Ficções coreográficas

por Tiago Bartolomeu Costa,    14 Junho, 2025
Ficções coreográficas
US, de André Braga e Cláudia Figueiredo / Fotografia de José Caldeira
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Do calendário de apresentações que se cruzaram nos últimos dias do mês de Maio e início de Junho, houve propostas vindas da área da dança que nos devolveram interrogações sobre até onde queremos ver, ir, e acreditar nas máquinas de ficção coreográfica propostas pelos seus autores. Três exemplos distintos, permitem ativar uma relação entre a presença ativa e a simples observação.

MELODRAMA: SENZA TE , de Bruno Brandolino, estreou no Teatro do Bairro Alto (31 Maio a 2 Junho), em Lisboa, integrado na programação nacional do festival Cumplicidades, comissariada – cuidada, seria o termo mais correto – pela dupla de coreógrafos Sofia Dias e Vítor Roriz, e é uma pequena jóia, vinda de um tempo que já não parece este. Vale muito a pena ler a nota de intenções do autor, disponível na página do TBA, pelo modo como revela preocupações que vão para lá da perceção e do imediato, e se focam – e pedem que estejamos alerta – para o modo como, ao longo de toda a performance observa e se relaciona com o espaço, tornando o que poderiam ser soluções de efeito em atentos diálogos com a impossibilidade material. É um espetáculo de risco, tanto pela vertigem com que vão sucedendo as diferentes relações com os objetos, o público, a sua própria imagem, a escala e o potencial de erro, e a duração, que trabalha sobre uma ideia de temporalidade que manda às urtigas a eficácia.

MELODRAMA: SENZA TE , de Bruno Brandolino / DR

Bruno Brandolino quer estar naquele espaço, espécie de redoma onde faz por parecer que só ali consegue e merece existir, entre a expiação, o castigo, a necessidade e o capricho, e transforma essa presença num exercício de construção social, tanto reclamando um lugar de pertença, e onde as fronteiras da ficção e da realidade de esbatem tal o como como o espaço lhe parece ser inóspito, como a artificialidade com que o trabalha, o torna cenário do próprio cenário. Por isso, quando se aproxima do público; quando parece estar a dirigir-se diretamente a esse público, usado como espelho do qual rápida, deliciosa e mordazmente se desvia; quando o quer tornar seu cúmplice face à crueldade de uma história que antecede a nossa chegada ali, mas não sabemos se é autoficcional ou duplamente encenada, transforma em discurso coletivo um mal-estar social, de consciência de uma observação judicativa, e transforma o corpo numa extensão de um espaço, e de uma materialidade que parecia estar a vencê-lo.

É um trabalho de complexa relação com o tempo, com a matéria e com o próprio corpo, porque vai criando uma teia que vai estreitando o espaço – físico e dramatúrgico – do que que seriam linhas paralelas, até não restar mais nada senão o lamento de poder ter sido em vão. É, de facto, um espetáculo artesanal, que pede que confiemos no que estamos a ver, como se nos obrigasse a esperar pelo anticlímax, para se tornar espetacular. Uma surpresa desarmante.

EXIT ABOVE – AFTER THE TEMPEST / Fotografia de Anne Van Aerschot

EXIT ABOVE – AFTER THE TEMPEST, criação de 2023 de Anne Teresa de Keersmaeker com a colaboração de Meskerem Mees, Jean-Marie Aerts e Carlos Garbin (apresentada a 3 e 4 Junho na Culturgest, em Lisboa, e 6 e 7 Junho, no Teatro Municipal do Porto), volta ao primado – em bom rigor nunca abandonado, mas nem sempre evidenciado deste modo – da coreógrafa belga, my walking is my dancing, como ando é como danço, aqui multiplicado e distribuído não apenas pelo elenco de treze intérpretes, mas também pelas letras das músicas vindas do universo do blues norte-americano.

