Entrevista. Tigran Hamasyan: “O propósito da música e das artes é conectar-se com algo que é uma realidade interior e uma experiência espiritual”
Esta entrevista foi concedida pelo artista arménio à Comunidade Cultura e Arte no passado mês de de dezembro de 2022, a propósito da sua estreia na Casa da Música, no Porto.
Tigran Hamasyan está de regresso a Portugal a 23 de Julho. O artista actuará no FIME – Festival Internacional de Música de Espinho, que decorrerá de 19 de Junho a 31 de Julho. O evento terá 15 espectáculos distribuídos pelo Auditório de Espinho, Praça Dr. José de Oliveira Salvador e Igreja Matriz. Entre os artistas confirmados estão ainda Joe Lovano, Steve Coleman e Anouar Brahem. Recorda a entrevista que realizámos a Tigran Hamasyan em 2022.
Começaste a tua carreira a estudar em várias instituições musicais no teu país. Como é que esse percurso moldou a tua carreira e te impulsionou a ir até aos Estados Unidos da América [EUA]?
Bem, na verdade, comecei a participar em várias competições antes de ir para os Estados Unidos. E, graças a essas competições, também atuei em alguns festivais e coisas do género a partir dos 14 anos. Percebi que precisava de ir para os EUA para ter uma formação adequada em jazz, porque vieram de lá muitos músicos incríveis. Portanto, essa foi a minha decisão. E assim, quando tinha 17 anos, inscrevi-me numa universidade e basicamente toda a minha família se mudou para lá. Estudei na University of South California, o que foi ótimo. Cerca de seis meses depois de ter chegado, gravei o meu primeiro álbum [“World Passion”, de 2006] com músicos como o [baterista] Ari Honig, [contrabaixista francês] François Moutin e [saxofonista] Ben Wendel. Portanto, as coisas aconteceram rapidamente. Mas participar nestes concursos na Europa também me ligou a músicos nos EUA porque é um círculo pequeno.
O que é, para ti, a música?
A música é algo que considero ser uma forma de me expressar e também de me aproximar de Deus, da espiritualidade.
És da Arménia, um país que se pode considerar periférico para o dito ocidente. O que achas que trazes das tuas origens que influenciam a tua música?
Bem, sinto que a música folclórica em geral, de qualquer parte do mundo, é algo que pode ligar diferentes culturas, porque é uma experiência muito profunda, não importa qual seja o país. É como se existisse uma espécie de consciência coletiva nos seres humanos que nos liga quando ouvimos uma música genuína vinda das profundezas dos séculos. Portanto, eu venho de uma tradição e a música folclórica faz, por assim dizer, parte da minha linguagem musical, é a forma como me expresso musicalmente. Claro que nem todas as composições têm influência arménia, mas a maioria têm. Influência não é a palavra certa a usar, já que é algo que faz parte da linguagem musical com a qual comunico. Trago, sim, a música folclórica arménia, mas é moldada pela minha visão enquanto compositor e improvisador, tendo em conta todas as outras influências que tenho. Tudo para além da música folclórica arménia que ouço, tudo o que me influencia, está presente na minha música, mas a essência da mesma é, obviamente, a música folclórica arménia.
Tens uma formação bastante clássica, para além do próprio jazz. Achas que a música clássica e as noções mais técnicas da música ainda estão distantes do comum ouvinte e o que é que consideras necessário para que as pessoas se aproximem delas?
