Entrevista. Zeca Veloso: “Jesus é a coisa mais importante da minha vida”
Zeca Veloso lembra-se dos concertos do seu pai, Caetano Veloso, enquanto criança. De como este lhe cantava como canção de embalar “Feiticeira”, tema gravado pela sua tia Maria Bethânia, e recorda-se também quando lhe mostrou Bob Dylan pela primeira vez numa viagem a França. Cresceu com as referências dos clássicos da música brasileira, mas também com o soul vindo dos Estados Unidos e disco, como Prince, Marvin Gaye e Shuggie Otis.
O artista brasileiro afirmou em entrevista à Comunidade Cultura e Arte que o ímpeto da composição não surgiu cedo, mas recordou “Baby Love”, música composta parcialmente por si e gravada por Emanuelle Araújo e, claro, “Todo Homem”, esta sim, composta inteiramente por si, apresentada em “Ofertório”, o espectáculo que Caetano Veloso organizou com os seus filhos Moreno, Zeca e Tom. “Boas Novas” é o seu primeiro álbum, que apenas surgiu quando teria de surgir, ou quando pediu para surgir. Nele mostra as suas referências pessoais como o disco, por exemplo, tal como exemplifica “Máquina do Rio”, ou melodias com mais lentidão e com mais espaço, fazendo sempre recurso do seu característico falsete, mas também com uma forte presença da identidade musical brasileira através dos ritmos das marchas, como exemplo, como se vê em Salvador e na referência à Bahia, que canta com o seu pai e irmãos. O próprio tema “Boas Novas” tem como base o nascimento do seu sobrinho, filho de Tom Veloso. Este seu irmão enviou-lhe a composição da música e Zeca deu vida a esta versão final com o seu toque. Aliás, o videoclipe do tema é feito com gravações familiares que constavam no arquivo de Chema Prado, natural da Galiza e director da Cinemateca espanhola durante quase 30 anos.
Zeca Veloso actua pela primeira vez em Portugal em nome próprio, dia 30 de Maio, no Coala Festival, no Hipódromo Manuel Possolo en Cascais. Será o responsável pela abertura do cartaz, no mesmo dia em que Caetano também vai actuar, mas em concertos separados.
Como era a tua relação com a música enquanto criança e adolescente?
Quando era criança gostava muito de música. Penso que as primeiras coisas de que me lembro sobre música sejam, talvez, os shows [concertos] do meu pai [Caetano Veloso]. Naquele tempo, se não me engano, fazia um show voz e violão, pelo menos lembro-me dos momentos de voz e violão e também da música “Tigresa”. Gostava muito da música, da letra, a tigresa de unhas negras, mas também da melodia e harmonia. “Terra” também era uma música que me chamava muito à atenção e o meu pai também cantava para me botar para dormir uma música tradicional, se não me engano, chamada “Feiticeira”, que até a minha tia Bethânia gravou: “Um feiticeira com uma rosa tão formosa era minha bonequinha engraçadinha”.
Essas músicas foram muito marcantes na minha infância. O meu pai também me mostrou meio por acaso, quando era criança ainda, pré-adolescente, Bob Dylan. Estávamos em França, no meio de uma digressão dele, e já não me lembro se era um disco de colectâneas ou não, mas lembro-me que me mostrou as músicas “Mr Tambourine Man” e “It’s Alright, Ma”.
Levou-me também ao show do João Gilberto, que não entendi muito bem, porque estava muito baixo. Meu pai gostou muito. Depois, com 18 ou 19 anos, é que realmente descobri o João Gilberto e comecei a entender o tamanho e o valor dele. Tive também o momento em que descobri Tom Jobim, ou seja, entender o que era mesmo, porque às vezes a gente só ficava ouvindo e não parava para entender a música. Mesmo a “Garota de Ipanema”, que canto no show agora, é uma coisa que, há um ano e pouco, acharia muito óbvia e que passa de uma maneira batida. Aí, o meu professor de música e de piano, que se chama Ivan Fonseca, trouxe-me a “Garota de Ipanema” para estudar dizendo que é algo especial. Foi aí que me mostrou a melodia, a harmonia e o que é o génio de Tom Jobim.
“A ideia desse álbum [“Boas Novas”] não foi muito pensada. Segui um caminho que me foi dado. Creio que a inspiração e direcção vieram de Deus e, aí, foram aparecendo as músicas.”
Mas durante a adolescência já tinhas experiências com composição?
Não. Comecei a compor depois da vida adulta. Nunca tinha feito nenhuma música. Na casa dos vinte anos ouvia mais soul norte-americano, da Filadélfia, ouvia também Prince, Marvin Gaye e Shuggie Otis. Entrei nessa onda do disco. O disco vem do soul da Filadélfia. Ouvia MFSB, também, produções de Thom Bell, Gamble and Huff e assim. Fiquei pesquisando coisas como Four Tops e Delfonics. “Todo o Homem” vem desse período. É uma harmonia de soul para mim. Vem de uma coisa de soul, uma progressão de soul ali que era em tom maior, terminava num acorde maior. Peguei ela e botei num acorde menor, tocando assim daquele jeito mais marcado e lento. Fazia umas brincadeiras assim, umas partezinhas de música soul com umas letras mais diretas, meio românticas, meio de amor, meio leves. Fiz uma primeira música chamada “Baby Love” que é meio soul, partindo também daquela progressão que vai descendo ali nos acordes da tonalidade. Vem também bastante de Tim Maia, tem bastante a ver com Jorge Ben. Quem gravou foi a Emanuelle Araújo, cantora. Na verdade, fiz metade da música e fiquei com ela guardada. Depois fiz “Todo Homem”, a primeira música que fiz inteira. Estava com esse tema guardado e mostrei para a Manu e para o Kassin. que estavam produzindo o disco na época.
