Há dez anos, os Capitão Fausto diziam que tinham os dias contados. Mentiram
É um clichê. Falar sobre Capitão Fausto Têm os Dias Contados implica começar pela frase que serve de síntese a estes poucos mais de 30 minutos de magnifique pop rock. Na canção que encerra o disco, “Alvalade Chama Por Mim”, Tomás Wallenstein canta, com a certeza de que a nostalgia é um alucinogénio falível, que, para si e para os seus camaradas, a mocidade havia terminado (“Nunca esquecer que a mocidade para nós chegou ao fim”; “Nunca esquecer que a mocidade nunca mais nos vai servir”). Em 2016, para os Capitão Fausto, era hora de passarem a ser adultos. Faz esta semana dez anos que isso ocorreu.
Capitão Fausto Têm os Dias Contados serve como registo do compromisso da banda com a sua recém-encontrada maturidade – musical e pessoal. Para Tomás Wallenstein (voz, guitarra, letra), Domingos Coimbra (baixo), Francisco Ferreira (teclas), Manuel Palha (guitarra, teclas) e Salvador Seabra (bateria), muito já tinha mudado desde 2009, ano em que fizeram essa coisa que às vezes os amigos fazem: juntar-se para começarem a fazer barulho. Sete anos depois já tinham deixado de ser a banda que fazia rock meio-garageiro descomprometido e jovial para passarem a ser a banda que pretendia ser culta e adulta (como a RTP2). Pelo meio, assinaram por uma das grandes editoras multinacionais (a Sony Music Portugal) e iniciaram a história do coletivo/editora Cuca Monga, que, entretanto, se tornou numa referência para o universo alternativo português.
Além disso, as suas (aparentes) influências mais assumidas deixaram de ser os Franz Ferdinand, os Arctic Monkeys e Os Pontos Negros, muito fáceis de discernir nas canções do EP homónimo de estreia (2010) e de Gazela (2011), primeiro longa-duração da banda – um clássico –, e passaram a ser os Beach Boys, os Beatles, Burt Bacharach, Scott Walker, B Fachada, Mac DeMarco. Pelo meio, como qualquer hipster que teve uma banda na troca de década entre os 2000 e os 2010, fizeram um disco – Pesar o Sol (2014) – em que se assumiram como fãs (demasiado) acérrimos de Tame Impala. Faz todo o sentido quando nos lembramos que isto eram os tempos, como relembrou recentemente Alex D’Alva Teixeira ao Ípsilon, “da Vodafone FM e do hipsterismo como cultura dominante”. Os tempos do pós-FlorCaveira e da devoção ao B Fachada, da Antena 3 como dinamizador da nova canção portuguesa.
No entanto, indicar apenas os Franz Ferdinand, os Arctic Monkeys e Os Pontos Negros como referências primordiais dos Capitão Fausto é uma versão simplista sobre a linhagem musical da banda. Em várias canções de Gazela, em particular as da segunda metade do álbum (“Gazela”, “Zécid” e “Raposa”), escutam-se já algumas das referências mais progressivas e barrocas que os Capitão Fausto exploraram com mais afinco nos seus trabalhos discográficos seguintes. Essa linha de continuidade que existe entre Gazela e Os Dias Contados é crucial para entender o percurso musical da banda. Logo em Gazela, demonstraram uma capacidade fora do normal de escrever eficazes canções de pop rock. Em simultâneo, demonstraram ser uma banda com potencial para erguer composições mais aventurosas e arrojadas. Em Pesar o Sol, foi isso que fizeram.

A extensão de canções como “Nunca Faço Nem Metade”, “Maneira Más” ou “Lameira” confirmou que, ao segundo disco, a experiência (de estúdio e de estrada) dos Capitão Fausto permitiu-lhes ser uma melhor banda (a experimentação em projetos paralelos como Modernos, Bispo e El Salvador também ajudou), sem dúvida. Todavia, ainda necessitavam de dar um salto extra na maturidade artística. Afinal, apesar de grandes momentos como “Célebre Batalha de Formariz”, Pesar o Sol contém algumas das composições mais derivativas da banda, como “Tui”. Para os Capitão Fausto, era necessário ir à procura de algo diferente.
Foi a partir dessa busca que surgiu Capitão Fausto Têm os Dias Contados. Se antes de 2016 os Capitão Fausto estavam a traçar o caminho para se tornarem numa das bandas mais importantes da cena musical portuguesa, Os Dias Contados confirmou esse estatuto. É um colosso do pop rock nacional ao nível dos grandes discos do boom do rock português da década de 80, e um dos álbuns mais importantes da música feita em Portugal durante a década de 2010.
Logo nos primeiros acordes de “Morro na Praia”, percebemos que existem diferenças importantes entre os Capitão Fausto que escutamos em Os Dias Contados e a banda que compôs Gazela e Pesar o Sol. Os sintetizadores ocupam mais espaço nas composições, as guitarras soam mais melosas, Wallenstein quase fala (ou arranha) mais do que canta e apresenta um maior domínio da língua portuguesa e da sua poesia (nota-se a sua devoção a B Fachada). Além disso, em comparação com Pesar o Sol, as canções d’Os Dias Contados têm muito menos camadas que as do seu predecessor. Isso foi propositado.

