Eras modernas

por Martinho Lucas Pires,    30 Setembro, 2026
Eras modernas
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Faz vinte anos, este setembro, que entrei na universidade. Foi inevitável sentir-me nostálgico quando comecei as aulas, apesar de, agora que penso no assunto, ser algo que já me costumava acontecer, não só no início de qualquer ano letivo, mas também no seu fim. Já cantavam os Semisonic, no seu clássico de fechar a noite, que every new beginning comes from some other beginning’s end, e as histórias (que não são mais do que sentimentos) ficam à solta nas transições, juntamente com as imagens dos ciclos que se repetem. O verão, o final da tarde num parque de estacionamento – a noção do tempo que vai e vem, fechando-se e abrindo-se, mas nunca por completamente, nunca terminado.

Quando penso no meu “tempo” académico, vejo-me dentro do carro, um Volkswagen Lupo preto, já com sete anos em cima, uns milhares de quilómetros nas rodas, e um motor que quase rebentava ao aproximar-se do limite máximo de velocidade. Estou a conduzir, e é de dia, e de noite, e estou numa estrada e numa rua, fora e dentro da cidade, entre espaços. De casa para o norte, do norte para o sul, do sul para a universidade, da universidade para o mundo – ou não, não para o mundo, mas para a Europa. Trento, Roma, Berlim, Munique, Londres, e um punhado de outras cidades, algumas alemãs, outras holandesas, e tantas do leste, percorridas não de carro mas de comboio.

As paisagens pela janela. Vejo-me com a Montanha Mágica na mão, com vários filmes na cabeça, com a vertigem dessas imagens que me aparecem como sonhos (Zabriskie Point, uma sensação tão violenta quanto poética) a provocar-me. Escrevo canções no sofá de uma residência de estudantes, oiço o Merriweather Post Pavilion em cima de uma bicicleta que percorre a margem do Adige, e acelero, porque não quero chegar tarde ao concerto.

Que concerto, perguntam? Tantos, tantos mesmo – a lista não tem fim. Desde o Guillul com os Feromona no Grémio Lisbonense aos Feromona com os 400 golpes e os Smix Smox Smux no Espaço Centro de Desastres, passando pelos Pontos Negros no Lounge, pelo Guillul no Musicbox, e por tantos, tantos no Maxime. Sítios que já foram, que já partiram. Dos Beach House numa sala madrilena, dos Sonic Youth em Bolzano, da Laura Pausini no Coliseu de Roma, numa noite de fim-de-ano-barra ano-novo, e dos Velhos em todo o lado e mais algum.

Os Velhos: uma banda de quatro amigos que segui para muitos sítios, desde Évora até Santo Tirso. Uma banda que vi a dar show numa garagem no Chiado, e a mandar o sistema de som do Maxime a baixo. Uma banda que quase me tirou a audição – com o meu consentimento, diga-se – quando me deixou estar sentado com eles na sala de gravações do seu primeiro disco, sem-título, enquanto atiravam a potência do seu rock n’roll quatro por quatro para as paredes que o tentavam aguentar. Aguentaram, ai se aguentaram, porque “os prédios não podem cair, e as ruas não são invenções”. Estou a ouvir o EP deles, mais concretamente o hino que era a Era Moderna, em loop no carro, enquanto o sol na cidade me cai na tromba. Foram o disco que mais passou no carro, talvez a seguir ao segundo álbum dos Artic Monkeys. No quarto, era outra história, porque a conversa é outra, a conversa é outra. E o movimento dos sonhos, desejos, medos e violências também.

As imagens e as referências aparecem, algumas mais detalhadas do que outras. Mas sinto que o meu tempo universitário, por toda a riqueza que teve, não passou de um riff de power chords, com a corda de cima (o mi grave) solta, típica do meu estilo desajeitado e irrequieto, que preferia ir em frente do que ficar parado, e que não sabia bem o que era estar, e sobretudo, suportar-me. 

Os Velhos voltam a tocar este ano, na Musa de Marvila. Lá estarei, não por nostalgia nem saudade, mas para ver o gozo que a mansidão da idade consegue trazer a vida.

Sugestões do cronista:

2666 de Roberto Bolaño. Ontem, hoje, e para todo o sempre. Em discos: voltei ao Blue Album dos Weezer. Gostie do novo dos Mountain Goats, Days, e do novo dos Lambchop, Punching the Clown. Helado Tropical, um álbum bom, bom bom. E fico-me.

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