Este tempo é este tempo
Não sou uma pessoa nostálgica. Bem sei que pode parecer contraditório para quem acabou de sair de uma pequena digressão com os Silence 4, a minha banda quase adolescente, mas não tenho essa relação com a memória do tempo. Não me lembro qual foi a última vez que olhei para trás a reviver as situações com o véu da saudade, muito menos a fabular sobre o passado e a exultá-lo de forma exacerbada como geralmente se faz. A memória é normalmente traiçoeira a nosso favor e dos nossos feitos, sempre a reinventar a realidade e a curvar-se perante as circunstâncias do momento presente. Parece-nos extremamente fidedigna e confiável, mas não é. No outro dia ouvi alguém dizer que tinha adorado estar num concerto de um artista que tocou sozinho em palco, só para ser confrontado com imagens do YouTube dessa mesma actuação onde aparecia uma enorme banda de suporte. O que acontece nas nossas cabeças para colarem as peças do puzzle da memória de forma tão irregular? Fascinam-me estes mistérios abstractos das nossas mentes.
Ao ouvir uma série de cassetes áudio que encontrei numa gaveta com gravações da minha adolescência, fui confrontado com essas memórias. Muitas delas tiveram de ser reajustadas, cantava coisas com letras que não sabia ter escrito, falava de forma diferente e tocava guitarra bem pior do que me lembrava. Aqueles sons teleportaram-me para o meu quarto adolescente na casa dos meus pais, sítio onde passava muitas horas de cada dia a inventar coisas para fazer. Esse quarto ainda existe e entrei nele recentemente, mas não teve o mesmo efeito de me fazer recuar no tempo como estas cassetes tiveram. À medida que ia ouvindo, apercebi-me que aquelas memórias não tinham grande efeito sobre mim. Não as recolhi com especial ânimo ou espanto, não mergulhei nesse mar de nostalgia que é a juventude, muito menos soltei aquela frase que tantas vezes ouvi de outros e que sempre me fez tanta confusão, “Ah, naquele tempo é que era”. Aquele tempo era aquele tempo, este tempo é este tempo e está bem assim. Correr atrás do tempo, para trás ou para a frente, é um exercício possível mas pouco útil. No entanto, houve algo que ficou.
Sem esperar que tal acontecesse, consegui recordar exatamente a sensação de urgência e novidade que aquelas gravações continham. A cada canção manhosa que aquelas cassetes reproduziam, eu conseguia ouvir a emoção da descoberta, a desbravar um caminho que não conhecia muito bem e que não sabia bem onde ia acabar. Uma chama interior, sem ferver e sem nunca apagar, digna de um doce diminutivo: uma chama quentinha.
Essa sensação não surgiu como um fenómeno de nostalgia, mas de um lugar de reconhecimento, como se eu conseguisse ver-me a esta distância temporal toda naquele lugar, agora estranho e longínquo. Afinal, era possível trazer alguma coisa intacta durante este tempo todo, um entusiasmo que nunca se desligou, da vida, do mundo, das pessoas, de tudo aquilo que ainda desconhecia. Contra um mundo cínico de constante derrota de sonhos juvenis, a chama continua acesa. Se para outros é essa a sensação da nostalgia, entendo porque é tão poderosa. Para mim, é uma coisa pequenina que se carrega e protege de um mundo que a quer apagar. A chama quentinha.
