras internacionais; fala de memória, de ofício e de imperfeição deliberada, como se o erro controlado fosse a assinatura estética que dá forma ao discurso. Esta é uma entrevista com o artista que prefere o desconforto criativo ao conforto previsível — e que, com cada peça, pede ao público que espere o inesperado.
Quando te perguntam o que é que fazes, qual a resposta que dás hoje?
Não consigo ter uma base muito concreta e sucinta de justificação daquilo que faço diariamente, porque hoje estou num tipo de trabalho, amanhã, noutro tipo de técnica, de matéria, e como tento sempre ser diferenciador e não repetir projetos, acabo por não me conseguir descrever por um único elemento. No entanto, com os poucos anos de profissão que tenho a tempo inteiro, é interessante ver a abordagem de quem segue o meu trabalho, independentemente de ter ou não a minha assinatura, conseguem perceber que certos elementos revelam parte da minha identidade.
Não tenho uma identidade única e esta é a minha identidade. No entanto, para sintetizar, sou artista visual, artista plástico, que já ajuda a justificar muita coisa.
Ajusto-me facilmente a qualquer tipo de cliente, marca, tipo temático ou homenagem que deve ser feita, para que seja um trabalho único e diferenciador para aquela entidade ou marca, com a sua própria história, trabalhada por mim.

Desde quando é que trabalhas só a tempo inteiro como artista?
Há 5 anos. Por acaso coincidiu com o início da Covid-19. A partir daí, acabei por, a pouco e pouco, desenvolver alguns projetos diariamente com desafios diferentes, sempre numa zona brutalmente desconfortável, mas também se deve a isso que, depois de ter passado 5 anos — que num contexto de vida não é muito tempo — vejo uma evolução da minha abordagem a cada projeto.
Quando é que surgiu a tua primeira obra como artista?
O meu primeiro retrato a carvão foi há 7 anos. Durante algum tempo desenhava apenas como part-time, mas depois começaram a surgir alguns desafios. Queria expandir e vi que ou dava o passo ou corria o risco de me arrepender para o resto da vida. Hoje em dia uso o retrato para passar o tempo e desligar um pouco do cotidiano mais exigente em termos de técnica, logística e de responsabilidade que exigem os projetos, com as dimensões que me vou habituando.
Que risco foi este?
Trabalhava numa empresa de moldes durante 5 anos e num intervalo da manhã apareceu em 2019 através da publicidade de um concurso para artistas plásticos portugueses enviarem o portfólio. Não sabia muito bem do que se tratava, mas segui em frente. Passado algum tempo, recebo a confirmação de que havia sido aceite neste concurso que era o Fill The Culture ligado à BMW.
Selecionaram-me para representar a capital do distrito de Leiria a par dos outros artistas das outras 17 capitais dos distritos em Portugal e, de repente, vi que estava entre os melhores graffiters do país, com a diferença de que nunca tinha utilizado latas de spray no meu trabalho e era justamente isso que o concurso implicava: selecionar 50 latas de spray para fazer uma interpretação que assinalasse a inauguração do novo BMW Série 1, em que todos tinham de começar e terminar ao mesmo tempo.
Mas eu, como não percebia nada de latas, tive de tentar arranjar uma alternativa. E então lembrei-me que poderia, na mesma, ficar com as latas, para pequenas coisas. E propus trabalhar o contentor de metal, que ia ter esse BMW, com uma rebarbadora. Acabei por ganhar o concurso. Talvez pela capacidade de fazer algo diferente dentro daquilo que a priori estava fechado como única solução. Isso abriu-me muitas portas.

Nasceste em Évora, cresceste em Porto de Mós, e manténs aí o teu ateliê. O que é que esta geografia te deu e o que é que ainda te pede?
Nunca me esqueci das minhas raízes, de onde nasci e da educação que tive. Há episódios da minha infância que hoje vejo como me influenciaram, por exemplo, quando estava com o meu pai, às vezes irritava-me um bocado ele não trazer uma mala de ferramentas para casa para desapertar uma lâmpada ou um parafuso, então eu tinha de ir buscar sempre uma faca, qualquer coisa que não tinha aquela finalidade, para me tentar desenrascar. E, curiosamente, o que me irritava na altura, trouxe-me motivos para hoje em dia poder criar de uma forma diferente dos outros. Esta ligação faz com que as minhas origens formadoras estejam sempre presentes.
Achas que essa irritação que sentiste marcou-te a ponto de transformar o tal desconforto brutal no teu lugar de conforto, algo que tu inconscientemente quase que procuras porque sabes que dali vais evoluir?
De facto, tenho alguma dificuldade em acomodar-me à situação em que estou. Ou seja, chateia-me se estiver sempre no mesmo registo e puxa por mim pensar que poderei fazer algo mais desafiante amanhã. Nem que seja uma evolução mental, porque artisticamente há muitos artistas bons a apresentar ideias sempre diferentes. Este confronto diário de que eu preciso de fazer algo diferente acaba por me deixar desconfortável ou não suficientemente agradado com aquilo que estou a fazer só neste momento.
E isto vai de encontro à versatilidade de materiais do teu trabalho. Alguma vez sentiste pressão para te especializares?
Foi um processo natural. Consoante o cliente que me aparecia, automaticamente pensava algo mais enquadrado com o cliente do que comigo. Nunca fui muito egocêntrico e isso ajuda-me a ajustar aos outros e àquilo que me aparece de uma forma mais prática. Acho que isso acaba por ser um trunfo.

