Este mundo está excessivamente Huxley

por José Malta,    21 Outubro, 2018
Este mundo está excessivamente Huxley
Aldous Huxley / Fotografia de Cecil Beaton, 1936
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Há sensivelmente dois anos publicámos um texto denominado por “Este mundo está demasiado Huxley” que abordava e contextualizava a obra Admirável Mundo Novo (Brave New World) de Aldous Huxley nos dias de hoje, com ênfase nos acontecimentos do ano de 2016. Escrita em 1932, esta obra trata-se de uma distopia que retrata uma sociedade totalitária, dividida por castas e obcecada e dominada pelo progresso científico, impondo uma felicidade artificial aos seus cidadãos, sendo uma das mais aclamadas obras da literatura contemporânea e que continua a gerar debate de ideias entre os leitores de todo o mundo. Em 1958, Huxley fez questão de escrever um pequeno livro de ensaios bastante minuciosos e pertinentes sobre a sua maior obra, a que chamou Regresso ao Admirável Mundo Novo (Brave New World Revisited). Neste pequeno livro, Huxley faz uma abordagem geral no que aconteceu nos últimos anos através de reflexões profundas e com base em teses devidamente fundamentadas e defendidas pelos maiores filósofos e ensaístas, procurando mostrar que as profecias retratadas na sua obra começam a ficar assustadoramente cada vez mais evidentes e que se poderiam vir a verificar-se com maior intensidade nos anos seguintes. Num espaço de vinte e seis anos, o mundo saiu numa grave crise económica (depois de 1929), houve um aumento dos regimes políticos totalitários em certos países da Europa, ocorreu uma segunda grande guerra que fora muito mais longa com um número de vítimas e com um impacto muitíssimo maiores do que a primeira, e ainda duas bombas atómicas lançadas sobre o Japão que provaram o possível uso da ciência para um lado mais maligno, gerando até a hipótese da nossa auto-destruição. No final de tudo o mundo ficava divido em duas partes distintas, visto que a guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética se intensificava cada vez mais. Nesse regresso ao Admirável Mundo Novo, Huxley faz uma reflexão profunda sobre todos acontecimentos estes acontecimentos, nomeadamente em relação aos fenómenos políticos, económicos e sociais do mundo em geral: a explosão demográfica futura, a razão pela qual os regimes totalitários de leste perduravam ao contrário daqueles implementados em Itália e na Alemanha, os perigos que a ciência poderia vir a ter se não soubéssemos lidar com esta da melhor forma, e o mau uso da tecnologia nos anos vindouros.

Uma das obras que aparece sempre ligada ao Admirável Mundo Novo é o ilustre 1984, escrita anos mais tarde por George Orwell e publicado em 1949 num contexto diferente. Esta obra descreve uma sociedade dominada por um regime altamente totalitário que controla o país e os seus cidadãos, sendo uma crítica ao regime que imperava na União Soviética naquela época. Ao contrário do que se passa na obra de Huxley, de um modo sucinto, na distopia de Orwell as pessoas não têm contacto com a informação, ao contrário da distopia de Huxley onde a informação está toda ao dispor mas esta é altamente desprezada ou então as pessoas ficam-se pela primeira informação que lhes chega sem questionar qualquer facto ou até mesmo a sua veracidade. O mundo voltou a dar voltas e acontecimentos de grande impacto aconteceram. O ano 2016 foi um ano inspirador para se fazer um novo regresso à obra de Huxley: os acontecimentos do ponto de vista político, social, científico davam para uma extensa reflexão sobre as transformações do mundo. As transformações intensas estivaram à vista de (quase) todos, ganhando proporções que causaram sensibilidade no cidadão comum. Em apenas dois anos, muita coisa aconteceu no mundo e em tão pouco tempo parece que as profecias da distopia de Huxley tornam-se, assustadoramente, cada vez mais evidentes. Por muito que queiramos travar alguns dos acontecimentos parece que este é um comboio difícil de parar, ganhando cada vez mais velocidade em direcção a possível precipício que ainda é desconhecido, mas que pode muito bem ser um muito muito semelhante àquele retratado por Aldous Huxley na sua obra.