É um espetáculo que se vai fragmentando, propondo variantes sobre a mesma frase, complementada, reconstruída ou prolongada na passagem de um intérprete para outro e, naquilo que é uma muito feliz relação entre uma fórmula e a consciência da necessidade de transformação, fazendo do uso particular do espaço o palco para que os bailarinos se possam expressar a partir do interior das regras, das contagens e das sequências que estruturam a coreografia.

O desenho de movimento inadvertidamente proposto pelo imenso plástico que voa perante o vento provocado por uma ventoinha industrial, haverá de se expandir através dos bailarinos e da relação que é proposta entre referências diversas e amplas – das danças de salão às urbanas, sempre em diálogo com as frases-tipo de Anne Teresa de Keersmaeker – e a ficcionalização de um movimento quotidiano. É aqui que EXIT ABOVE se transforma num espetáculo que sabe estar a operar numa lâmina muito fina, onde a abertura de campo para a sobreposição pode esconder uma estratégia velha conhecida dos espetáculos de Anne Teresa de Keermaeker, mas sempre eficaz: a ideia de que a construção se vai fazendo sem esforço, até nos atirar para o centro de uma complexa rede de ligações e relações, onde todos os elementos são convocados – o acorde certo para o gesto que o esperava, o desenho de luz que parece ter o seu próprio espetáculo, a falsa diferença entre os corpos e as ações dos interpretes. É a diferença subtil entre a forma como anda ser a sua dança, ou a sua dança ser a forma como anda. Uma será uma construção, a outra seria um truque. Como sempre, a escolha está em quem vê: quase um what i see is my dancing.

US, de André Braga e Cláudia Figueiredo / Fotografia de José Caldeira

Apetece ser generoso com US, de André Braga e Cláudia Figueiredo, da companhia Circolando, que se juntam ao coreógrafo moçambicano Panaibra Canda, porque se sabe do compromisso, da pesquisa da vontade de ir mais além e do desejo de partilha que há pelo menos vinte anos, estrutura o trabalho, as ações, e as devoluções às comunidades com as quais trabalham. Apetece ser generoso também porque se sabe que o encontro entre estes dois discursos, traduzidas no encontro entre dois corpos – os de André Braga e Panaibra Canda – opera num lugar entre-entre, “o mar e a terra, o visível e o invisível, o ancestral e o contemporâneo, o espiritual e o terra-à-terra.”, como escrevem na nota de intenções, transposto para um palco que os inscreve entre a plateia colocada em toda a extensão de um linóleo branco onde pontuarão conchas e, sobretudo troncos de árvores esculpidos pelas ondas do mar, como corpos solitários e resistentes, eles próprios contadores de histórias. Mas, apesar da elegância do movimento; do resumo material com que trabalham as histórias que foram escutando de antigas lendas de corpos escravizados que sobreviveram no fundo do mar; do modo como procuram equilibrar escolas e práticas distintas de trabalho sobre o corpo, US nunca chega a assumir um lugar senão o da observação espantada, ansiosa por reproduzir, partilhar e dar a conhecer, sem construir um espaço próprio, de reivindicação e apropriação nos corpos dos dois interpretes-autores, das histórias que ouviram. Pode ser que seja interessante ver no que mostram hipóteses de como se vão transformando, eles também, na paisagem que esconde os corpos que quiseram exumar, e os espíritos que continuam presentes, mas Us nunca chega, realmente, a descolar, e a tornar-se mais para lá de uma história que tentaram contar. Há espetáculos com o coração no sítio certo, mas por vezes, não é o bastante para ultrapassar o que ainda estão a gerir.

US estreou no Teatro Municipal do Porto a 25 e 26 Abril, integrado no Festival DDD – Dias da Dança, a que se seguiram datas em Leiria (Black Box, 29 Abril), Aveiro (Teatro Aveirense, 16 Maio), Faro (Teatro das Figuras, 23 Maio) e Lisboa (São Luiz Teatro Municipal, 30 Maio a 1 Junho, quando o vimos).

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