Festival 5L regressa em maio com Geoff Dyer, Gonçalo M. Tavares, Valério Romão e os filmes de Éric Rohmer, Lucrecia Martel e Luchino Visconti
O festival Lisboa 5L regressa a Lisboa entre 05 e 10 de maio, com destaque para a presença do escritor Geoff Dyer, uma homenagem a António Lobo Antunes e concertos de Samuel Úria, Milhanas e Hot Clube de Portugal.
Subordinada ao tema “Casa”, a edição deste ano do Lisboa 5L – Festival Internacional de Literatura e Língua Portuguesa tem curadoria de Pedro Mexia e vai decorrer na Biblioteca Palácio Galveias, reunindo ao longo de cinco dias conversas, concertos, cinema, artes visuais e atividades para diferentes públicos, anunciou hoje a Câmara Municipal de Lisboa, promotora do evento, durante uma apresentação pública.
A abertura do festival coincide com o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a 05 de maio, e inclui iniciativas como o concurso “Contos do Dia Mundial da Língua Portuguesa”, promovido pelo Camões Instituto e pelo Plano Nacional de Leitura (PNL), além da atribuição do Prémio Revelação Literária da UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa.
No programa literário, além da participação do autor britânico Geoff Dyer, distinguido com o Prémio Somerset Maugham e autor de obras como “Areias brancas”, “Os últimos dias de Roger Federer e outros finais” e “Trabalho de casa” (todos da Quetzal), a organização destaca uma homenagem ao escritor António Lobo Antunes, que morreu em março deste ano.
Serão duas sessões de homenagem, no primeiro e no último dia do festival, que retomam “a adaptação que Rui Cardoso Martins fez de textos de António Lobo Antunes para serem interpretados por Maria Rueff”, e haverá depois “uma conversa entre Rui e Maria sobre como é que foi a experiência de trabalhar com Lobo Antunes”, explicou Pedro Mexia aos jornalistas, à margem da apresentação.
Estão ainda previstos debates sobre língua, literatura, tradução e cultura, bem como uma residência literária Lisboa-Maputo, reunindo autores dos dois países, e encontros com escritores como Gonçalo M. Tavares, Miguel Manso, Luís Quintais, Carlos Vaz Marques e Francisco José Viegas.
A conversa com Gonçalo M. Tavares versará sobre a ideia de casa “que pode estar em muitos lados” e não “apenas no nosso retângulo”, afirmou Pedro Mexia, exemplificando com o mais recente romance do autor, “O fim dos Estados Unidos da América”, que não é só sobre esse país, “é sobre o nosso tempo”.
“Digamos que [Gonçalo M. Tavares] não é uma pessoa que se atenha especificamente à realidade portuguesa, na maioria dos casos tem escrito muito sobre cidades, sobre países, sobre uma certa ideia da Europa e do Ocidente, e este livro também é interessante por causa disso, porque através dos Estados Unidos ele discute pandemias, radicalismos, polarizações, pós-verdade”.
Já os escritores Valério Romão, “que publicou recentemente um romance delirante sobre vários aspetos de Lisboa, nomeadamente os impactos do turismo”, e Bruno Vieira Amaral, “que se notabilizou por ter uma visão sobre tudo o que está à volta de Lisboa”, vão participar numa mesa sobre “Lisboa vista de fora e de dentro”, debruçando-se sobre as múltiplas representações literárias da cidade, explicou o curador.
Estão programadas também uma mesa sobre tradução, com os tradutores e escritores Ana Cláudia Santos e Daniel Jonas, e outra sobre “o regresso a casa”, com Dulce Maria Cardoso, que escreveu sobre “os portugueses que viviam em África e que tiveram de voltar em condições precárias, e Luísa Costa Gomes, que “tem escrito muito sobre casas, nomeadamente sobre casas assustadoras e mudanças de casa”.