De que maneira a tua formação em design mudou o teu método de ateliê, do desenho técnico à execução?
O design industrial tem uma vertente de funcionalidade que é o propósito para desenvolver algo. Quando procuro me adaptar a um cliente, tento colocar esta base em prática e aí acho que consigo estabelecer a relação entre design industrial e artes plásticas. E isto depois reflete-se nos clientes. Alguns por a inexperiência que acabei por perder, mas outros por sensibilidade que acabei por conseguir garantir. Fui sempre tentando manter esses clientes que me apareciam. Gostava já, desde há algum tempo, de ter um tempinho de cabeça só para poder fazer uma peça só minha.
Para conseguir perceber o feedback geral que uma peça só minha poderia ter na comunidade. Mas, infelizmente, ainda não consegui ter uma semaninha de tempo ou duas para desenvolver uma peça. Eu acho que se calhar é mais felizmente.
Isso vem de encontro com a minha próxima pergunta: quando uma ideia chega, tu começas pelo material, pela forma, pelo efeito que queres provocar…também reparo pelo que estás a falar que existe sempre um storytelling. Por exemplo, esta máscara veneziana, a tua última obra.
Gosto de unir vários elementos para proporcionar mais estímulo visual a quem possa ter mais tempo. No caso do restaurante Forneria , foi fácil perceber que o contexto, aliás, sempre gostei do misticismo associado a esta cidade. O trabalho com o forno, a lenha e o estilo industrial foram elementos suficientes para eu contar uma história e o resultado foi uma máscara inspirada no estilo veneziano composta por 4.000 porcas. Há uma técnica que é a técnica do soldar, que se unirmos dois, as peças metálicas, elas passam corrente, depois é introduzida com uma de várias técnicas de soldadura, um outro componente que passando a corrente faz a união dos dois metais. E prontinho, foi multiplicar todas essas horas [92 no total] pelas quatro mil porcas.
Esta multiplicação de um único elemento é uma marca do meu trabalho. Quis, então, criar uma máscara corpulenta, para que fosse impactante na sala [a obra pesa 90 quilos]. E depois, como não gosto da perfeição das coisas, ou seja, tudo muito explícito, uma meia máscara acaba por deixar ali um misticismo aliado à minha forma grotesca e inacabada de mostrar as coisas; quase como a cultura japonesa, de darmos valor àquilo que está imperfeito.
Na Feira Internacional de Pedra em 2024, ocorrida em Xiamen, na China, levaste uma peça em que o rosto só se revela quando a pedra está molhada. Como nasce esta técnica e como é que a tornas tua?
Na verdade, não levei a peça. Havia enviado a pedra três meses antes, mas por causa do conflito com os Hutis, o material não chegou a tempo. Além disso, levava comigo o químico para realizar este efeito no material. No entanto, durante o voo, com as diferenças de pressão e temperatura, o líquido perdeu as propriedades.

