Férias: finalmente vamos desligar
Que bom, vão começar as férias. Vamos poder relaxar, passear, descansar e usufruir de um direito há muito conquistado, há tanto que nem nos lembramos muito bem como começou. Aliás, pode ser que nestas férias muita gente se questione porque começou e o procure. As férias também deviam servir para isso: dar asas à liberdade de pensamento, deixar que a mente percorra caminhos que, no meio da azáfama do dia a dia, por norma, estão vedados.
Era bom que assim fosse, mas há já algum tempo que as férias deixaram de ser um momento de pausa, de quebra e substituição de um ritmo por outro. Na verdade, hoje, é tudo um pouco parecido, sabendo tudo ao mesmo — caso para dizer que vira o disco e toca o mesmo. Existem férias, formalmente falando, mas é possível dizer que se tratam de momentos radicalmente distintos da normalidade dos outros dias? Tenho sérias dúvidas.
É impossível desligar. De tudo e de nada. De tudo, do trabalho, das associações, dos partidos, da constante produtividade, das mensagens a bombardear os grupos. De nada, dos scrolls infinitos, da sensação impávida de ser-se espectador, da náusea sartreana. Há um trabalho constante e contínuo a ser feito, seja por necessidade, seja por mero FOMO, como escreveu a Sara Rathenau neste mesmo Órgão de Comunicação Social, naquilo que considero ser a mais bela união de tudo e de nada. É por isso que não há uma substituição de ritmo, é por isso que já não se muda o metrónomo. Há apenas um mero reajuste de horários, foco e atenção. O trabalho, esse, continua impávido.
Bem sabemos que as férias são desiguais. Já nem falo sequer do óbvio que é alguns poderem passar duas semanas no Algarve ou outros que podem passar a comprar mais dias, mas de quem tem a disponibilidade mental para as usufruir. Quem pode, verdadeiramente, gozar das suas férias? O caso mais óbvio é o dos trabalhadores independentes, cuja liberdade para escolher férias é total, mas sempre com o bichinho na cabeça “devia ter aceite aquele projecto ao invés de estar aqui a passear”. Mas não temos todos, cada um à sua maneira, em maior ou menor grau, esse mesmo bichinho? Não estamos, cada um no seu lugar, constantemente a sentir a necessidade de ter de nos manter à tona? É um novo mestrado para ter mais alguma competência, é uma nova associação para ter mais uma linha no currículo, é uma nova relação para sentirmos alguma vida.
Parece-me que, como a fragilidade das redes e relações humanas é cada vez maior, como diz Zygmunt Bauman, precisamos de intensificar ao máximo o contacto para compensar. É talvez essa a principal razão pela qual nos colocamos em mais associações, partidos, mestrados, grupos, organizações, relações. É por isso que os grupos são constantemente bombardeados com tudo e nada. É por isso que somos impedidos de desligar. As relações são tão finas, tão ténues, tão frágeis, que acreditamos que uma mudança de ritmo é o suficiente para as esbater. E talvez tenhamos razão nessa crença.
A facilidade da comunicação, assim como da pertença, não só permitiu a sua banalização, como será o seu próprio fim. Estamos todos a pedir que se pare, ao mesmo tempo que continuamos e agravamos o problema. Estamos todos a pedir férias e ao mesmo tempo a continuar como se nada fosse. Não é isto absurdo? Independentemente de o ser, a única questão filosófica relevante é: tudo isto para quê? Não ficará o mundo na exacta mesma posição? E eu com tanto Camus para ler.