As coleções de viagens também vão estar no centro de uma conversa com Francisco José Viegas, sobre a coleção da Quetzal, e Carlos Vaz Marques, sobre a da Tinta-da-China, bem como a poesia, que terá uma mesa intitulada “A poesia na cave”, com os poetas Luis Quintais e Miguel Manso, “que têm a particularidade de viver fora de Lisboa”.
Pedro Mexia fez questão de destacar em particular uma mesa em que participam “duas pessoas com história na história da edição” – Zeferino Coelho e Maria da Piedade Ferreira – que conversarão sobre a relação dos editores com o livro, que já não é igual ao que era, como foi editar em Portugal ao longo das décadas e o que mudou.
Ao todo, serão cerca de 20 os autores que ao longo de três dias participam em encontros e conversas, com a predominância de escritores e artistas portugueses.
No campo das artes visuais, está prevista a apresentação de uma nova obra de Bárbara Assis Pacheco, “Comer livros”, e uma ilustração ao vivo por Carolina Celas.
No que ao cinema diz respeito, a programação contempla a exibição dos filmes “O Joelho de Claire” (“Le genou de Claire”), do cineasta francês Éric Rohmer, “O pântano” (“La Ciénaga”), da realizadora argentina Lucrecia Martel, e “Violência e paixão” (“Gruppo di famiglia in un interno”), do italiano Luchino Visconti, no cinema Nimas.
O critério da escolha dos filmes teve por base a presença da casa, embora “de formas muito diferentes”, revelou Pedro Mexia.
Em “Violência e Paixão”, há uma velha casa que é ocupada por um grupo mais jovem e cria-se uma relação entre um homem mais velho, erudito, com a nova geração.
No filme do Eric Rohmer, é mais do que a casa”, é uma casa à beira de um lago, e é todo aquele espaço da casa, das férias e do lago, que vai criar um clima lúdico entre as personagens”.
E no terceiro filme, “O pântano”, as pessoas estão numa casa de férias, numa casa de verão, em que todas as conversas parecem banais e todas as conversas têm a ver com assuntos muito prementes sobre a sociedade da Argentina, sobre as tensões sociais, sobre o passado, a memória da ditadura argentina.
As três sessões decorrerão em três dias e serão acompanhadas por apresentações e debates.
Entre os dias 08 e 10 de maio, o jardim da Biblioteca Palácio Galveias acolhe três concertos, com atuações de Samuel Úria, Milhanas e do Hot Clube de Portugal, com o projeto “Jagoda Sings and Swings!”.
O festival inclui também um programa dedicado às escolas, famílias e público mais jovem, com sessões de narração de histórias por António Fontinha, Bruno Batista e Bru Junça, esta última acompanhada pelo músico Tó-Zé Bexiga.
Ao longo da semana, realizam-se as Jornadas Profissionais, centradas na reflexão sobre o papel das bibliotecas públicas, com um dia dedicado aos trabalhadores e utilizadores de bibliotecas.
Ainda entre 08 e 10 de maio, o jardim da Biblioteca Palácio Galveias vai acolher a Feira do Livro 5L, com a participação de dez livrarias da cidade de Lisboa.
Durante a apresentação do programa, o presidente da autarquia, Carlos Moedas, reiterou “a vocação de acolhimento, do encontro que celebra os cinco eixos que definem a nossa identidade cultural: a língua, a literatura, os livros, as livrarias e a leitura, não como fronteiras, mas como pontes”.
“Promover Lisboa através da leitura é convidar o mundo a descobrir que cada esquina tem uma história e que cada livraria, da mais histórica à mais alternativa, é um porto de abrigo para o pensamento crítico”, considerou.
O festival é uma iniciativa municipal levado a cabo pelas Bibliotecas de Lisboa em torno da Língua e da Literatura, “em estreito diálogo com os curadores que se lhe associaram, desde logo José Pinho, Catarina Magro e Carlos Vaz Marques”.
O evento é organizado em colaboração com o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, o Plano Nacional de Leitura, a UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, o Cinema Nimas e o Inatel.
Criado em 2020, o Lisboa 5L teve a primeira edição presencial em 2021 e tem vindo a realizar-se em diferentes zonas da cidade.
