Entrevista. Sara Ribeiro: “No fim, somos mais um no meio de tantos outros”

por Ana Isabel Fernandes,    23 Novembro, 2021
Entrevista. Sara Ribeiro: “No fim, somos mais um no meio de tantos outros”
Fotografia do Município de Mirandela
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A seguinte entrevista foi, originalmente, publicada no dia 19 de Novembro de 2021, no “Jornal, Os Mirandelenses”, jornal regional da cidade de Mirandela.

O Centro Cultural de Mirandela recebeu, no dia 6 de Novembro, a peça “A Queda de um Anjo”, adaptada do livro homónimo de Camilo Castelo Branco, pela Companhia João Garcia Miguel, com textos adaptados pelo mesmo João Garcia. O livro que funciona, por si, como uma caricatura do Portugal oitocentista, ao mesmo tempo que se afasta do tipo de romantismo expresso em “Amor de Perdição”, por exemplo, revela-nos o impoluto e maculado transmontano “Calisto”, o anjo do título, e a sua queda e corrompimento na sua ida para o parlamento, Lisboa. A peça, em si, vive da simbiose perfeita entre a actuação polivalente de Sara Ribeiro – que teve de interpretar, pelo menos, 9 personagens diferentes, ao mesmo tempo que se dividia entre o domínio do corpo e, sobretudo, da voz- e a guitarra de Vítor Rua. O “Jornal, Os Mirandelenses” quis saber como a actriz Sara Ribeiro se preparou e encarou o desafio da exigência proporcionada pela peça. Aqui fica o resultado.

Desde o domínio do corpo, da voz, até à interpretação em si de várias personagens, a peça a “A Queda de um Anjo” é muito transversal. Como é que encarou esse nível de exigência? Sentiu que tinha de dar muito de si? 
Acho que só tive consciência do nível de exigência que impus a mim mesma neste espectáculo um pouco depois de ele estrear. Só depois de algumas apresentações é que comecei a perceber a imensidão de coisas e detalhes que ainda poderia explorar e aperfeiçoar na performance.

Digo isto porque quando comecei, o ponto de partida, para mim, foi semelhante ao ponto de partida em outras criações. Costumo colocar-me num lugar de abismo, e procuro dificultar a vida a mim mesma, quase sempre. O facto de haver uma forte componente física, um texto denso, canções, era para mim, à partida, uma coisa “simples” porque era um desafio semelhante a desafios que que já tinha encarado em outras criações. Mas, na verdade, durante este processo nunca pensei muito nisso.

Comecei a pensar e a consciencializar a carga e o grau de dificuldade depois da criação ter estreado. Só depois da estreia parei para contar quantos personagens eu interpretava neste espectáculo, creio que são 9 diferentes. Esse, sim, foi um desafio novo. Nunca tinha feito tantos personagens diferentes no mesmo espectáculo.

Quanto a dar muito de mim, isso, felizmente, é um lugar comum para mim. Não sei ser ou estar de outra forma. Na vida ou na criação gosto de dar tudo de mim ou quase nada. É uma liberdade e um prazer enormes saber que ainda há encenadores e espectáculos que abraçam e dão espaço a intérpretes que são assim.

Quais foram as principais dificuldades ou, chamemos-lhe antes assim, exigências?
As maiores dificuldades foram as múltiplas personagens e a compreensão do texto. Tornar as diferentes personagens claras como água e ser capaz de contar a história de forma transparente e rica. Ainda posso crescer nestas duas coisas. Continuam a haver coisas que não entendo e que posso limar, coisas que posso limpar, desenhar melhor. Enquanto houverem espectáculos há trabalho a ser feito.

Uma vez que a Sara também se encontra ligada à música, este tipo de peças em que pode explorar vários lados da representação, em especial a exploração da voz, agrada-lhe?
Foi mais a representação que sempre me permitiu explorar os vários lados da música.

A exploração, a descoberta e uso da voz são coisas que conheci enquanto fazia teatro. A voz é um prazer especial, é talvez o meu músculo preferido em palco.

A peça vive, igualmente, do entrosamento entre a sua representação e a guitarra de Vítor Rua. Foi fácil essa ligação, esse entrosamento? 
Muito simples, muito intuitivo e com pouca conversa, mesmo como eu gosto.

Há pessoas com quem nos encontramos mas parece que já nos entendemos antes de nos conhecermos. Com o Vítor sinto isso. A guitarra e a música dele entendem-se bem com a minha alma e com a minha voz, sem grandes pressões ou necessidades de ajustes. Foi muito orgânico, muito … simples. Muito bom.

Ele, além de um músico extraordinário, é o homem maravilhoso, é muito fácil gostar-se dele.

E como é que foi inteirar-se, mais, do universo literário  de Camilo Castelo Branco? Leu o livro? Foi fácil embrenhar-se no seu estilo de escrita? 
Não li o livro. A primeira versão que li do texto já era do João Garcia Miguel mas era muito Camilo ainda. E confesso que detestei porque compreendi quase nada.

Agora sou completamente apaixonada pela história e pela escrita do Camilo nesta obra.

Apesar da peça retratar um período histórico específico de Portugal, acha que há aspectos que podem ser lidos à luz da nossa contemporaneidade?
Muitos aspectos, talvez até demais. Há discursos políticos no texto que podiam ter sido retirados da conversa do chá das cinco, na nossa assembleia, ontem ou hoje. Mas, na verdade, o que mais me toca nesta obra é o facto de um homem simples das serras, cheio de sonhos e conhecimento, trocar tudo aquilo que o faz assemelhar-se a um anjo para ser um homem como outro qualquer.

Acho que o Calisto é um espelho límpido e cristalino daquilo que todos somos.

Anjos virgens e puros, inocentes e patetas com sedes e fomes de conhecer, ver e tocar. Vivemos e queimamos, levantamos, vivemos e queimamos, uma e outra vez repetindo o que todos fizeram e experienciaram e viram, e queremos ser tudo como todos, ter tudo como todos, ser tudo como todos. No fim, somos tanto como os outros. Iguais a todos. Somos mais um no meio de tantos outros.

Matamos, mentimos e choramos para acabarmos como todos os outros. Homens e mulheres normais, um ou uma como outro/a qualquer.

Essa queda do divino para o chão é um círculo.

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