Graças à Netflix (e não só) a comédia, nas mãos certas, é uma das melhores formas de encarar a vida

por Rui André Soares,    9 Julho, 2018
Graças à Netflix (e não só) a comédia, nas mãos certas, é uma das melhores formas de encarar a vida
Hannah Gadsby: Nanette
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Quase dois meses depois de ter Netflix, e de explorar os conteúdos da plataforma de uma forma intensiva, posso dizer que hoje penso a televisão de uma forma bem diferente. De facto, a Netflix revolucionou a nossa maneira de encarar e consumir conteúdos.

Vim do cinema e quase sempre do cinema de autor, estive muitos anos mergulhado nesse mundo (e que mundo) e, portanto, devo-lhe um enorme respeito. Para além disso, sei bem que se quiser voltar a mergulhar e a repensar a humanidade de uma forma mais ou menos profunda tenho sempre os filmes do Bergman, Lynch, Tarkovsky, Antonioni, Pedro Costa, Godard ou Roehmer. Sei bem que olhar para o passado é saber pensar o presente e portanto voltarei sempre aqui e ao cinema de autor que se faz hoje em dia.

Voltando à Netflix, “Comedians In Cars Getting Coffee”, do ilustre comediante Jerry Seinfeld, é uma das séries que me tem dado grande prazer por ter bons convidados, por ser de episódios curtos, que posso ver a qualquer altura, e que por ser sobre “nada” não me dá a sensação de perda de tempo se um episódio não for bom.
Seinfeld criou uma série onde não há propriamente um guião de perguntas, há sim um convite para ir tomar café com um/uma comediante (salvo raras excepções, como foi o caso de Barack Obama) e que acaba numa viagem num carro icónico, seja antigo ou moderno, e que de alguma forma encaixa com o convidado. Depois, essa mesma viagem acontece pela cidade do convidado e onde (aparentemente) se pode falar de quase tudo. Ao que parece, e segundo consegui perceber ao ver as várias temporadas, cada episódio é gravado durante 6/8 horas – um verdadeiro dia a passear de carro e por cafés/restaurantes -, e que no fim a produção aproveita apenas 20 min.

Mas nem só de séries de comediantes vive a Netflix, há também stand-ups e espectáculos especiais de comediantes e no meu caso é um outro novo mundo por explorar. O stand-up comedy é agora também para mim uma nova forma de me olhar ao espelho e de tentar descodificar o hoje contemporâneo. O espectáculo “Hannah Gadsby: Nanette” é um excelente exemplo disso mesmo. Tenho um “amigo de Facebook”, o João M. Carvalho, e que após eu expressar este meu contentamento com o stand-up que a Netflix me deu, comentou o seguinte:

“A comédia nas mãos certas, e da forma como essa indústria se desenvolveu os EUA, acaba por desempenhar o papel que a Filosofia antes desempenhava, uma conversa despedia, sobre a posição da civilização humana nos tempos que a mesma acompanha. A corrente non-sense é uma consequência e, ao mesmo tempo uma solução, à fatiga da auto-reflexão”

E de facto é precisamente isto que acontece, o espectáculo da comediante Hannah Gadsby é talvez o expoente máximo disto mesmo. Mas há outros exemplos e com carreiras sólidas, como é o caso do Rick Gervais, Dave Chappelle, Sarah Silverman ou até do Chris Rock. Todos eles têm espetáculos especiais na Netflix e todos eles foram conduzidos nos carros guiados por Jerry Seinfeld no “Comedians In Cars Getting Coffee”. Por tanto, este programa é uma boa forma para termos uma pequena ideia de quem é cada pessoa por detrás da máscara do comediante. Ou será que é ao contrário? Segundo o Dave Chappelle não há máscara quando se está em palco, há é quando se está fora dele:

“Toda a gente pensa que o tipo em palco é o tipo falso. Mas o tipo fora do palco é que é falso. O tipo em palco é o verdadeiro. O tio fora do palco é o que mente às pessoas só para que esse tipo possa continuar a existir.”

Estive até agora a falar de séries, mas a ideia de quem gere a Netflix vai muito mais longe do que isso. Só este ano a gigante do streaming vai produzir 82 filmes. O único estúdio a assumir tal investimento. Por exemplo, e só para comparar, a Warner Bros. vai lançar 23 filmes durante este ano, e a Disney (o estúdio mais rentável de Hollywood) vai produzir apenas 10.
Portanto, e para os mais cépticos, a Netflix parece que veio mesmo para ficar e se continuar a compor o seu catálogo com conteúdos originais e “não originais” será muito difícil de lhe resistir.

Sugestões de conteúdos Netflix:
“Hannah Gadsby: Nanette”
“Sarah Silverman: A Speck of Dust”
“Jim & Andy: The Great Beyond”
“George Harrison: Living in the Material World”
“Dave Chappelle: Equanimity & The Bird Revelation”
“Wild Wild Country”
“Ricky Gervais Live: Animals”
“Ricky Gervais: Humanity”
“Comedians In Cars Getting Coffee”
“Chris Rock: Tamborine”

Não foi referenciada nenhuma nota sobre espectáculos aos vivo, mas, recentemente, também tenho tido o prazer de ir a vários espectáculos de stand-up em sala. E essa é a melhor forma de encararmos a experiência da comédia.

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