Numa entrevista concedida ao Ípsilon em 2016, Francisco Ferreira afirmou que existiu o pretexto de quebrarem em Os Dias Contados com o que tinham feito em Pesar o Sol. Quiseram “rapar” as canções ao essencial para cumprirem o objetivo que, de certa forma, tinham-se proposto inconscientemente desde Gazela: escreverem canções pop. Como Pedro Rios afirmou no Público, os Capitão Fausto eram “psicadélicos, sim, mas o psicadelismo dos rapazes de Lisboa é quase sempre vertido para matéria pop, democrática, trauteável pela multidão”. As canções do terceiro longa-duração da banda cumprem essa função na sua totalidade. Contudo, o que eleva verdadeiramente as canções d’Os Dias Contados ao estatuto de hino é a quantidade de “versos que parecem slogans, de tão certeiros”, assim assinou Tiago Pereira no Observador, que Wallenstein escreve e canta. O puto que colocou o maço na mesa, a mão na Teresa e os pés no chão, cantava agora coisas como “Eu vou morrer / Mas antes vou aproveitar bem” (na belíssima “Os Dias Contados”), “Amanhã tou melhor mas ontem tive na merda / Sem emenda, p’ra variar” (nessa grande canção pop que é “Amanhã Tou Melhor”) e, claro, “Nunca esquecer que a mocidade para nós chegou ao fim”.
Esse autoquestionamento e autocomiseração que preenchem muitas das canções d’Os Dias Contados e que, entretanto, se tornaram intrínsecas à mais recente obra discográfica dos Capitão Fausto, confere-lhes um estatuto relacionável para qualquer indivíduo perdido entre a adolescência e os primeiros tempos de jovem adulto. Os assombramentos de Tomás Wallenstein, sobre os quais escreveu, podiam muito bem ser os nossos.
Contudo, antes d’Os Dias Contados, já Wallenstein tinha lançado para o ar alguns destes questionamentos. Em “Lameira”, por exemplo, lançou algumas das sementes existenciais que brotaram em todo o seu esplendor em Os Dias Contados quando cantou “Partir de repente é melhor que se arrastar / Nesta fachada que fica por restaurar”. O tique-taque do relógio da vida já começava a assombrar Wallenstein e, por arrasto, os Capitão Fausto. Até onde poderiam ir nessa coisa de ter uma banda? De fazer canções? A procura pela(s) resposta(s) a essas perguntas só poderia surgir a partir da “reflexão agridoce sobre a passagem inexorável do tempo e o que vai ficando pelo caminho”, assim escreveu Ricardo Romano no Altamont, que é Capitão Fausto Têm os Dias Contados.
Dez anos depois de terem atrevidamente afirmado que tinham Os Dias Contados, os Capitão Fausto ainda andam por aí. Por muitos memes e piadas que tenham surgido com o tempo, e por muitas “cópias” (Ganso, NAPA, Nunca Mates o Mandarim, etc.) dos Fausto que tenham aparecido – uma natural consequência do sucesso da banda, para o bem e para o mal –, ainda são, sem dúvida alguma, uma das melhores bandas nacionais. Mesmo que A Invenção Do Dia Claro (2019) e Subida Infinita (2024) sejam excelentes discos à sua maneira, não possuem a total magia que borrifa a plenitude de Capitão Fausto Têm os Dias Contados. Em janeiro, apresentaram um desfile de “passerelle de êxitos indie”, como relatou Kenia Pollheim Nunes na Blitz. Se havia dúvidas de que os Capitão Fausto são os herdeiros mais próximos dos GNR e dos Xutos Pontapés como reis e senhores do pop rock português, dissiparam-se. Consagraram-se.

Quando aos 18 anos escutei Os Dias Contados pela primeira vez, foi um dos principais álbuns que me mudou a perceção sobre música cantada em português (isto é bem provável de ser outro clichê, agora que penso nisso). É um dos discos que mais marcou a minha vida, até porque foi em 2016 que vim parar a essa cidade do diabo que viu nascer os Capitão Fausto: Lisboa. E Os Dias Contados é um disco que, apesar de conter dentro de si uma universalidade, é intrinsecamente lisboeta e burguês. Não dá para escapar a isso. Representa as tramoias e dúvidas de alguém que tem a capacidade e o privilégio de poder amarrar as suas próprias pontas soltas numa cidade em transformação. A própria banda sabia disso. Em conversa com a Blitz em 2016, Tomás Wallenstein afirmou que, apesar de todo o sucesso que os Capitão Fausto tinham, às vezes não fazia “rendimento suficiente para pagar uma renda”. “Muito honestamente e tentando não ser politicamente incorreto, se eu não fosse burguês isto não era possível”, complementou.
Com 18 anos, não tinha noção do quanto a minha realidade estava distante daquilo que era a verdade dos membros dos Capitão Fausto. Estes cantavam músicas para a “geração dos recibos verdes”, mas não pertenciam exatamente a essa classe social. Há dez anos, imaginava que as canções dos Capitão Fausto fossem soar mais relacionáveis quando atingisse os 28. Enganei-me. Agora, com quase essa idade, estou mais do que ciente que a minha “mocidade”, apesar de alegadamente estar concluída, parece infinita. O passado parece tão perto e o futuro tão distante e incerto. É uma prisão. Já não sou um “jovem”, mas as minhas condições materiais não me permitem começar a vida de adulto que supostamente vem com o término da mocidade. Pago IRS, tenho um trabalho das 9 às 5, mas salário para ter uma casa própria? “A espera vai longa, a posição já cansou”. Não há cortisona que me (e nos) salve.
De alguma forma, estas contradições incutiram-me alguma distância face àquilo que os Capitão Fausto cantam em Os Dias Contados. As canções, claro, continuam fabulosas. É escutá-las e repeti-las até o CD riscar. Mas ao contrário daquilo que Wallenstein cantava em “Amanhã Tou Melhor”, não consigo “decidir o que vou parecer”. Não existe essa possibilidade nestes tempos que correm e a esperança dessa chance ocorrer está cada vez mais pequena. Nesse sentido, a janela do tempo que Os Dias Contados dos Capitão Fausto abre é outra. Os derradeiros momentos de “Alvalade Chama Por Mim” é o eco de uma realidade impossível de alcançar.
