Festival MED: à descoberta do mundo no centro histórico de Loulé

por Ricardo Farinha,    27 Junho, 2026
Festival MED: à descoberta do mundo no centro histórico de Loulé
Lala Tamar / Fotografia de Rui André Soares – CCA
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Há mais de duas décadas que é assim: todos os anos, as ruelas e largos do centro histórico de Loulé tornam-se uma montra para a diversidade cultural do planeta. Artistas de todos os cantos do mundo, com abordagens mais tradicionais ou contemporâneas, naturais ou urbanas, convencionais ou inventivas, mostram a sua música (e cultura) a um vasto público que tem vindo a crescer e a ser formado ao longo dos anos. Hoje, num momento de estabilidade e consolidação, o Festival MED tem uma identidade firmada e uma audiência com a pré-disposição certa para embarcar numa viagem de descoberta, para se deixar levar pelos sons de outras latitudes e longitudes.

O primeiro dia da edição de 2026, a mais internacional de sempre — quinta-feira, 25 de junho — arrancou com um exemplo perfeito daquilo que o MED também propõe: o mundo não é um lugar estanque, as influências são múltiplas, a interculturalidade é parte intrínseca da humanidade, sobretudo na era da globalização, e também são essas trajetórias individuais que cruzam diferentes territórios e identidades que urge celebrar.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Lala Tamar é uma artista com uma proposta identitária que faz especial sentido num evento como este. Não é que a cantora apresente uma música oriunda de um lugar e de uma tradição muito específica; pelo contrário, ela é a soma de uma série de referências e legados culturais que a tornam autora de uma música pós-fronteiras.

Nascida em Israel, filha de mãe marroquina e pai brasileiro, é descendente de judeus sefarditas expulsos da Península Ibérica no século XV. Cresceu numa casa em que o português do Brasil, o árabe darija e o hebraico conviviam naturalmente. Mas foi quando escutou as gravações etnográficas das mulheres judias de Marrocos que se deixou encantar por uma outra língua, chamada haquetia, quase em vias de extinção, que passou a estudar e a dominar enquanto a envolvia numa música que era uma convergência entre a tradição do Magrebe (em particular, de Marrocos e da cultura gnawa), o legado andaluz e sefardita, e uma produção que por vezes toca no jazz, nos grooves funk ou que vai mesmo à pop contemporânea.

É também através de gestos artísticos como este — que entrelaçam realidades que à partida poderiam estar distantes — que despontam a comunhão, a partilha, a empatia. Quando Lala Tamar aparece em palco, diante do Castelo de Loulé, fortificação construída pelos árabes que habitavam e construíram a cidade, representa toda uma herança mediterrânica, de encontros e tensões, paixões e deportações, amor e violência, e das muitas vozes femininas que vieram antes de si.

Lala Tamar / Fotografia de Rui André Soares – CCA

“Estou cheia de sede: quero beber o céu, as flores, beber-vos a vocês”, atira como alguém que está sedenta de vida, ainda que já transporte tantas vivências nas suas canções. Após interpretar “Pão com Manteiga”, tema partilhado com a brasileira Bia Ferreira, deixou no ar a intenção de gravar mais faixas em português num próximo álbum. “Inshallah, ou oxalá”, como quem diz que somos todos parte de um mesmo legado.

Os Asian Dub Foundation seriam os protagonistas seguintes no nosso roteiro. Embora haja um certo caos na forma aparentemente atabalhoada como se apresentam em palco, e na mescla improvável de sonoridades, eles são também o produto muito particular do cosmopolitismo de Londres. Fundados nos inventivos anos 90, com raízes na Ásia e com uma formação que se foi mutando ao longo do tempo, foram amplamente moldados pela cultura soundsystem e pela diáspora jamaicana da capital britânica, tal como foram beber ao punk rock e ao rap, outras linguagens entranhadas naquela vibrante metrópole.

Asian Dub Foundation – Fotografia de Rui André Soares – CCA

O baixo, a guitarra, a flauta e os beats que são disparados à distância servem de cama para dois MCs debitarem as suas rimas. Dentro da desordem — um desfile de jungle, drum and bass, rap, flautas orientais ou uma pulsante energia punk que emana da guitarra elétrica — no fundo assistimos a boa parte da história da música popular, nomeadamente a revolução sonora que a diáspora caribenha desencadeou em Londres, quando o reggae e o dub ganharam uma natureza eletrónica e se transformaram no jungle, UK garage, grime ou mesmo no drill, influenciando tantas outras coisas. A apoteose de Londres em palco, onde o caril é servido à mesma mesa que as sandes jamaicanas de tempero jerk, numa banda que sempre usou o seu som para provocar consciências, agitar as águas e fazer manifestos políticos.

