Festival MED: da festa cubana dos Los Van Van ao semba do “cota” Bonga
Lê aqui a reportagem dos primeiros dias do Festival MED, em Loulé.
Ao terceiro dia, o Festival MED arrancou com a performance de uma formação absolutamente emblemática. A Orchestra Baobab, fundada em 1970 em Dakar, a capital do Senegal, numa altura em que a cidade fervilhava após a independência, emergiu do palco do Baobab Club para se tornar numa das mais icónicas bandas da história do país africano. Sobretudo decisivos nas décadas de 70 e 80, quando gravaram inúmeros discos, acabaram por regressar ao ativo já no início do novo milénio.
Com uma formação que se foi renovando mas que mantém alguns dos músicos originais, exploram a interseção entre as músicas da África Ocidental e a inspiração cubana, como se não houvesse separação entre Havana, Dakar e outras capitais africanas relevantes para esta história sonora, unidas por uma ancestralidade partilhada, por ritmos que sobreviveram ao terror do colonialismo e da escravatura, de quem encontrou familiaridade num parente distante com um passado em comum. Ao vivo, experientes e completos, a Orchestra Baobab destaca-se pelas subtilezas, as nuances rítmicas e harmónicas que nos levam em mais uma viagem pelo mundo e que pedem o balançar dos corpos — sobretudo da cintura para baixo.

Estava feita a ponte para de seguida mergulharmos no som autêntico de Havana com Los Van Van. Histórica formação cubana com 16 elementos em palco, são uma verdadeira orquestra de baile que tem como principais ingredientes a vibrante salsa e o inventivo songo — género fundado na década de 70 pelo próprio grupo, ao cruzarem sons tradicionais de Cuba com diversas influências pop, funk e jazz. Ao longo dos anos, e depois da morte do líder Juan Formell e a sucessão do seu filho ao comando dos arranjos, o grupo foi modernizando a sua abordagem sem nunca olvidar o legado.
Perante uma ampla plateia subitamente transportada para um salão de baile da ilha caribenha, Los Van Van trataram daquilo que melhor sabem fazer: incendiar a faísca, incitar o movimento, sempre com um espírito de comunhão e uma atitude bem-disposta que os fez conquistar a audiência desde o primeiro momento.

Voltávamos depois ao Palco Cerca para outro dos grandes concertos do festival. Arnaldo Antunes é uma figura maior da música brasileira. Artista de São Paulo moldado pelo tropicalismo, o rock n’ roll e a poesia, co-fundou nos anos 80 os Titãs, num período em que o rock dominava o Brasil, em paralelo com a abertura do regime da ditadura militar, que iria perecer precisamente nessa década. Já nos anos 90, iniciaria uma prolífica e exploratória carreira a solo, antes de formar o supergrupo Tribalistas ao lado de Marisa Monte e Carlinhos Brown.
Artista indissociável das transformações da música brasileira ao longo dos últimos 40 anos, Arnaldo Antunes foi sempre um músico inconformado que procurou novos estímulos e abordagens — por isso mesmo, foi ao Mali gravar com Edgar Scandurra e Toumani Diabaté um disco de raiz afro-brasileira, “A Curva da Cintura”, que vai beber aos blues do deserto, ao rock que está na sua matriz e a outros ritmos tradicionais africanos.
É este Arnaldo Antunes, criador imaginativo e irreverente, dotado de uma imensa experiência, que se apresentou perante Loulé na noite de sábado, 27 de junho. Em palco, é uma figura carismática, rodeado por efeitos de luzes, algures entre David Byrne e Caetano Veloso, um músico sofisticado e sapiente que sempre esteve muito mais focado no futuro do que refém de uma memória nostálgica. Acompanhado por uma formação talentosa, o concerto foi adquirindo diferentes tons, entre o rock n’ roll e a MPB, um artista com imenso mundo que ainda assim é tremendamente brasileiro. Nas filas da frente, várias dezenas de fãs dedicados vibravam intensamente com o ícone paulista.