Obviamente, a educação musical tem um papel fundamental na família, principalmente nos pais, que devem proporcionar isso desde cedo. Se as crianças crescem num ambiente com música clássica, jazz, rock, etc., é importante que sejam expostas a diferentes estilos musicais. É preciso evitar a exposição à música pop do momento, porque, inevitavelmente, ela vai acabar por influenciá-las. Quanto mais profunda for a educação musical dos filhos, maiores serão as probabilidades de, mesmo que não se tornem músicos, terem uma compreensão mais profunda da música em geral e conseguirem compreender a música clássica e, logo, o jazz, o que lhes pode proporcionar melhores oportunidades de carreira. Tudo começa na família. Quer dizer, se não se expõe o filho desde cedo a estes diferentes estilos musicais, não pode esperar que ele chegue à escola aos cinco ou seis anos e já comece a tocar estudos do repertório clássico. É necessário que este amor pela música clássica cresça aos poucos.
Quais são as forças maiores e o que te delicia mais na tua composição e produção musical?
Compor é algo que faz parte do meu dia-a-dia. Mesmo quando improviso, penso em criar. O processo criativo é muito, muito importante para mim. E gravo-me sempre assim que tenho uma ideia que vale a pena guardar. Eu gravo sempre numa dessas pilhas de gravações e, depois, tenho um projeto em mente, um formato específico, como aquele que quero fazer para o meu próximo álbum. Digamos que tenho um formato de trio e decido que o próximo álbum será nesse formato. Depois, rebusco nessa pilha de músicas e escolho composições ou ideias que representam quem eu sou agora. Ou ideias que gostaria de apresentar ao mundo que fazem sentido para mim. Portanto, este é basicamente o meu processo. Embora a parte de desenvolver projetos também esteja mais ou menos ligado. É como se fosse um processo secundário. O primeiro processo é simplesmente compor música constantemente e explorar o tempo todo, porque, felizmente, é algo que me é impossível parar.
Sente-se uma influência imensa na tua música do rock, em especial dos seus subgéneros metal e thrash. Existe alguma predileção tua por este género ou por algum dos seus intérpretes?
Sim, cresci sob a influência do meu pai, que me iniciou no rock clássico, ao mesmo tempo que cresci a ouvir fun, jazz e também música clássica. Mas este som pesado de guitarra do hard rock está realmente enraizado na minha música. Claro, não em tudo o que faço, mas é algo com que cresci. Acredito que as experiências da infância e aquilo com que crescemos têm uma grande influência naquilo que fazemos mais tarde, quando somos adultos. Simplesmente adoro este tipo de música, por isso, ela faz, naturalmente, parte de alguns dos meus projetos. Apesar de tudo, não ouço muitas bandas de metal, mas uma das minhas bandas preferidas é os Tool, que me influenciou bastante, mas também bandas como os Radiohead, menos agressivas, menos pesadas, mas como uma grande influência em termos de como compor e produzir uma música.
Já atuaste em vários monumentos, inclusive alguns do teu país. O que achas da ideia de usar os espaços sagrados para os povoar com música habitualmente confinada aos habituais palcos?
Diria que, se a música for tocada com a consciência de que essa música deve ser algo transcendente e que o público deve ter algum tipo de experiência espiritual, então não adoro tocar apenas em locais sagrados. Porque, para mim, o propósito da música das artes é conectar-se com algo que é uma realidade interior e uma experiência espiritual. Nesse sentido, faz todo o sentido tocar música numa igreja. E é por isso que se recitam textos sagrados, que são cantados há milhares e milhares de anos. A razão para tal é que temos uma ligação profunda, as pessoas compreendem melhor a mensagem com a música sacra. Assim, faz muito sentido ter música apresentada numa igreja. Mas se a música que está a ser apresentada não tiver algum propósito, se houver outro propósito por trás, então acho que talvez não seja o lugar certo para o fazer.
A tua música é perfumada por uma grande envolvência espiritual. Sabendo que existe um género mesmo de seu nome jazz espiritual, vês-te enquadrado neste ou achas que a tua música transcende esses limites?
Sim, caso queira colocar as coisas dessa forma, sim.
Ainda neste aspeto do sagrado, existe alguma expressão religiosa e/ou mística em que tenhas mergulhado na tua carreira?