Qual foi a tua reação com aquilo?
Bom, tinha de me desenrascar. Estava na China, em princípio, e deveria haver.
Só que lá, havia a dificuldade de acesso às redes sociais, poucas pessoas que percebiam inglês e muito menos o português. Não era um caso de vida ou morte, mas não estava disposto a fazer má figura. Então, agarrei numa imagem do que pretendia e fui a correr pelos pavilhões à procura de alguém que tivesse um material semelhante. No último pavilhão consegui encontrar e depois de um teste sobre um desenho, vi que servia. No final do segundo dia tinha a peça concluída e foi interessante, porque tanto os chineses como os espectadores de outras nacionalidades viram ali um trabalho diferenciado que me trouxe um feedback muito interessante e bem conseguido.
E a pedra, afinal, veio de onde?
Consegui uma pedra portuguesa através de um fornecedor chinês que tinha muitos contactos cá. Depois de alguns testes, encontrei aquela que era mais porosa, menos vidrada e tentar ajustar esses pontos todos para apresentar algo a que me propus inicialmente para justificar essa viagem.
Como é que descobriste essa técnica?
Por acidente. Tentava hidrofugar algo para não se notar e não estava a resultar. Reparei que havia uma parte que ficava molhada e outra não e lembrei de desenhar e usar o líquido. Gostei do resultado e agora o desafio é criar algo ainda mais impactante.
Existe, neste percurso, alguma diplomacia do material ou tu achas que o material, e até pela experiência pela qual tu passaste, acaba por não ter fronteira? Por exemplo, só quero trabalhar com a pedra se for da Serra d’Aires.
Não, também não sou assim tão bairrista quanto isso, porque acho que todas as zonas, todos os materiais têm os seus potenciais e se nos quisermos fechar muito acabamos por perder experiências que mais tarde poderiam resultar em projetos maiores. Portanto, sou muito volátil a trabalhar com várias pedras de vários sítios, várias madeiras de vários sítios, desde que conceptualmente faça sentido.
Como é que geres a passagem do objeto intimista para a instalação de grande escala?
Fico quase sempre apaixonado por todas as peças que faço. Ainda consigo sentir no final de cada peça aquela lagrimazinha no final.
Claro que pagam pelo meu trabalho, mas parece que o dinheiro não paga quase tudo aquilo que sinto e as dificuldades não são percetíveis para quase ninguém. Fico sempre com um pouco de pena de deixar que as peças estejam na minha posse, mas tem de ser assim.
Tens obras no espaço público, intervenções com dimensão cívica, como por exemplo a peça contra a violência doméstica no Brasil. Como é que decides o que aceitar e como medes o impacto?
Hoje em dia é fácil ser mal interpretado quando falamos de questões sensíveis. Nunca fui muito ativista, ainda que defenda ideias básicas de humanismo e, talvez por isso, tento que as pessoas não se sintam atacadas. Prefiro deixar as peças respirarem perante a observação dos outros. É claro que tenho em atenção onde é que me vou localizar. Uma intervenção na China é diferente do que posso fazer na Dinamarca ou na Coreia. Onde quer que eu vá, gosto de me ajustar à mentalidade do lugar para ter um trabalho bem conseguido.
Do circuito regional para fora, o que mudou após Xiamen? Que contactos e convites ou caminhos é que esta experiência internacional te trouxe?
Felizmente, em alguns aspetos, a vida de artista é muito influenciada pelo lugares onde vamos e as pelas pessoas com quem estamos. Se calhar as peças mais interessantes podem estar em lugares pouco conhecidos e por isso o impacto será menor, e o contrário também é verdadeiro. Xiamen trouxe-me mais bagagem como artista e, para quem acompanha o meu trabalho, olha-me com outros olhos. Se calhar, ir para o outro lado do mundo onde alguns artistas como o Ai Weiwei têm o acesso barrado, mostra a minha maneira de comunicar.

Qual é o teu trabalho preferido?
Houve um concurso para o Luxembourg Art Prize — talvez 400 candidatos em todo o mundo — em que me propus a fazer uma homenagem num terreno agrícola onde o avô da minha esposa havia trabalhado durante muitos anos. Queria explorar uma vista aérea porque ele já tinha falecido e havia uma componente transcendental dele ser alguém que nos observa a partir de cima. Propus-me a fazer o desenho da cara dele, na terra em que ele trabalhava usando a sua enxada. Foi um trabalho de 15m x 10m onde me guiei por uma grelha básica de 1m x 1m e lembro-me perfeitamente de, ao ver o drone levantar e reproduzir o rosto dele, liguei imediatamente a chorar à minha mulher. Foi o trabalho que me deixou arrepiado durante muito tempo. Fiz isso sem precisar de baixar o drone, estava tudo lá, mesmo sem ter o controlo total da imagem.
Qual o teu próximo projeto, ou no que tens estado a trabalhar? Costumas ter vários trabalhos a acontecerem ao mesmo tempo?
Estou a passar pelo projeto mais exigente em termos de logística e responsabilidade até hoje. Estou a elaborar o interior de três rotundas numa das zonas mais movimentadas de Portugal, o IC2 entre Leiria e Lisboa, onde passam cerca de 10 000 carros por dia. Este projeto começou a ser falado há 2 anos com as Infraestruturas de Portugal, IMTT, Câmara de Alcobaça e outras entidades com o propósito de fazer algo diferenciador. Apesar de serem todas na mesma zona, interpretei três temáticas diferentes. Numa delas trabalhei parte da calçada portuguesa com a representação de dois rostos de cunho religioso; na segunda há uma zona industrial na periferia, portanto quis criar um efeito de ilusão de ótica com rodas dentadas; a última, será um trabalho com pedra portuguesa translúcida com um casamento entre o metal, luz, pedra, de dia tem um ponto de vista mais natural e à noite um cenário mais gótico, como o que há no Mosteiro de Alcobaça.
O que é o sucesso para ti aos 34 anos e o que esperas para o teu futuro?
Não querendo parecer egocêntrico, sei que tenho uma palavra a dizer artisticamente. Tenho de continuar a trabalhar com esforço diário e humildade. Sei que esta cadência trará, com o tempo, o reconhecimento dos outros em ver a minha revolução. Motiva-me, também, quando a minha filha de quatro anos vê os meus trabalhos na rua e pergunta-me ‘papá, foste tu que a fizeste?’ e, acho que, daqui a uns anos, estas obras possam ter um valor acrescentado de orgulho.