Em 2016 verificávamos que as profecias da explosão demográfica de Huxley na sua obra se tinham verificado, algo que não muda muito relativamente a 2018. No entanto podemos verificar algumas modificações e intensificações daquilo que se verificou em 2016, no ano 2018 em diversos níveis. Em 2016 verificávamos que havia um domínio massivo da internet e das redes sociais sobre os indivíduos, mantendo-nos constantemente agarrados aos dispositivos de um modo excessivo. Em 2018 rebentou o escândalo entre a maior rede social do mundo com uma empresa de análise de dados no que diz respeito à segurança das contas de milhões de utilizadores desta rede social, com o fim de influenciar a decisão final dos eleitores numa das mais importantes eleições de um dos mais influentes países do mundo (estamos a falar das Eleições nos Estados Unidos da América, curiosamente no ano de 2016), bem como também no âmbito do referendo que visava a saída do Reino Unido da União Europeia (também nesse mesmo ano). Em 2016 falávamos de uma simples aplicação de telemóvel fez com que meio mundo ficasse em histeria, de um lado para o outro, de olhos fixos nos ecrãs, indo procura de criaturas imaginárias para sítios que lhe fossem indicados. Em 2018, ou pelo menos entre 2016 e 2018, surgiram brincadeiras do mesmo género que foram tudo menos saudáveis: jogos que consistam em missões ordenadas por um pequeno grupo de pessoas e que se iniciou nas redes sociais (ao que tudo indica, na Rússia), colocou vários jovens num estado psiquíco nunca antes visto, deixando marcas profundas e vitimando mortalmente muitos que tiveram a infelicidade de participar neste jogo sádico cujo o último nível consistia mesmo no suicídio. Para além disso são cada vez mais as aplicações que utilizamos e que nos fornecem material cultural (música, por exemplo) e que, de um modo sub-reptício que pode vir a tornar-se descarado, pode influenciar as nossas escolhas musicais, em especial nos novatos que começaram a construir as suas bases culturais independentes. Em 2016 verificávamos que existia um controlo na comercialização de drogas, substâncias químicas sintetizadas com o propósito de ter o efeito semelhante ao da Soma, a droga que fornece a felicidade plena em Brave New World, que eram de fácil acesso ao contrário de drogas leves vulgares cuja comercialização será sempre vista como algo pouco ético. Em 2018 já se propôs em Portugal a utilização de uma dessas mesmas drogas para fins médicos, algo que também já fora implementado noutros países. No entanto, foram reconhecidas 15 licenciaturas em medicinas alternativas (terapias não-convencionais) cujos efeitos e viabilidade nunca foram cientificamente comprovados, sendo de momento quase equiparáveis à medicina convencional. A venda de medicamentos homeopáticos, medicamentos cujo fármaco está altamente diluído, é algo que continua a ser uma aposta num mundo que ainda não presenciou qualquer prova científica sobre os seus efeito, havendo a teoria de que quanto mais diluído estiver o fármaco, maior o seu efeito (basicamente estes medicamentos são só açúcar, se tomarmos uma caixa inteira o máximo que nos pode acontecer é ficarmos com uma enorme dor de barriga). Em 2016, nos Estados Unidos, um tipo sem qualquer tipo de experiência política, especialista na distorção da argumentação, perito em propaganda, ganhava umas eleições usando um slogan forte que fez com que muitas pessoas apenas seguissem e tendo dito em campanha frases de baixo nível que o deixaram ser alvo da chacota a nível mundial, continuando a sê-lo ainda hoje. Em 2018 estamos perante umas eleições no Brasil completamente dominadas pela distorção de argumentos, mergulhada profundamente nas fake news e também pela aversão ao debate por parte de um candidato, também ele com um slogan forte (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”), que acha que os problemas apenas “serão resolvidos apenas com uma guerra civil e não com o voto”, que insiste em usar permanentemente argumentos distorcidos na sua campanha e que muito provavelmente, à semelhança do que acontecera em 2016 nos Estados Unidos, será o próximo presidente deste país. Todas estas pequenas coisas tornam-se num turbilhão gigantesco que nos leva a crer que este mundo, que em 2016 estava demasiado Huxley, em 2018 está excessivamente Huxley.

Por fim, em 1958, Aldous Huxley terminava o seu regresso ao Admirável Mundo Novo deixando um aviso: “resta-nos ainda alguma liberdade”, “É verdade que muitos não parecem valorizá-la”. Estas são palavras que, à medida que os tempos correm, são cada vez mais fáceis de serem interpretadas. Passados mais de 80 anos depois de Aldous Huxley ter entrado no Admirável Mundo Novo e 60 anos depois do seu regresso, acabamos sempre ano após ano regressar com maior frequência a este mundo que em 1932 poderia ser um pouco irrisório mas que em 2018 parece bem real. Esta é e sempre será uma obra cuja leitura é indispensável nos tempos que correm  realidade de um futuro, que apesar de ser incerto, parece cada vez menos promissor. A Tempestade, a peça de William Shakespeare que deu o título a esta obra com a frase  “O brave new world, That has such people in’t!”, intensifica-se cada vez mais e parece que irá perdurar. Essa tempestade começa a ganhar proporções que nos deixam sem guarda-chuva, sem gabardine e até mesmo sem um abrigo onde nos possamos esconder de um mundo que, mais do que admiravelmente novo, se vai tornando admiravelmente tenebroso.

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