Enquanto Portugal defrontava a Colômbia para o terceiro jogo da fase de grupos do Mundial de futebol, a música latino-americana fazia-se sentir na cidade algarvia através dos Calle Mambo. Os chilenos exploram diferentes músicas populares da América Latina, entre a cumbia colombiana e chilena e o caporal boliviano, a timba cubana ou o huayno peruano, com uma preponderância para as inúmeras flautas que se foram sucedendo umas às outras, e com uma roupagem moderna e pujante que integra eletrónica e rap. É uma espécie de eletro-folclore pulsante, que foi mantendo a energia bem alta no Palco Chafariz.
De seguida, uma verdadeira lenda da música lusófona subia ao palco, recebido com o estatuto de rei, conquistado e merecido há largas décadas. Bonga, figura fundamental da música angolana, mestre do semba que ainda assim não se restringe a fronteiras musicais, octogenário com uma aura muito particular, gingão que nunca perdeu a malandrice, foi acolhido por milhares de pessoas que ansiavam pelo “pai grande” da música angolana, o “cota” que resistiu ao regime colonial e acabou por cantar as dores (e também as alegrias, era o que mais faltava) de toda uma nação.

Entre as congas e o longo reco-reco que ia tocando ocasionalmente, Bonga mantém a voz rouca característica e que tão bem cola com os instrumentais tocados pela banda. Hinos como “Mulemba Xangola” e “Mariquinha” geraram, como seria de esperar, fortes reações na plateia, naquele que foi um dos concertos mais dançados e entusiásticos desta edição do Festival MED.
A noite terminava ao som de Fidju Kitxora, identidade difusa, música (e catarse) pós-diaspórica, que parte de gravações de campo em Cabo Verde para uma viagem intensa movida a texturas eletrónicas, percussão orgânica e a presença indelével da vertigem rítmica do funaná. Em palco, com o projeto desdobrado em quatro elementos, a energia é urgente e vital — há uma força que não se pode parar, uma tormenta remota, tensões para digerir, que espelham um país fundado pelo colonialismo, que vive muito para lá das suas fronteiras graças ao fenómeno das constantes migrações e da importância de uma enorme diáspora, que alberga contradições difíceis de resolver, entre a morabeza e o kasubody.
Reflexivo e provocador, Fidju Kitxora retrata particularmente bem essas sensações, sobretudo quando este ano foi lançado o segundo disco do projeto, “Ti Manxe”. Discografia à parte, esta é uma música que realmente ganha vida nos palcos, ao vivo, na interação humana com um público, e dificilmente haveria melhor experiência para concluir esta terceira noite no centro histórico de Loulé.
Um Open Day para terminar o MED 2026
Depois de três dias repletos de programação no centro histórico de Loulé, o Festival MED despediu-se, como tem sido habitual, com um Open Day completamente aberto à população. As bancas mantêm-se, tal como os momentos culturais, num dia mais descomprometido em que muitas famílias aproveitaram para desfrutar do centro da cidade com mais tranquilidade.

Uma das principais performances da noite foi do projeto Claustrophonia, liderado por Ruben Monteiro, onde se destacam antigos instrumentos musicais de toda a região do Mediterrâneo e da Península Ibérica. Desde o cordofone kopuz, oriundo da Turquia, à viola braguesa nacional, são os instrumentos tradicionais que servem de matéria prima para as composições originais do músico, que se fez acompanhar por um quarteto de instrumentistas. Ao mesmo tempo, é como se fosse uma exposição em formato de performance, um experiência de “museu vivo” que faz com que estes instrumentos, muitas vezes desconhecidos do grande público, sejam apresentados ao vivo e a cores a uma plateia.

De seguida, rumávamos ao Palco Cerca para o espetáculo “Filarmonia Campaniça”, que juntou a Sociedade Filarmónica Artistas de Minerva, as Moçoilas e o projeto Raia (liderado pelo músico alentejano António Bexiga) numa performance abrangente que incidiu sobre cantares tradicionais portugueses, elevados através dos arranjos orquestrais a que nem sempre têm direito. Uma vasta audiência assistiu atentamente à atuação, preenchendo toda a dianteira do palco.
Haveria ainda, no Palco Castelo, e no âmbito da apresentação da 30.ª edição do Festival de Jazz de Loulé — marcada já para os dias 24, 25 e 26 de julho — um concerto do quinteto liderado pela cantora Sara Badalo. Com contrabaixo, guitarra, piano e bateria, a artista interpretou standards do jazz, bem como alguns temas originais, fazendo uso da sua expressividade natural, apresentando-se em palco como uma verdadeira diva do jazz, como se de repente nos transportasse para um clube de Chicago ou Nova Iorque.









