“Frankenstein”, de Guillermo del Toro: a responsabilidade do criador perante a sua obra 

por Ana Monteiro Fernandes,    21 Dezembro, 2025
“Frankenstein”, de Guillermo del Toro: a responsabilidade do criador perante a sua obra 
“Frankenstein”, de Guillermo del Toro

Para quem leu o livro “Frankenstein”, original de Mary Shelley, e o livro “As aventuras de Pinóquio” de Carlo Collodi, não deixa de achar curioso que após a realização de Pinóquio, lançado em 2022, Guillermo del Toro se tenha aventurado na realização do seu “Frankenstein”, com lançamento global pela Netflix no passado mês de novembro. Por isso mesmo, no documentário “Frankenstein: A lição de anatomia”, que mostra os bastidores do filme, torna-se ainda mais curioso quando Guillermo del Toro diz: “O Pinóquio e o Frankenstein são muito especiais para mim”. A frase pode parecer cliché, mas o interessante é colocarem-se estas duas obras lado a lado, como sendo ambas muito importantes e únicas. De um lado, vemos um clássico do romantismo gótico do início do século XIX (1818), com várias adaptações futuras para todos os gostos, grande parte delas muito pouco fieis à própria obra, e do outro um livro para crianças que teria como principal intuito ensinar que ser-se mau, turbulento e não estudar conduziria a um futuro nada bom: ou seja, quem se portar mal, vai enfrentar as consequências. Não é ao acaso que, no livro original, Pinóquio chega a morrer enforcado. O intento de Collodi seria mesmo terminar o livro nesse momento, com Pinóquio morto, como uma lição por ser irascível. Na verdade, a história só continuou porque o jornalista e escritor sofreu pressões tanto por parte do seu editor como por parte dos seus leitores, que queriam o seu protagonista vivo. Estamos a falar, afinal, de um livro desenvolvido de raiz para um público infantil em que a personagem principal, embora dada a tropelias, não deveria morrer para não interferir com a sensação de segurança que as crianças precisam ao lerem estas histórias. 

Mas há um outro filme com uma pergunta chave que é excelente e funciona como elo entre o universo de Frankenstein e o universo de Pinóquio, e devemo-lo a Spielberg. Sim, esse mesmo, o filme “A.I. Inteligência Artificial”. Um filme de ficção científica – assim como o próprio livro Frankenstein no fundo também o é, e já vamos perceber o porquê – em que uma família tem o seu único filho em coma e, entretanto, adquire um Mecha, um robô com forma de criança, que desafia as fronteiras entre o que é um ser humano e um ser mecanizado, uma vez que esta criança robótica também sente, nutre amor infinito pela sua mãe e também está em processo de aprendizagem. Tudo corria bem, até que o filho real deste casal acorda, de repente, do coma, e a dinâmica acaba por mudar radicalmente e o robô acaba por ser mesmo descartado, apesar do amor que sentia pela sua “mãe”. É precisamente neste ponto-chave que a pergunta principal do filme deve ser colocada: “…não se trata apenas de criar um robô que seja capaz de amar. O verdadeiro dilema é: conseguiríamos fazer com que um humano amasse esse robô de volta?” No fundo, é sobre esta mesma pergunta que Pinóquio e o próprio “monstro” criado por “Frankenstein” giram em torno: estes dois universos, muito antes do desenvolvimento da Inteligência Artificial tal como a conhecemos agora, são sobre isto mesmo. 

“Frankenstein”, de Guillermo del Toro

Voltemos de novo ao documentário “Frankenstein: A Lição de Anatomia”, quando Oscar Isaac, o actor que interpretou Victor Frankenstein no filme de Guillermo del Toro, explica: “O tema do pai e dos filhos e a fragmentação do ser humano é muito importante para ele [Del Toro]”. E logo em seguida, o próprio Guillermo Del Toro explica: “Ambas são histórias [Frankenstein e Pinóquio] sobre crianças diferentes, com pais que, de certa forma, estão desiludidos.” Ou seja, expectativas e aspirações que acabaram frustradas entre os seus criadores e as suas obras. Victor Frankenstein fica assustado quando vê a criatura disforme que criou e percebe que esbarrou contra a questão ética do que significa ser-se humano e onde está a fronteira entre a criação e aquilo que nos torna únicos. Geppetto, por outro lado, não é que desista da educação de Pinóquio, é Pinóquio que se desvia do seu caminho para a escola, mas não compreende de início porque é que marioneta não é bem comportada, as suas atitudes, e sente frustração enquanto pai. Ambos esquecem-se de algo primordial que, hoje em dia, já não se pode dizer que seja exclusivo dos seres humanos, porque sabemos que outros seres vivos também passam por processos de educação e aprendizagem de culturas, mas mesmo assim é uma parte primordial do que nós somos: precisamos de passar por processos de aprendizagem que nos ajudem a familiarizar com o que vemos à nossa volta. Ou seja, nascemos e vivemos de forma inacabada.