Ainda foi possível espreitar os Tangomotán, quarteto parisiense que evoca a memória do célebre Gotan Project ao apresentar um tango com uma roupagem eletrónica, simultaneamente moldado por uma formação clássica europeia, que foi ganhando diferentes tons ao longo da performance, chegando-se mesmo a ouvir um improvável tango drill — com direito a coreografia e tudo.

De seguida, Lura apresentava o espetáculo de celebração dos seus 30 anos de carreira. Ladeada por uma série de instrumentistas dotados (de João Gomes a Iúri Oliveira, passando por Rodrigo Correia), é uma das vozes da diáspora cabo-verdiana que têm levado a música e a cultura do arquipélago atlântico pelo mundo.

Com canções assentes nas raízes, dos ritmos do funaná e do batuku ao lamento da morna, Lura é hoje uma das mais consistentes divas de Cabo Verde, um legado que a própria artista se esforçou para aprofundar e descobrir ao crescer em Portugal, longe da terra mãe. Em três décadas de percurso, são muitos os temas com que contribuiu para o cancioneiro da nação crioula, mas será sempre difícil destronar “Na Ri Na”, o seu mais emblemático hino.

Lura / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Tínhamos outras duas viagens marcadas para a primeira noite do MED. Fomos até à América para beber do reggae dos Groundation, formação liderada por Harrison Stafford que tem origem no circuito académico norte-americano do final dos anos 90, antes de se ter tornado uma banda popular no circuito internacional do reggae.

Com uma forte componente jazzística, apresentam um reggae ligado às raízes e à tradição jamaicana mas com uma sofisticação musical notória — o que também nos mostra que os géneros musicais têm vida própria e que podem despontar artistas e circuitos em diferentes sítios do planeta; o que é, além de inevitável, particularmente saudável, desde que não haja uma desvirtuação ou uma falta de consideração e respeito para com as origens de uma determinada música e movimento cultural. Pelo contrário, os Groundation têm sempre feito esse esforço de honrar as raízes, e elevado musicalmente o género popularizado por Bob Marley e os Wailers.

Groundation / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Depois, os turcos Lalalar arrebataram-nos com o seu rock de pista de dança, de pulsão industrial, eletricidade punk e batidas que ora provocavam o abanar de cabeças (e de consciências), ora faziam balançar os corpos. Como se o mais irresistível do rock n’ roll — as linhas de baixo gordas e hipnóticas, as guitarras enfeitiçantes — fosse usado como ingrediente biológico de um DJ ao comando da pista, numa estética que também evoca o psicadelismo e as melodias orientais da Anatólia.

Também Istambul é uma metrópole de múltiplos legados e referências culturais, o que ajuda a explicar este portento sonoro chamado Lalalar — que ainda por cima tem como vocalista uma figura verdadeiramente magnética, Ali Güçlü Şimşek.

O segundo dia: da subtileza de Arooj Aftab ao reggae político de Tiken Jah Fakoly

Mesmo num festival de verão com diferentes palcos, ao ar livre, com uma circulação de milhares de pessoas e muitas conversas e momentos de convívio pelo meio, é importante haver espaço para performances mais introspetivas e intimistas, que foi aquilo a que Arooj Aftab se propôs num dos primeiros grandes concertos do segundo dia de Festival MED 2026, esta sexta-feira, 26 de junho.

A cantora de raízes paquistanesas, criada entre os Estados Unidos da América e a Arábia Saudita, é autora de uma música singular que cruza a tradição devocional sufi que cresceu a ouvir com uma linguagem contemporânea que estudou e aprofundou na prestigiada Berklee College of Music. Há muitas vezes um lamento, mesmo uma tristeza, certamente um mistério, nas canções que Aftab traz para o palco.

Arooj Aftab / Fotografia de Rui André Soares – CCA

São o resultado de uma abordagem experimental, da convergência do jazz modal e das paisagens eletrónicas, de arranjos sublimes de cordas, feita com uma delicadeza e uma rara sensibilidade artística. Acima de tudo, a virtude performática de Arooj Aftab está nas subtilezas — a beleza da contenção, a raiz espiritual, a contemplação musical. O Palco Cerca serviu de templo a este ritual sonoro que soa profundamente moderno ao mesmo tempo que carrega séculos de história.

A viagem pelo mundo continuou a bordo do Expresso Transatlântico. Cada vez mais madura, a banda composta por Rafael Matos (bateria) e pelos irmãos Gaspar (guitarra portuguesa) e Sebastião Varela (guitarra elétrica) apresentou uma formação alargada ao vivo, com a integração de Zé Cruz (teclados, saxofone) e Tiago Martins (baixo). O comboio sonoro ganha peso e densidade, entra em velocidade turbo rock n’ roll sem nunca perder o caráter dançável das composições.

