Festival de Cinema de Cannes 2026: os melhores filmes

por José Paiva Capucho,    26 Maio, 2026
Festival de Cinema de Cannes 2026: os melhores filmes
“All of a Sudden”, Ryusuke Hamaguchi

Durante os dias que passamos na 79.ª edição do Festival de Cannes vimos, ao todo, 17 filmes. O que para muitos pode ser uma loucura, para nós foi prazer – ainda que em regime laboral, sempre. O que fica dos filmes que levamos connosco e que, em princípio, muitos de vocês poderão ver assim que a estreia comercial estiver assegurada em Portugal é que o cinema está bom e que se recomenda. Pese embora os problemas nas salas, a guerra com o streaming e o fim do mundo aí à espreita. Eis seis sugestões para guardar e ir estando atento ao longo do ano.

“Fjord”, Cristian Mungiu

O realizador sul-coreano Park Chan-wook, presidente do júri de Cannes deste ano, disse, na conferência de imprensa inaugural, que não há mal nenhum que a política e a arte convivam. “Um filme político não poderá ser inimigo da arte”, afirmou. Estava dado o mote para que “Fjord” fosse a obra que acabou a vencer a Palma de Ouro desta edição do festival de Cannes. O realizador romeno é o décimo a fazer a dobradinha, depois de em 2007 ter vencido a estatueta com “4 Meses, 3 semanas, 2 dias”. O filme, que conta com pesos pesados como o romeno-americano Sebastian Stan e a norueguesa na berra Renate Reinsve, vai até à Noruega seguir os primeiros passos de uma família evangélica conservadora numa terriola colada a um Fjord. Metade norugueses, metade romenos, esta família vai romper com o progressismo nórdico assim que um alegado caso de abuso físico irrompe pelo lar e por toda a escola onde estão os seus filhos.

A Noruega não brinca em serviço e, assim que as suspeitas surgem, os miúdos são retirados da família, abre-se uma investigação e os serviços sociais actuam. A partir daí, seguimos o espremer doloroso de um processo onde ninguém se sente bem mas em que todos têm de participar. Um filme que se insere numa era pós-wokismo, pisando a fina linha entre parecer que está do lado conservador e religioso e dizer-nos que esta Europa não é assim tão amiga da diferença, ou seja, dos emigrantes. É, por isso, o mais atual dos filmes que vimos em Cannes e também o mais cirúrgico, porque acerta no diagnóstico destes tempos divisivos e hipócritas, onde o espaço para a dúvida  e o debate são substituídos pela violência da palavra. Pela vontade de aniquilar o outro. “Fjord” acerta, deixa-nos confusos e pergunta, sem uma ponta de moralismo: e se fosse consigo? Touché.

“El Ser Querido”, Rodrigo Sorogoyen

Vamos já partir a loiça toda e afirmar: “Sentimental Value” ao pé de “El Ser Querido”, é uma brincadeira estética sem conteúdo algum. O novo filme de Rodrigo Sorogoyen, autor de “As Bestas” (2022), vinha com selo de qualidade para a competição oficial, tanto na realização, como no casting, já que Javier Bardem, o espanhol de Hollywood que anda a desconstruir a masculinidade tóxica ao vivo e a cores, conduzia esta história de um realizador, pai ausente, que decide incluir a filha numa grande produção. Agora já percebeu a comparação com “Sentimental Value”, certo? A diferença é que a substância narrativa de “El Ser Querido” não se refugia na tal ideia de destruir, aos poucos, o lar doce lar. No filme espanhol – que fez parte de uma inédita tríade cinéfila deste país na competição oficial – começamos logo com quase vinte minutos da melhor cena, contra cena, que vamos ver este ano.

As marcas de uma parentalidade falhada, as omissões, os segredos, aquilo que se quis dizer durante tanto tempo e não foi possível. Essas feridas em carne viva entre pai e filha vão deliciar-nos e esmurrar-nos ao mesmo tempo. Porque para além de toda a cena meta de estarmos dentro de uma rodagem a sério de um filme, somos desafiados a ser observadores passivos desta relação tóxica, como se fossemos operadores de câmara, diretores de fotografia ou assistentes de produção. O filme acabou por sair sem prémio algum, mas Javier Bardem, mais uma vez, transforma-se, e logo num papel tão próximo para qualquer um dos comuns dos mortais. É de uma violência a fazer lembrar “ No Country For Old Men” (2007). Cheira a Óscar ou, pelo menos, a nomeação.

“All of a Sudden”, Ryusuke Hamaguchi

Num mundo cada vez menos empático, é extraordinário ver que, na Ásia, haja quem tenha a capacidade criativa para explorar a possibilidade de ainda ser possível sermos espectadores de um mundo melhor. Só podia vir pelas mãos de Ryusuke Hamaguchi, o realizador nipónico que nos deu “Drive My Car” (2021) e “Happy Hour” (2015), mestre em contar histórias que são verdadeiras jornadas emotivas.