Não saímos de um molde já prontos, como seria de esperar que acontecesse com o monstro criado por Frankenstein ou o próprio Pinóquio, e foi isto que os seus criadores não conseguiram compreender no início. É por essa razão que a pergunta do filme A.I Inteligência Artificial é tão importante, “não se trata apenas de criar um robô que seja capaz de amar. O verdadeiro dilema é: conseguiríamos fazer com que um humano amasse esse robô de volta?”, porque direcciona a responsabilidade para nós, os humanos, os criadores, e se seremos capazes de cumprir com os nossos deveres a partir do momento em que criamos e damos vida a alguém ou algo com capacidade para nos amar ou odiar de volta. Ou seja, por enquanto, os educadores e os responsáveis ainda temos de ser nós. Por enquanto.

“Frankenstein”, de Guillermo del Toro

Não obstante Frankenstein, o livro original de Mary Shelley, ser considerado um expoente do romantismo gótico, à luz do que sabemos hoje pode e deve ser considerado também como de ficção científica. Há que recuar no tempo e perceber o contexto de época em que o livro foi escrito. Estávamos no início do século XIX, em plena primeira revolução industrial. A revolução americana e francesa, ambas no final do séc. XVIII, o século da razão e do iluminismo, trouxeram transformações sociais e políticas importantes, assim como novos ideais sobre o que o ser humano deveria ser. Foi nesta altura, por exemplo, que o absolutismo monárquico começou a ser posto em causa e, assim, nasceria o constitucionalismo e o republicanismo moderno. O interesse estaria voltado para a ciência e as suas descobertas que vivia, então, um novo alvorecer. As aplicações práticas da electricidade ganharam neste período um novo impulso para as quais as atenções estavam viradas, assim como as experiências de Humphry Davy, com as quais Mary Shelley era familiar, bem como as de  Luigi Galvani e Giovanni Aldini. Era o alvorecer de uma nova era em que todos estes avanços, desde a ciência à medicina, fizeram a população começar a pensar sobre o que é, afinal, ser-se humano, onde estão as bases éticas de todo este novo desenvolvimento e quais são as obrigações morais da ciência. É neste contexto que nasce, aliás, o romantismo, que teve em Lord Byron um dos seus expoentes máximos, mais centrado no homem, na sua introspecção e sentimento, como uma contra-corrente da própria revolução industrial então em curso e do pensamento científico e iluminista sem freio. 

Mantendo, por isso mesmo, o interesse no pensamento sobre o que nos torna humanos, quem leu originalmente o livro entende que Mary Shelley não pretendia que o foco estivesse, necessariamente, na monstruosidade excessiva da criação, do novo “humano” que nem ele próprio entende e sabe onde se encaixa na sociedade, mas sim nisto que Guillermo del Toro diz: “Ambas são histórias [Frankenstein e Pinóquio] sobre crianças diferentes, com pais que, de certa forma, estão desiludidos.” Ou seja, o foco na relação, na responsabilidade ética da relação entre o criador e quem queria. Qual é, afinal, a responsabilidade do criador perante a sua obra? O que assusta não é o físico disforme da nova criatura, o que assusta Victor Frankenstein é o medo do desconhecido que aí vem. Não compreende o seu “filho”, não o sabe enquadrar nem que lugar deve ocupar na sociedade, por isso sente medo em assumir as suas responsabilidades.

“Frankenstein”, de Guillermo del Toro

Se assumisse as responsabilidades perante a sua nova criação, o que é que isso representaria, tanto para si como para a sociedade? Ou seja, Victor Frankenstein tem medo, antes de tudo, de si mesmo e da constatação do que é capaz de criar, porque falta-lhe ainda um nome, uma denominação para esse desconhecido. “As pessoas têm medo daquilo que desconhecem”: também podemos aplicar esta máxima do “O Homem Elefante” de David Lynch aqui neste universo. O que é, então, uma nova criatura sem a orientação ou educação do seu criador? Uma criatura sem conseguir entender o seu lugar, sem referências, sem um ponto de partida para conseguir entender e enquadrar o que vê à sua volta. Uma criatura perdida que, além da busca do seu criador que se furta de o criar, procura um lugar de pertença para se entender, compreender o que o rodeia e uma estrutura a que possa chamar de casa.

