Escritor franco-argelino Boualem Sansal eleito membro da Academia Francesa
O escritor franco-argelino Boualem Sansal foi hoje eleito para ocupar uma cadeira da Academia Francesa, quase três meses depois de ter saído da prisão na Argélia, indicou a instituição nas redes sociais.
Sansal vai ocupar a terceira das 40 cadeiras da Academia Francesa e foi eleito à primeira volta, ao obter 25 votos em 26, sublinhou a instituição.
O romancista, de 81 anos – nasceu em 1949 na Argélia, na altura uma colónia francesa – passa assim a integrar os chamados “imortais”, designação atribuída aos académicos, que até hoje eram 35 (30 homens e cinco mulheres). Após a eleição de Sansal, ficam quatro lugares por preencher.
Tornado figura nacional francesa após um ano de encarceramento numa prisão argelina – foi libertado a 12 de novembro de 2025 -, Sansal ocupará a vaga deixada pelo historiador Jean-Denis Bredin, falecido em 2021. A eleição não constituiu surpresa, uma vez que Sansal era o mais conhecido dos seis candidatos.
“Todos os seus livros são um brilhante tributo à força e à riqueza da língua francesa, que utiliza com talento de narrador e de poeta, destacou a Academia Francesa.
Em 2015, a Academia atribuiu-lhe o Grande Prémio de Romance pela obra “2084: O Fim do Mundo”, um romance-fábula aterrador, inspirado em “1984”, de George Orwell, sobre o estabelecimento de uma ditadura religiosa de raiz muçulmana, publicado em Portugal pela Quetzal Editores em maio de 2016.
Além de “2084”, Sansal tem também publicado em Portugal, igualmente pela Quetzal Editores, em junho de 2025, o livro “Viver: A Contagem Decrescente”, que romanceia os últimos 780 dias da presença humana na Terra.
O académico Jean-Christophe Rufin tinha sugerido a integração na prestigiada instituição logo após a libertação, mas os restantes membros opuseram-se, uma vez que a eleição só pode ocorrer mediante candidatura formal, o que Sansal fez a 08 deste mês.
A vida deste antigo funcionário argelino sofreu uma reviravolta a 16 de novembro de 2024, quando foi detido à chegada a Argel proveniente de Paris e posteriormente encarcerado, situação que provocou comoção e indignação em França, onde foi lançada uma campanha de apoio a este crítico do Governo argelino.
Sansal foi condenado a cinco anos de prisão, acusado de “atentar contra a unidade nacional” argelina, na sequência de declarações proferidas em outubro de 2024 sobre a Argélia e Marrocos. Posteriormente, o Presidente argelino, Abdelmadjid Tebboune, concedeu-lhe um indulto, a pedido da Alemanha, por razões de saúde.
Autor de cerca de três dezenas de romances, entre os quais “Rua Darwin” e “Viver”, bem como de coletâneas de contos e ensaios desde 1999, Sansal foi distinguido em maio passado com o prémio Cino Del Duca, um dos mais bem dotados financeiramente (200 mil euros).
O júri – presidido pelo escritor e secretário perpétuo da Academia Francesa, Amin Maalouf – sublinhou que o franco-argelino é “uma voz essencial da literatura contemporânea”. “A sua obra reflete o compromisso inabalável com a nossa língua comum e os valores que ela encarna”, disse.
Fundada em 1635 pelo cardeal Richelieu, a missão da Academia Francesa, que elabora um dicionário – cuja primeira edição data de 1694 – e emite pareceres ortográficos, é “dar regras à língua e torná-la pura, eloquente e apta para o tratamento das artes e das ciências”, de acordo com a própria instituição.
Entre os membros, além de Maalouf e Rufin, figuram Dominique Fernández, vencedor do Prémio Goncourt em 1982 com “Na Mão do Anjo”, romance inspirado na vida de Pier Paolo Pasolini, escritor e cineasta italiano assassinado em Ostia em 1975, Erik Orsenna, Prémio Goncourt por “A Exposição Colonial”, e Chantal Thomas, autora de romances e numerosos ensaios, nomeadamente sobre Marquês de Sade, Giacomo Casanova e Maria Antonieta.
Em novembro passado, a Academia elegeu dois novos membros, os escritores Florian Zeller e Éric Neuhoff, que receberam o tradicional traje azul-escuro ou preto, com a característica casaca bordada com ramos de oliveira a verde e dourado, bem como uma espada, conforme a tradição em vigor desde 1801.
No momento da investidura, o novo académico recebe igualmente a medalha da Academia, com o lema “À Imortalidade”, e o seu nome gravado.