Expresso Transatlântico / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Mesmo com um disco de algum modo soturno que reflete os problemas do mundo contemporâneo, um Trópico Paranóia editado no início deste ano, os Expresso Transatlântico dançam (e agitam) na cara da opressão e da injustiça, em jeito de catarse. Pelo meio, houve tempo para uma homenagem sentida ao mestre Carlos Paredes — não temos dúvidas de que, dentro de umas décadas, Gaspar Varela merecerá ter o nome na história com uma reverência semelhante.

As sombras deram lugar à luz quando foi a vez de Mário Lúcio subir ao palco com a sua Pan-African Band. Referência maior da música e cultura cabo-verdiana, o artista veterano de 61 anos veio apresentar Independance, um disco editado em 2025, por ocasião do 50.º aniversário da independência do arquipélago, e que o levou de volta às suas raízes na música de baile, nos salões da ilha de Santiago, sobretudo movida pelas cordas quentes (ou do Sol, como se chama outra grande banda cabo-verdiana) das 10 ilhas atlânticas.

São canções que respiram leveza e celebração, de alguma maneira nostálgicas, uma espécie de bálsamo para um povo que, como Mário Lúcio fez questão de sublinhar em palco — também antevendo o jogo no Mundial da Seleção cabo-verdiana contra a Arábia Saudita, que iria acontecer logo de seguida e que ditou a passagem dos tubarões azuis à próxima fase da prova —, tem uma longa história de provações e sofrimento. Que a alegria do presente seja o oásis merecido para a nação crioula prosperar e se celebrar.

Seguia-se outro ícone da música africana. Tiken Jah Fakoly é uma referência incontornável do reggae, músico que canta a sua Costa do Marfim mas também a diáspora espalhada por Paris ou Montréal, sem esquecer países vizinhos como o Mali, assumindo-se igualmente como um herdeiro dos cânones do reggae e dos griots da África Ocidental, os ancestrais contadores de histórias, guardiões da sabedoria e do conhecimento, líderes espirituais que preservam a memória coletiva, e que só podemos calcular como ao longo do tempo influenciaram e moldaram a música popular moderna através de géneros como o reggae ou o rap.

Tiken Jah Fakoly / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Acompanhado por uma formação consistente, com um reggae autêntico que estava a soar particularmente bem, um concerto de Tiken Jah Fakoly — um dos nomes mais desejados pelo Festival MED, já há vários anos, conforme relatou o diretor do festival, Paulo Silva, em entrevista de antecipação à Comunidade Cultura e Arte — é também um profundo manifesto político. O músico de 58 anos usa o reggae como forma de fazer a sua intervenção social, pedindo uma África livre e com menos contradições. “Como é possível ser um território tão rico com uma população tão pobre?”, questionou o artista, que em palco é uma figura carismática, movendo a multidão ao sabor do seu magnetismo.

Ainda teríamos o prazer de presenciar outra faceta brilhante — e fundamental — da música da África Ocidental. 15 anos depois, Seun Kuti regressou a Loulé com a banda de sempre, os Egypt 80, prolongando o legado do pai, o lendário Fela Kuti, figura fundacional do afrobeat, que a partir da Nigéria dos anos 70 moldou o mundo, misturando os polirritmos locais com a bagagem funk, jazz e soul da música afro-americana, conferindo-lhe um caráter profundamente político na conturbada era pós-colonial.

Num momento em que os afrobeats — no plural —, um som mais pop e eletrónico, um dos muitos filhos que a música nigeriana deixou no mundo, se alastram pelo planeta e pelos topos das tabelas de vendas, com uma grande expressão em Londres ou Paris, contaminando inúmeras estrelas pop, Seun Kuti manteve-se fiel ao estilo original do pai, expandindo o legado desde que é um adolescente, mas incorporando nuances mais jazzísticas ou até próximas do reggae, mostrando, tal como o pai já tinha feito, que as músicas são feitas de movimentos constantes de vaivém, entre a terra mãe do continente africano e a comunidade negra nas Américas — ciclos perpétuos, mas sempre distintos, que só têm originado joalharia sonora da mais alta categoria. Em palco, Seun Kuti é o líder destemido de uma banda experiente e completa, alguém que carrega uma herança sem nunca deixar de acrescentar ingredientes próprios à mesa. O MED continua a fazer-nos descobrir o mundo sem nunca deixarmos o centro histórico de Loulé.

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