Father John Misty no Campo Pequeno: um pacato e sentido espectáculo
Josh Tillman é um homem de muitas facetas: baterista, cantautor com aguçada poesia, dançarino. Esta última foi comprovada por todos aqueles que estiveram presentes na última passagem por Lisboa do homem que assina como Father John Misty. Acorreram ao Campo Pequeno todos os devotos do músico norte-americano para uma noite descontraída e bem disposta, ao som da discografia singular deste artista.
A abertura do espectáculo ficou a cargo de J.MYSTERY. O músico português fez-se acompanhar de uma competente banda com baixo, guitarra, bateria e teclas. Foi um curto concerto em que mostrou a sua música espiritual, alicerçada entre a pop, o folk e o rock, com baladas e momentos mais contidos e instrumentais a rasgar. Há qualquer coisa de espiritual na sua música, e a entrega vocal lembra por vezes Benjamin Clementine, dada a sua teatralidade. A curta actuação ficou marcada por temas como “Reverie” ou “Change” e abriu o apetite para o que vinha a seguir.
Não foi preciso esperar muito tempo. Tillman e a sua trupe subiram a palco pouco tempo depois, recebidos por uma plateia e bancadas que, embora não enchessem a sala, faziam-se ouvir. Abriram energeticamente o espectáculo com “I Guess Time Just Makes Fools of Us All”e um aviso feito por Tillman antes do instrumental final: “Esta é a última oportunidade para dançarem esta noite, desculpem”. Foi uma mentira inocente, o próprio autor aproveitou vários momentos da noite para dar um pezinho de dança. Há que perdoar “Mr. Tillman”, pois os seus dotes de dançarino não são nada de se deitar fora.
O recente e místico Mahashmashana foi o álbum mais representado durante o espectáculo pela mão de temas como “Mental Health”, “Josh Tillman and the Accidental Dose” ou “Screamland”, esta última com direito a um portentoso espectáculo de luzes. Mas Father John Misty não esqueceu o seu engenhoso trabalho anterior e os fãs também não: canções como “Nancy From Now On” ou “Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)” foram fortemente aplaudidas pela multidão e em “I’m Writing a Novel” a boa disposição e a ginga da música não deixaram ninguém indiferente. É um ténue equilíbrio o jogo de construir uma setlist, e apesar de o dardejante Pure Comedy não ter sido representado durante a actuação, Tillman conseguiu um malabarismo sonoro eficaz entre passado e presente.
O futuro também não foi esquecido. “The Old Law” – um dos seus mais recentes singles – soou com muita energia pela mão das suas guitarras rasgadas e melodias sólidas. Para terminar “I Love You, Honeybear” fez a delícia de todos os presentes, concluída por uma ovação da plateia e grande parte da bancada a aplaudir de pé. Depois da banda sair, foi incitada a voltar através de uma avalanche de assobios e silvos, que teve o seu apogeu no regresso da banda a palco. Depois de “Holy Shit”, “She Cleans Up” foi interpretada com grande pujança, a partir a loiça toda, mas o destaque do encore foi “Mahashmashana”, apoteótica e libertadora, entoada com todo o fulgor e como se fosse a primeira música da actuação.
A passagem de Father John Misty pela capital portuguesa foi pacata. A afluência não foi a mesma de outras passagens por Portugal, talvez porque o artista é hoje menos relevante do que era no passado. Mas isso não impacta a sua música, e nunca é um mau plano ver um dos grandes cantautores modernos a mostrar o seu trabalho.
Setlist:
I Guess Time Just Makes Fools of Us All
Mr. Tillman
Nancy From Now On
Being You
Goodbye Mr. Blue
When You’re Smiling and Astride Me
Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)
Mental Health
Josh Tillman and the Accidental Dose
Screamland
God’s Favorite Customer
The Old Law
I’m Writing a Novel
Real Love Baby
I Love You, Honeybear
Encore:
Holy Shit
She Cleans Up
Mahashmashana