Sentiste que necessitavas do teu tempo para o teu primeiro álbum?
Acho que foi o tempo de Deus. Posso ter ido ali por um caminho ou por outro, mas penso que foi o tempo de Deus. Posso ter atrasado um pouco com o meu zelo e cuidado com a feitura do disco, mas foi o tempo de Deus.
Ainda és muito espiritual, ainda manténs essa relação com o cristianismo e com o lado mais espiritual? De alguma forma isso também está pautado no álbum.
Sim, com certeza. Jesus é a coisa mais importante da minha vida. Então, tudo isso que fiz foi por causa dele.
Vamos começar pelo título do novo álbum. “Boas Novas” é um título curioso. Pode invocar tanto a boa nova do Evangelho, a boa nova do nascimento, como boas novas de novas músicas. O que é que querias com este título? Porque, lá está, tem a relação com o lado mais espiritual, transcendental.
Não queria nada específico. Recebi esse nome de Deus, creio, como uma missão, como uma ordem. Esse é o nome do disco e é isso que você vai fazer.
Está relacionado também com o nascimento do teu sobrinho, certo?
Isso, também. Foi no ano de 2020, o ano em que ele nasceu, que essa música foi feita. O resto do disco foi-se estruturando em torno disso mesmo.

Segundo o que eu pesquisei, o teu irmão [Tom Veloso] enviou-te a composição da música. Essa versão era muito diferente da versão final que conhecemos?
Era um pouco diferente. Havia outro tom, um tom um tanto mais grave, e os finais das estrofes estavam invertidos. O que é o final da segunda estrofe era o final da primeira, o final da primeira era o final da segunda e o refrão era dobrado. Na verdade tinha uma repetição no meio do refrão e a melodia era um pouco mais longa no fim. Gosto muito da versão dele, era muito bonita. Não tinha letra, mas era muito bonita e ritmada. Tinha aquele ritmo que chamam de marcha caetaneada, das músicas como “Tempo de Estio” ou “Sina” do Djavan.
Achei engraçado que numa das músicas cantas isto: “Riqueza de reprodução/ Me entrego então ao bom inglês/ Ou nego mesmo o português/ Já Passou o império do francês/ Itália na tela real/ Canção na Rádio Nacional/ Eu Escrevo o meu refrão enfim / A dúvida dentro de mim/ Tupi-guarani, mandarim?”. Depois em outra música, “Carolina”, cantas justamente em inglês, numa mistura de português: “Carolina, veja que aqui também é bom”. Qual é a tua relação com a língua e o que querias dizer com estas duas canções?
“Nego mesmo o português”, tem duas coisas aí nessa dialética. Uma coisa é usar o Machado [de Assis] como o exemplo da grande obra brasileira e tido como o grande autor brasileiro de todos os tempos – o maior, talvez. Mas ele, no seu tempo, era chamado de imitação do estrangeiro. Um crítico literário chamado Silvio Romero criticou ele duramente no jornal, no final do século XIX. “Procuro em escala-tonal Bentinho, Braz e Rubião/ eram eles já o sinal/ riqueza de reprodução/ me entrego então ao bom inglês/ ou nego mesmo o português”. Aí é Policarpo Quaresma que, na verdade, quer ser tão, tão nacional, que quer negar mesmo o português e voltar a falar Tupi. É meio isso. “Carolina” tem essa mesma coisa: ele fala defendendo o Brasil, o Sul, e ela defende o Norte, quer ir para o Norte.
Este álbum acaba por ter uma aura familiar muito grande. O tema “Salvador” reflete isso com os teus irmãos e Caetano Veloso. O próprio videoclipe de “Boas Novas” também. Como surgiu a ideia para esse videoclipe?
Pensava em fazer um conteúdo da gente. O pessoal da família gravou o coro de “Boas Novas” – o meu irmão, Jasmine, que é a mãe do Benjamin, minha mãe também cantou, o meu pai, Moreno – e, depois disso, fiquei pensando em fazer um vídeo de imagens nossas. Comentei com o Tom e ele disse: “Mas acho que não seria muito legal fazer imagens do Benjamin.” Então falei, “poxa realmente, até tive a ideia errada porque achei que tinha sido uma grande iluminação.” Mas aí fiquei confiando naquela intuição, naquela inspiração divina, e fui vendo onde isso iria dar. Aí encontrei esse material feito por Chema Prado, um cara do cinema. Ele foi diretor da Cinemateca Espanhola, se não me engano, durante muitos anos [quase 30 anos], é um cara que tirou muita foto, fez muito filme caseiro. Era casado com a Marisa Paredes, então eles vinham muito ao Brasil com Pedro Almodóvar e visitavam os meus pais e fez esse material. Ele veio num Verão, filmava muita coisa, e mandou-me o bruto do material que ele gravou. Fiquei assistindo durante meses e fiquei editando.
Era importante para ti também trazer para este álbum a identidade musical brasileira? Há o samba, há justamente a referência a Salvador, também. Era importante trazer essa identidade em conjunto com as tuas próprias referências?
Era importante, mas como te disse, a ideia toda desse álbum não foi muito pensada. Segui um caminho que me foi dado. Não pensei, “quero que tenha isso e aquilo”, mas fui entendendo que essa era a inspiração, essa era a direção. Creio que isso vem de Deus e, aí, foram aparecendo as músicas.
