Entrevista. Valentina Zanelli: “Nos países ocidentais, a cultura está num museu ou num evento específico. Nos países africanos está na vida quotidiana e diária”
Esta entrevista foi realizada no âmbito do evento Redes Reais – Encontro Internacional Imersivo PALOP-TL apoiado pelo Procultura – Promoção do Emprego nas Atividades Geradoras de Rendimento no Setor Cultural nos PALOP e Timor-Leste, financiado pela União Europeia, gerido e cofinanciado pelo Camões, I.P.
Qual é o poder transformador da cultura? Qual é a força que os artistas têm em contextos sensíveis de instabilidade política, de casos de corrupção e de desigualdades sociais? A cultura é vista e vivida de uma forma específica nos países africanos, e de outra forma diferente nos países europeus? Há um estigma sobre certas práticas artísticas?
A experiência de Valentina Zanelli permite-lhe elaborar sobre todas estas questões. A gestora cultural e presidente da associação Creativi Connections tem percorrido o mundo a desenvolver projetos culturais, com passagens por vários países africanos como Costa do Marfim, Etiópia, Nigéria e Senegal. Desta vez, a jornada profissional levou-a até à Guiné-Bissau ao encontro de 15 artistas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e de Timor-Leste, que foram apoiados pelo programa de promoção do emprego nas atividades geradoras de rendimento no setor cultural PROCULTURA, e que se juntaram na capital guineense para o evento “Redes Reais – Encontro Internacional Imersivo PALOP-TL”.
A semana foi de intercâmbio artístico, de criações artísticas feitas em conjunto, mas também de formação. A profissional da área da cultura, ilustradora de livros infantis e formada em História de Arte e em Comunicação Intercultural insiste na ideia de que “um artista também é um empreendedor criativo” e, portanto, é essencial haver um plano estruturado até para “evitar frustração”. Nesta entrevista, Valentina Zanelli fala do papel dos artistas enquanto criadores de realidades e agentes de transformação social, da cultura como “forma de resistência” e preservação da identidade em contextos desafiantes, e da necessidade de fortalecer redes culturais dentro do próprio continente africano. A especialista aborda ainda os desafios estruturais enfrentados pelos artistas africanos, desde a falta de financiamento à ausência de infraestruturas culturais, e constrói sobre a ideia de que muitos desses artistas continuam a olhar primeiro para a Europa, consequência de uma “colonização mental” herdada do passado colonial.
Tem trabalhado em vários países africanos. Como tem sido esse percurso de navegar pelos sistemas culturais de diferentes contextos?
Quando vou a um país para dar formação, para mim é fundamental conectar-me realmente com o ambiente local: conhecer os artistas, conhecer a forma de pensar, saber como funciona o sistema. No fundo, quero sempre descobrir talentos mas também compreender a forma como pensam e perceber como se organiza o sistema cultural naquele lugar. Vejo sempre a formação como algo que acontece nos dois sentidos. Na verdade, sinto muitas vezes que aprendo mais do que ensino. É uma imersão total num contexto e numa realidade diferentes.

