Ganhamos mais que os nossos pais. Porque estamos pior?

por Rui Maciel,    24 Abril, 2026
Ganhamos mais que os nossos pais. Porque estamos pior?

Estamos na semana entre o 25 de abril e o dia 1 de maio e há uma questão que me apoquenta: o que torna tão difícil um jovem português ter uma vida normal em Portugal, quando ouvimos nas notícias que a economia portuguesa é um sucesso?

Existe um paradoxo económico no nosso país. O governo alega que o poder de compra real das famílias portuguesas aumentou 3,2% em 2025, e a revista “The Economist” consagrou a economia portuguesa como a Economia do Ano de 2025. Mas um sentimento de revolta permanece. E é normal. Diria que, desde a geração rasca, vivemos num paradigma diferente das anteriores e sentimos isso, como se mesmo fazendo o que nos foi incutido, não recebemos o que nos foi prometido. 

Um artigo do Financial Times fala de dados económicos muito interessantes sobre o Reino Unido, que não me espanta que fosse igual em terras lusitanas. A nossa geração ganha, em média, mais que os nossos pais, mas estamos muito mais insatisfeitos. Porque será? Há dados económicos para isto. Tem tudo a ver com as expetativas que nos deram. Em primeiro lugar, há uma ascensão social e económica que não se materializou. A razão é porque nunca houve tantas pessoas com diploma académico, o que reduz o prémio salarial (inclusive hoje fala-se de como eletricistas ou picheleiros ganham mais que uma pessoa com licenciatura). Para a geração mais formada de sempre, isto foi um defraudar de expetativas.

Existe um outro dado que demonstra como mesmo auferindo mais do que as gerações anteriores, a nossa perceção de riqueza é menor. No Reino Unido, embora a nossa geração receba em média mais que os seus pais, o seu percentil de rendimento é menor do que antigamente. O que isto quer dizer é que a posição relativa na sociedade piorou, mesmo ganhando mais em termos absolutos. Um jovem licenciado de 28 anos que receba 1.694 euros, o salário bruto médio nacional, supera o que o seu pai auferia à mesma idade. Mas o pai diplomado estava no top 30% dos rendimentos do país. O filho está na mediana, ou abaixo dela. 

Adicionando a isto o fator redes sociais que faz seleção (ou na expressão inglesa “cherry picking”) daquilo que são os melhores momentos das outras pessoas – a casa, o carro novo ou as férias num destino exótico – sem mostrar as dívidas ou os pais que ajudaram, temos uma bomba-relógio de expetativas que explode na nossa cara.

Mas há um outro fator económico e psicológico que ainda tem mais peso. A habitação tem um papel decisivo. Os dados em relação à inflação, embora estatisticamente bem calculados, têm um problema: não capturam certos componentes que têm dramático impacto no desenrolar da vida de cada um. Em Portugal, o valor de uma casa subiu em média cerca de três vezes desde 2015. Em Lisboa a renda média é maior que o salário médio. Assistimos a uma internacionalização do imobiliário português que não foi acompanhada com a subida do salário interno, o que faz com que haja uma “esquizofrenia” no mercado português: o que é a primeira casa para habitação própria permanente para alguém, é um investimento para um estrangeiro. O governo tentou ajudar com incentivos económicos e facilidade para jovens conseguirem comprar casa e dar-lhes aquilo que lhes tinha sido prometido, mas não é suficiente. Quando nos comparamos aos nossos pais, numa das etapas mais importantes da nossa vida, ficamos atrás. Enquanto os nossos pais compraram casa nos seus anos 20, nós só conseguimos (se conseguirmos) nos nossos anos 30.

A culpa não é nossa, não é de nos esforçarmos menos do que as gerações passadas. Na questão da habitação, por exemplo, existe um problema estrutural (a internacionalização do mercado imobiliário) que levou a que uma casa se tornasse inacessível ao jovem mediano. Numa sociedade que tende a ser tão meritocrática e que insiste em culpar somente o indivíduo, seria bom começar a olhar para questões estruturais que só podem ser solucionadas em conjunto, para que, aí sim, o esforço individual valesse de facto o que promete. Nesta semana em particular, entre o 25 de Abril e o 1 de Maio, talvez seja essa a pergunta que devíamos mais fazer.

Recomendações do cronista:

Gary’s Economics: um canal de YouTube que acho extraordinário para quem não percebe de economia e que fala dela de uma forma acessível. Recomendo o último vídeo em específico, “The Iran economic shock is coming. How to protect yourself”.

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