“Ghosting”: a fuga pelo ecrã

por Sara Rathenau,    5 Maio, 2026
“Ghosting”: a fuga pelo ecrã

É altura de despirmos a culpa e reconhecermos o óbvio: o ghosting é hoje o nosso dialeto mais fluente. Aceitamos o silêncio como uma resposta válida, transformando “a arte” de desaparecer na forma mais rápida de encerrar capítulos que já não queremos ler. Já todos estivemos dos dois lados do ecrã: fomos o remetente ansioso que actualiza a conversa e fomos o silêncio do outro lado, a pessoa que decidiu que “hoje não”. Não se trata de procurar vilões e vítimas, mas de questionar porque é que o ghosting se transformou numa nova gramática social. Há uma espécie de contracto de silêncio não assinado, mas plenamente em vigor. O ghosting deixa de ser a excepção. Quando o vácuo se torna a norma, a ausência de explicação deixa de ser um insulto pessoal. Aprendemos a ler o nada como uma resposta completa, que encerra capítulos sem necessidade de palavras. 

Colectivamente, decidimos que o esforço de “fechar” uma porta é um gasto de energia desnecessário quando podemos simplesmente deixar a porta aberta até que o pó a sele por nós. Esta experiência colectiva de desaparecer e ser ignorado criou uma carapaça social onde a expectativa de consideração foi substituída pela aceitação da volatilidade. A normalização do vácuo revela uma mudança profunda na nossa ética da presença: a ideia de que não devemos nada a ninguém, nem mesmo a cortesia de um ponto final. Vivemos numa sociedade onde o silêncio é muitas vezes a linguagem mais falada e esta ganha uma nova dimensão através do vidro dos nossos telemóveis. A tecnologia não é neutra, ela molda a nossa disponibilidade para o outro.

Poder-se-ia argumentar que este silêncio não é novo: sempre houve cartas sem resposta, telefonemas a tocar no vazio e portas que permaneciam fechadas. Contudo, a diferença reside na natureza da nossa “omnipresença”. Antigamente, o silêncio era protegido pela distância física ou pelo tempo de espera. Hoje, o ghosting acontece num cenário de hiperconectividade. Sabemos que a outra pessoa tem o dispositivo na mão, que viu a notificação ou que está online. O silêncio actual não é um desencontro técnico, mas uma escolha deliberada e visível. Enquanto que a carta perdida no correio poderia oferecer o benefício da dúvida, o vácuo digital retira essa protecção, transformando a ausência de resposta numa mensagem em tempo real: a de que nossa existência foi lida, e conscientemente, arquivada. 

Como afirma Sherry Turkle, no livro “Reclaiming Conversation: The Power of Talk in Digital Age”, o digital eliminou o tempo de latência. A autora faz uma distinção muito importante: passámos da “conversa” que exige vulnerabilidade e presença, para a “mera ligação”, que privilegia a eficiência e o controlo. No digital, o outro é uma notificação que se pode silenciar ou arquivar. Esta lógica da utilidade imediata, actua como um catalizador para o ghosting, visto que retira a fricção do confronto. Como o contacto é mediado por um ecrã, o custo emocional de desaparecer é reduzido. É mais fácil do que encarar o adeus real. O digital oferece-nos a ilusão de que podemos editar as nossas relações com a mesma facilidade com que editamos um texto, transformando o silêncio na ferramenta de edição mais eficaz.  

Zygmunt Bauman, no livro “Amor Líquido”, alerta-nos para a fragilidade dos laços humanos numa era em que as conexões em rede podem ser construídas ou desmanchadas com a mesma facilidade. Eva Illouz descreve no livro “Why Love Hurts” a arquitetura da escolha romântica moderna: as aplicações de encontros criam uma ilusão de abundância que banaliza o descarte. O impacto do digital cria um paradoxo cruel: a manutenção de uma presença tecnológica enquanto se exerce uma ausência psicológica. Estamos num estado de incerteza permanente. A ausência de palavras não apaga a pessoa, pelo contrário, dá-lhe uma presença maior que nos obriga a viver num limbo de interpretações infinitas. 

Uma hipótese para tentarmos compreender o ghosting é reconhecê-lo como um mecanismo de defesa, a fuga. Em “How to Do the Work” a psicóloga Nicole LePera considera que o silêncio é muitas vezes uma resposta de sobrevivência de um sistema nervoso que não sabe processar o confronto. O desaparecimento funciona como um escudo contra a vulnerabilidade, é o digital a oferecer uma saída de emergência para quem possa temer intimidade ou rejeição. O psicólogo Seth Meyers olha para este comportamento como uma incapacidade de gerir a culpa, onde a pessoa prefere tornar-se num fantasma a ter de sustentar o peso do desconforto alheio. O digital permite que a pessoa se proteja num vácuo onde não precisa de lidar com as consequências emocionais da sua partida.

Por outro lado, há um optimismo ilusório no ghosting. O autor do silêncio acredita muitas vezes que desaparecer é um acto que poupa o outro da dor da rejeição directa. Todavia, esta suposta empatia é falaciosa. Segundo investigações de Williams & Nida, este vácuo de comunicação é processado pelo cérebro de forma semelhante à dor física, provando que a ausência de uma resposta clara não é uma omissão neutra, mas uma forma de agressão psicológica que prioriza a fuga do emissor em detrimento do direito à verdade do receptor. Não existe um closure e o autor do silêncio alimenta uma auto-imagem de “pessoa boa” ao fugir do diálogo com a outra pessoa. 

Podemos ainda olhar para o ghosting como um exercício de controlo absoluto. Ao desaparecermos estamos a evitar a parte mais difícil de qualquer relação, lidar com a reacção do outro. Numa conversa fora do digital, não controlamos a tristeza, a raiva os ou argumentos. No silêncio, pelo contrário, mantemos uma ilusão de “onipotência”. Decidimos sozinhos quando a história acaba, sem o risco de sermos confrontados com a nossa própria culpa ou imperfeição. É, no fundo, uma forma de manter o outro “congelado” no tempo. Ao não darmos um desfecho, impedimos que o outro nos dê uma resposta que nos possa ferir. 

O ghosting é o espelho que evitamos olhar. Ao normalizarmos o vácuo, não estamos só a gerir notificações, estamos também a moldar uma sociedade onde a conveniência derrota a coragem. Esta arquitectura do facilitismo digital, que nos permite evaporar, é o mesmo potenciador que nos desaprendeu a sustentar o olhar do outro. O silêncio, deixa de ser uma ausência de som para se tornar uma presença pesada, um lembrete de que, ao fugirmos de conversas difíceis, estamos a tornarmo-nos emocionalmente mais frágeis. A verdadeira questão não é por que é que as pessoas desaparecem, mas o que é que resta de nós quando decidimos que o outro já não merece sequer um adeus. Talvez a ausência seja a nossa única forma de estarmos sozinhos em conjunto. Protegidos pelo vidro do ecrã, escolhemos o conforto da omissão. Resta a dúvida: estaremos a salvar-nos do outro ou a perder-nos de nós próprios, na ilusão de que o silêncio é uma resposta e a solidão um porto seguro?



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