Neste encontro em Bissau está a dar formação em Gestão Cultural. O que ensina concretamente aos participantes?
O objetivo é fornecer ferramentas concretas que eles possam começar a utilizar imediatamente nos seus próprios projetos. A gestão cultural é um trabalho muito complexo. Um dos conceitos que procuro transmitir é o de que o artista também é um empreendedor criativo. Ou seja, é alguém que cria arte, mas que também gere projetos e organiza processos.
Esta carreira tem peculiaridades muito específicas. És artista mas, ao mesmo tempo, és empreendedor. Não és um empresário capitalista, mas tens de ter ferramentas para estruturar o trabalho. A estruturação é importante para a durabilidade, para a sustentabilidade, para que o impacto que têm como artistas possa realmente continuar a crescer e expandir-se a outras pessoas que o queiram seguir. Os artistas, sobretudo nestes contextos africanos, tornam-se muitas vezes uma referência para a comunidade, por isso têm esta responsabilidade acrescida. Ou seja, a estruturação de um projeto para o crescimento beneficia não só a pessoa, mas toda a comunidade onde quer ter impacto.
“A cultura é o único meio de comunicação que transcende a política, a economia, os idiomas e as diferenças culturais. É o único meio que pode conectar tudo e todos. É algo que consegue ligar e juntar pessoas de contextos completamente diferentes.”
E que ferramentas concretas trabalhou com os artistas?
Saber definir objetivos e metas a curto, médio e longo prazo, saber o ciclo de planificação de um projeto, construir cronogramas, organizar o ciclo de um projeto cultural, elaborar orçamentos, fazer a comunicação e preparação de materiais para apresentar projetos a festivais ou a parceiros internacionais.
Foi basicamente racionalizar algo que muitos já fazem intuitivamente, mas é importante dar uma ordem. O objetivo é ajudar os artistas a organizar melhor o seu trabalho e evitar que haja frustração ou burnout, algo muito comum quando se tenta fazer tudo ao mesmo tempo sem uma estrutura.

Que preocupações ou perguntas surgiram mais frequentemente entre os participantes?
Houve muitas perguntas sobre o financiamento e sobre como sair do país para conhecer outras realidades, como circular internacionalmente. Isto porque os artistas estão sedentos de conhecer outros contextos, outras práticas artísticas, de descobrir mais, de aprender. Perguntaram muito também sobre como organizar uma digressão, como contactar festivais, como estruturar materiais de comunicação, como fazer networking e como planear a circulação artística.
De que forma é que a cultura pode beneficiar uma comunidade?
Vivemos num mundo onde a cultura é, muitas vezes, considerada a última prioridade, quando na verdade deveria ser a primeira. A cultura é o único meio de comunicação que transcende a política, a economia, os idiomas e as diferenças culturais. É o único meio que pode conectar tudo e todos. É algo que consegue ligar e juntar pessoas de contextos completamente diferentes.
Os artistas são criadores de realidades. Muitas vezes são sonhadores que saem da rotina do dia a dia e imaginam mundos melhores, dão uma visão de vida com outras possibilidades, de alternativas ao que está a acontecer, e isso acaba por ter um efeito positivo nas comunidades. Existe até uma expressão que gosto de usar: o “efeito borboleta”. Uma pequena ação cultural pode gerar impactos enormes na sociedade.

A cultura também é uma forma de expressar os desafios sociais e as dores de um grupo, de uma comunidade, de um país?
Sem dúvida. A cultura consegue conectar as pessoas de uma forma muito profunda. E é importante dizer isto: a cultura é sempre importante, mas em países com desafios sociais profundos, como a corrupção, a instabilidade política, o acesso à saúde e à educação ou outro tipo de desigualdades, ela torna-se ainda mais importante.
Porquê?
Porque, além de conectar as pessoas, a cultura assume um caráter de resistência. E essa resistência ajuda a manter a identidade. Quando uma comunidade tem uma identidade forte e bonita, cria-se uma forma de resiliência comunitária que, no limite, pode ter peso nas decisões políticas.
A vida em muitos países africanos é muito comunitária, muito mais do que em muitos contextos europeus ou ocidentais. A cultura é esse conhecimento. E com o conhecimento vem a capacidade de se defender, de saber o que está certo e o que está errado, de saber onde estão os seus direitos. Permite que as pessoas deixem de aceitar simplesmente aquilo que lhes é imposto e possam refletir de forma independente.
“Durante muito tempo transmitiu-se a ideia de que, para um artista ter reconhecimento, precisava de ir para a Europa, e era esse o sonho e o objetivo de todos. Mas isso está a mudar. Há cada vez mais consciência de que o continente africano tem um potencial enorme e que os artistas também podem criar redes fortes dentro de África.”
Tendo trabalhado em vários países europeus e africanos, nota diferenças no impacto da cultura?
O impacto da cultura é o mesmo em todo o mundo. A diferença é quanto espaço se deixa para que a cultura tenha esse impacto. Mas, hoje, felizmente vivemos num mundo hiperconectado onde todos podem ter acesso à cultura.
Nos países africanos a cultura parece estar mais presente no dia a dia.
Totalmente. Nos países ocidentais existe muitas vezes um filtro que nos faz ver a cultura como algo separado da vida quotidiana: algo que está num museu, ou num evento específico. Mas em muitos contextos africanos é diferente. A música é uma forma normal de expressão. A dança é uma forma normal de expressão. As expressões tradicionais fazem parte da vida diária. Estão no mercado, na escola, nas casas, em todos os momentos.