Nesta odisseia de mais de três horas, sobre a íntima amizade entre uma diretora de um lar em França, e uma encenadora de teatro japonesa, não há lugar para ódio. Parece que estamos num universo distópico. Sobretudo porque já ninguém acredita que não podemos ter relações saudáveis sem andarmos aos berros. Aqui, é para descobrir esta história com olhos de criança, onde a velhice, o Alzheimer, o que o capitalismo faz aos sistemas de saúde e ao núcleo familiar, são usados brilhantemente para criar o mais forte statement político em Cannes. Mas nunca com respostas absolutas. Refletimos com estas duas mulheres, uma em fim de vida, outra com a corda ao pescoço no trabalho, conhecemo-las como quem conhece alguém pela primeira vez, apenas pelo acaso e pela curiosidade. Uma lição de vida num filme. Um épico do mundo real. Direitos de distribuição em Portugal foram assegurados pela Leopardo Filmes. Ou seja, o filme deve ir parar primeiro ao Leffest de Paulo Branco, ainda este ano.

“Club Kid”, Jordan Firstman

Assim que entramos na sala Debussy, para a estreia de uma das compras mais caras (A24 deu 17 milhões de dólares por este filme) do Marché du Film, a parte de indústria de Cannes, percebemos que “Club Kid”, estreado na secção Un Certain Regard, ia ser um favorito instantâneo. O actor tornado em realizador norte-americano indie – que também aparece em séries do momento como “I Love LA” (HBO Max) – caiu com estrondo na Croisette. Confessamos que, por todo este élan criado à volta desta figura, estávamos reticentes em relação a “Club Kid”.

“Club Kid”, Jordan Firstman

O espectáculo mediático podia esconder as fragilidades de um tipo de cinema indie norte-americano que se preocupa mais em promover-se, do que em criar filmes que fiquem para a história. O universo queer da noite nova iorquina, sempre em altas, sempre altamente drogada, sofre um revés, depois do seu protagonista, interpretado por Jordan Firstman, descobrir que vai ser pai. Um homem gay, todo perdido, sem amor próprio, descobre a sua redenção ao lado de uma criança, cuja mãe morreu precocemente. A delicadeza com que Firstman aborda esta história, surpreende. E há, por vezes, uma sensação de estarmos perante aquilo que o realizador também quereria para a sua vida. Será?  É provável que o filme venha parar a Portugal.

“Fatherland”, Pawel Pawlikowski

Os primeiros dias desta edição de Cannes foram mornos. Estava tudo à espera de um filme como “Sirat”, de Oliver Saxe, que, em 2025, tirou o tapete a toda a gente. Calha que “Fatherland” não é nada disso, felizmente, e insere-se na carreira de um realizador polaco que prova, a uma grande velocidade, que é dos que melhor realiza na Europa. Como lido algures na crítica internacional, Pawel Pawlikowsi, autor de “Ida” (2013, vencedor de Óscar para Melhor Filme Estrangeiro) e “Cold War” (2018, Prémio de Melhor Realização em Cannes), tem uma suprema autoridade em cada plano. Mas nós preferimos escolher outra palavra: sobriedade.

Nesta história gélida de uma família desfeita, onde o prémio nobel da literatura Thomas Mann faz um périplo na Alemanha dividida da Guerra Fria, entre o domínio dos Estados Unidos da América e da União Soviética, ao lado da filha. A mãe ficou em casa e há, pelo meio, um irmão em muito maus lençóis. Foi um dos mais curtos filmes a passar por Cannes de sempre e acabou com o realizador a ganhar, outra vez, o Prémio de Melhor Realização. Bem captado esse sentimento de impotência, de incapacidade de expressão perante o ente querido mais próximo, de partilha de dor. E a maravilha do último plano, onde um pai se parte finalmente em pedaços, vai ficar na nossa memória durante muito tempo.

“Lúcido”, Vier

Não colocamos este filme português aqui por ser português. É que Vier e a Cola Animation merecem este destaque por  mérito próprio. Vieram até à Croisette para mostrar que a animação nacional não tem só um caminho e uma estratégia, entrando na competição Immersive. Quando olhamos, e colocamos os óculos de Realidade Virtual, para “Lúcido”, sabíamos que iamos entrar naquela ideia de um sonho, lá está, muito lúcido. Mas não fazíamos ideia de que poderíamos ter tanto tempo, ainda que a experiência seja para ser vivida “em apenas” cerca de 25 minutos, para brincar.

A melhor parte é que reconhecemos traços e identidade de uma das mais prodigiosas produtoras de animação em Portugal e do mundo. Basta lembrar que, pela mão do grande Bruno Caetano – e desta vez ao lado de Susana António, da Anã Azul – esta produtora já chegou aos Óscares, com “Ice Merchants”, de João Gonzalez, em 2024.  Numa sala anexa ao hotel Carlton, um dos mais conhecidos de Cannes, a Comunidade Cultura e Arte foi metida num cenário digno da série “Severance”. E, apesar dos percalços iniciais, mais culpa do utilizador do que do filme, ficamos com vontade de que mais portugueses possam meter-se em “Lúcido”. O cinema tem muitas realidades e quão mais longe do algoritmo, melhor. Mas a tecnologia não precisa de ser sempre a ovelha negra. Que o diga Vier e a sua equipa.

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