 Uma criação sem a estrutura do seu criador será sempre incompleta, inacabada, por isso é que Geppetto não entendia porque Pinóquio se portava mal, porque o seu “filho” ainda não tinha referências para entender todas as coisas novas que via à sua frente, e é por isso que Victor Frankenstein não conseguia perceber porque é que a sua criatura, por exemplo, não conseguia falar de forma articulada, ler, escrever, ter mais inteligência. Porque ainda teria de passar por uma base de amparo e educação que lhe forneceriam os alicerces para entender tudo à sua volta. faltavam-lhe as referências – no início, não é o verbo – daí transformar, por vezes, a sua revolta e frustração em violência, maior parte dela voltada para o seu criador. É por esta razão que quem leu mesmo livro é capaz de passar por cima do facto da criatura do “Frankenstein”, de Guillermo del Toro não ser mais acentuada no disforme, no horrendo ou até no mais assustador. O ónus do filme não vai tanto por aí e está tudo bem. Não há, por isso, nada que Guillermo del Toro esteja a trair. Mesmo não sendo totalmente fiel ao livro, principalmente pelo facto do irmão de Victor Frankenstein, no desenrolar do filme, ser adulto e o companheiro da mulher porque quem Frankenstein se apaixona – no livro esta personagem feminina cresce com Victor porque foi adoptada pelos seus pais – resgata algo essencial. Coloca o foco não só nos “pais” desiludidos, mas o que é, do ponto de vista da criatura, esta ausência de um pai.

“Frankenstein”, de Guillermo del Toro

Podemos ver ao longo do filme, também, a forma como a própria criatura se vai moldando, progredindo e ganhando mais complexidade emocional à medida em que esta ausência vai ganhando mais peso ou não. A personagem feminina percebe, no filme, que a criatura precisa de ser ensinada para se desenvolver, evoluir e ser melhor, ao passo que Frankesntein não consegue entender isso. A atenção por parte da personagem feminina traz uma maior complexidade emocional à criatura e desperta nela sentimentos bons, assim como a atenção que o idoso cego lhe dá e como isso lhe traz mais abrangência intelectual também – vemos uma personalidade em desenvolvimento que reage à forma como é tratada. Algo extremamente importante, também, é a forma como vemos a história sob o ponto de vista de Victor Frankenstein mas, também, sob o ponto de vista da própria criatura que conta a sua história, o que também acontece no livro. É como se o filme estivesse dividido em duas partes, e a segunda service para a criatura ensinar ao seu criador onde é que este errou. 

Nada é deixado ao acaso na cinematografia tal como, por exemplo, as cores escolhidas para a roupa de cada personagem: os vermelhos estão reservados para a mãe, o que faz todo o sentido, uma vez que esta morreu aquando do trabalho de parto do seu irmão mais novo. Por isso, na dinâmica do filme, a imagem do vermelho ligado ao sangue acaba por ser importante porque é muito visceral e carnal, podendo estar ligado à vida tanto como à morte. Todas estas personagens acabaram por perder algo ou sentem a ausência de algo, e é essa a força motriz para as suas acções. O pensamento sobre a morte, a dor da solidão e o impulso para a criação de algo novo para colmatar as perdas acaba por ser, de forma curiosa, o elo que liga o criador e a criatura que, tal como verso de Byron com que Guillermo del Toro encerra o seu próprio Frankenstein avisa: “E assim o coração se partirá, mas viverá com tristeza”. Não deixa de ser uma interessante dicotomia, serem precisamente os corações que se partem e que vivem com a consciência disso, aqueles que ainda vivem, presos ou condenados à sua tristeza. 

Claro que não poderia terminar sem a reflecção do tempo em que vivemos, em pleno desenvolvimento da Inteligência Artificial. A responsabilidade ainda está do nosso lado. Seremos capazes de cumprir com os nossos deveres e teremos a coragem de enfrentar as nossas responsabilidades de frente, sem medo, ou teremos todos nós um pouco de Victor Frankenstein em nós e teremos medo do que já criámos e iremos criar, mais ainda não conseguimos entender ou categorizar?

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