Ou seja, a forma de organização da vida circula com a cultura?
Sim, a cultura está em todas as casas e em todos os momentos do dia a dia. É um fenómeno muito natural. É diferente da forma como nós, europeus, muitas vezes racionalizamos a cultura.
Aqui as pessoas podem identificar-se como “portadores de cultura”. São pessoas que organizam a comunidade e assumem a responsabilidade de manter vivas tradições de dança, canto ou teatro. É como dizer: eu tenho este dom e não posso guardá-lo para mim. Tenho de devolvê-lo à comunidade, para que todos recordem de onde viemos, quem somos e como continuamos juntos.
Então a cultura também é poder?
É um poder enorme. Porque quando sabes quem és e de onde vens, sabes também para onde queres ir.
Quando se fala sobre a internacionalização ou sobre os mercados mais apetecíveis para o artista, existe uma tendência para se admirar mais a Europa do que África? Até nos próprios artistas africanos?
Sim, e em parte isso tem a ver com uma espécie de “colonização mental”, herdada do passado colonial, e que ainda persiste. Durante muito tempo transmitiu-se a ideia de que, para um artista ter reconhecimento, precisava de ir para a Europa, e era esse o sonho e o objetivo de todos. Mas isso está a mudar. Há cada vez mais consciência de que o continente africano tem um potencial enorme e que os artistas também podem criar redes fortes dentro de África. O que a colonização fez não foi apenas ocupar um território, foi também transmitir uma forma de pensar, que foi sendo passada ao longo destes anos.
“O impacto da cultura é o mesmo em todo o mundo. A diferença é quanto espaço se deixa para que a cultura tenha esse impacto.”
E o que é que está a mudar agora?
Agora existe um processo de retomar a identidade. É um processo às vezes conflituoso, quase como um adolescente que se está a revoltar, que passa pela frustração, pela confusão e pela raiva, mas é um processo necessário.
O continente africano tem uma quantidade infinita de talento, de oportunidades e de diversidade artística. E precisa de olhar para si mesmo, guardar o seu talento, estruturar-se e valorizar a sua própria identidade.

Sobre o que distingue o ocidente de África: o que pesa mais é a valorização dada à cultura ou a falta de apoio estrutural?
Não creio que exista uma grande diferença de valor entre como a cultura é organizada no Ocidente e em África. O problema é a falta de recursos e de reconhecimento. Faltam infraestruturas: teatros, salas, cinemas, espaços onde se possa criar cultura livremente. Falta apoio, faltam estruturas básicas de comunicação, faltam formas mais fáceis de se circular pelo continente. A responsabilidade dos governos deveria ser apoiar os artistas para que possam viver do seu trabalho.
Houve algum momento que a marcou particularmente durante este encontro?
Sim. Durante as apresentações dos participantes, cada um teve liberdade para se apresentar como quisesse. As mulheres artistas, em particular, impressionaram-me muito. Ser artista em África já é difícil, mas ser artista mulher pode ser ainda mais. Muitas abordam nos seus trabalhos temas de violência e de injustiça social. O facto de conseguirem denunciar essas realidades de forma tão aberta exige uma coragem enorme. É poderoso.