Não consigo falar de uma experiência específica. É mais sempre que há uma aura quando tocas em concertos ou tens atuações em que realmente te desligas da realidade e sentes uma alegria imensa, algo que é inexplicável. E seja a tocar com outros músicos ou até mesmo sozinho, esta ligação que sinto, esta alegria, é como uma euforia, que está de alguma forma ligada à espiritualidade e a essa ligação. Quando te conectas com algo superior, com algo real, um outro reino, é aí que tens, na minha opinião, estes sentimentos. Ou melhor, este estado de ser é um indício de ligação com algo mais. Portanto, são momentos que eu valorizo muito.
No teu álbum mais recente, “StandArt” [atender que a entrevista foi concedida em 2022, ano de lançamento deste disco], trouxeste o Great American Songbook para os teus habituais ouvintes. O que é que te despertou interesse neste cancioneiro?
Bem, eu sou um músico de jazz, sou um improvisador e tornou-se natural aprofundar este repertório. Tive a ideia de fazer um álbum dos standards, mas senti sempre que fosse mais urgente apresentar a minha própria música. No entanto, com o confinamento da pandemia, tive muito tempo para refletir sobre todos os projetos que queria realizar há algum tempo e, finalmente, pude começar a desenvolvê-los. Por isso, sim, acabei por compor várias músicas durante o confinamento e entrei em contacto com alguns músicos incríveis [a saber, o baixista Matt Brewer, o baterista Dustin Brown, o saxofonista Joshua Redman e o trompetista Ambrose Akinmusire] com quem já queria muito tocar há algum tempo e todos eles estavam disponíveis porque não havia concertos a acontecer. Portanto, felizmente, consegui gravar várias músicas com artistas realmente incríveis dos EUA.
Foi um processo realmente ótimo, e eu meio que precisava disso, porque arranjar ou tocar standards no século XXI foi um grande desafio para mim. Simplesmente porque tens todas estas referências de músicos incríveis, verdadeiras lendas, que pegaram nestas melodias de standards e lhes deram uma visão e uma direção tão incríveis, que é difícil esquecê-las depois de as estudar. É esse o desafio de fazer algo original, algo que resulta do que tu próprio descobriste. Nesse sentido, é um desafio. Mas sempre quis colocar as ideias que desenvolvi nos meus discos anteriores neste formato, explorar as possibilidades de criar formas diferentes para estes standards, criar diferentes campos sonoros para os mesmos.
Quem são as tuas grandes inspirações musicais presentes, entre jazz, rock, música clássica e folclórica?
Neste momento, destaco o John Coltrane. Além disso, tenho-me interessado muito, desde há algum tempo, pela música medieval europeia, pela música dos inícios do Renascimento, também pela música polifónica por volta do nascimento da Escola de Notre Dame, na Universidade de Paris. Também compositores como Beethoven, Mendelssohn, e também Machaut, Guillaume de Machaut. Ao mesmo tempo, também estou a ouvir discos de artistas como o Ambrose Akinmusire, o Walter Smith III e os Beatles.
Existe algum músico no presente com quem realmente gostarias de colaborar?
Finalmente tive a oportunidade de tocar com o [saxofonista] Walter Smith III. Tocámos juntos uma vez há muito tempo, mas finalmente tive outra oportunidade de tocar com ele e foi uma experiência incrível. Adorava colaborar com [o saxofonista] Jan Garbarek, por exemplo. Sinceramente, já tenho a sorte de estar, neste momento em digressão com uma banda cujos músicos são os músicos dos meus sonhos. Com o Jeremy Dutton, que toca bateria, o Matt Brewer, que toca baixo, somos um trio, mas também tivemos a tocar em Filadélfia com o Manuel Wilkins, que é um saxofonista incrível, um músico de nível internacional. Com isto para dizer que sinto que estou a tocar com músicos com quem sonhei tocar.
Qual achas que é o futuro da música folclórica, que vai caindo no esquecimento consoante o mundo se torna cada vez mais urbano e digital?
Infelizmente, diria que cerca de 95% da música folclórica já se tornou uma peça de museu, já não é uma tradição viva. É algo que se apresenta num palco ou num museu, não como uma tradição viva que acontece agora. Mesmo que aconteça, é algo que, mais uma vez, é observado de um ponto de vista externo. Fazemo-lo simplesmente porque é algo que existe há muitos séculos, mas que, na verdade, não o compreendemos. Não se enquadra bem no nosso dia-a-dia, não está em conformidade com a realidade mundial atual. Mas isso não significa que não faça diferença. Faz uma enorme diferença. É muito importante, mas estamos meio desligados e cada vez mais desligados disso. Na minha opinião, isto não parece nada bom para o futuro da música folk. De certa forma, também noto que quem está a aprofundar a sua cultura e a tentar compreendê-la de alguma forma é visto como um forasteiro, quase como alguém que se tornou num estranho, num hipster. Alguém que não se enquadra muito bem ou não faz parte das normas da sociedade convencional. Para mim, se não se conhece as raízes, se não se percebe de onde vem, é difícil sobreviver no mundo. Por isso, é melhor ter uma base sólida para sustentar o momento de compreender a ancestralidade e as proveniências de cada um.
Existe algum artista que recomendas vindo do teu país natal e que merece ser descoberto?
Vem-me à mente o realizador Artavazd Peleshyan, que é quase é um poeta visual, à maneira do Andrei Tarkovsky, sendo que a maioria dos filmes dele não tem diálogos. Usa uma técnica específica de montagem e de fotografia que não é muito conhecida porque ele nasceu na União Soviética, no auge da União Soviética. O mais recente filme dele [“La Nature”, de 2019] foi lançado e recebeu muitos elogios no Festival de Veneza e a música dos créditos finais é da minha autoria. Fiquei bastante honrado e nem imaginava que um dia iria trabalhar com ele. Mas sim, recomendo vivamente que vejam todos os filmes dele porque é uma experiência muito comovente e muito emocionante.
Já estiveste em Portugal e deste um concerto no ano passado [2021], na Póvoa de Varzim. O que é que conheces de Portugal ou gostarias de conhecer melhor?
Bem, não sei muito sobre Portugal, quero dizer, apenas alguns factos históricos famosos. Mas espero poder passar lá mais tempo e conhecê-lo mais profundamente. Penso que, de todas as vezes que lá viajei, a natureza do país e o carácter das pessoas que conheci em diferentes lugares são muito marcantes. Tive uma ótima ligação com pessoas comuns em todos os locais que visitei em Portugal. Já lá fui pelo menos dez vezes, e, de todas as vezes, foi uma experiência única. Agora, não me sinto realmente em casa, é sempre o oposto, embora sinta uma proximidade cultural. Nesse sentido, sim, adoraria visitar o país o mais possível.
Sei que há um disco chamado “Tears of Lisbon” gravado por um coro belga incrível [Huelgas Ensemble] e o maestro era o Paul van Nevel. É absolutamente incrível, é com música renascentista e é um disco muito bom, adoro-o. As duas primeiras faixas são simplesmente… inacreditáveis! Mas quero certamente explorar mais o folk, principalmente a música folclórica.
O que pretendes fazer com a tua música no futuro?
Tenho um projeto muito especial para lançar em 2024 [“The Bird of a Thousand Voices”]. Não posso adiantar mais detalhes, mas é baseado numa história muito antiga. Muitas outras culturas também têm histórias semelhantes, ideias parecidas. Até o Carl Jung acreditava que, na mitologia, nos contos de fadas, e nas histórias antigas, existe algum tipo de consciência coletiva e de psicologia profunda que está oculta e subjacente. Portanto, esta é a história que vou apresentar, em muitas formas diferentes e em formato multimédia. Algo muito grande está para vir.
