Há uma epidemia a ir aos bolsos dos portugueses. Chama-se jogo
Há uma mentira que entra em casa pela televisão, pelo telemóvel e pela janela da papelaria da esquina: a de que jogar pode mudar uma vida. Apostar não é rendimento extra, é dinheiro perdido. Em tempos em que tanto se fala de literacia financeira, há duas verdades que precisam de ser ditas sem rodeios: se jogas para ganhar dinheiro, vais perder; se jogas para recuperar o que perdeste, estás viciado. O jogo é pernicioso precisamente porque não parece perigoso: combina o prazer imediato com mecanismos de adição desenhados para prender. É uma epidemia silenciosa que vai ao bolso dos portugueses, e é preciso fazer algo para a travar.
O jogo não é só um problema financeiro, mas também um de saúde pública. Há famílias, relações e vidas destruídas por causa do jogo. A psiquiatra Inês Homem de Melo menciona num dos episódios do podcast “Como Assim” dedicado a este tema que apenas um dos seus muitos pacientes começou a ser tratado por vontade própria. Os restantes só chegaram ao tratamento quando o problema já tinha transbordado para quem os rodeava. Isto revela como é difícil para quem joga reconhecer o problema e dar o passo de procurar ajuda. Percebe-se porquê: normalizámos de tal forma este comportamento que apostar parece hoje tão banal quanto ir ao café. Mas não é. Quem joga bastante, embora possa ganhar intermitentemente alguma coisa, está destinado à ruína financeira. Quem ganha é sempre a casa.
E os números confirmam-no. Em 2025, cada português gastou em média 270 euros em jogo online. Se há cerca de cinco milhões de registos em plataformas online em Portugal, sendo que uma pessoa pode estar registada em vários sites, o valor sobe para 540 euros por registo. É importante ainda dizer que, segundo um estudo da Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online (APAJO) feito no final de 2025, cerca de 40% dos jogadores online continuam a utilizar plataformas ilegais, o que indica que há muito mais dinheiro que é impossível de contabilizar.
A nível físico, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é a que mais lucra com o mecanismo aditivo de resposta rápida. A raspadinha gerou 1.848 milhões de euros, o equivalente a 180 euros por cada português. E não é coincidência que sejam as pessoas com rendimentos mais baixos quem jogue mais: de acordo com o estudo “Quem Paga as Raspadinhas”, da Universidade do Minho, realizado em 2023, quem está na faixa de rendimento entre 400 e 664 euros mensais tem uma probabilidade três vezes superior de jogar do que quem ganha mais de 1500 euros, e quem recebe entre 665 e 999 euros apresenta uma probabilidade de jogo frequente 2,4 vezes superior. O Estado tem aqui uma responsabilidade fundamental: deve começar por dar o exemplo para ter mais legitimidade a legislar sobre a publicidade e o funcionamento do jogo online, porque neste momento, as raspadinhas funcionam como um imposto regressivo: quem menos tem é quem mais contribui para as receitas do jogo.
Ouvindo os episódios do podcast “Como Assim“, do Público, sobre este tema, fiquei com a ideia de que o verdadeiro problema não é o jogo em si, mas os mecanismos presentes em certos tipos de jogo que potenciam a dependência. As respostas cerebrais rápidas à antecipação, ao resultado imediato, ao ciclo veloz de perda e à nova aposta são o que cria adição. É por isso que as raspadinhas ou as apostas em jogos ao vivo são particularmente perigosas: foram desenhadas para maximizar precisamente essa resposta. São estes mecanismos que as casas de jogo exploram para viciar quem joga, criando uma relação de subserviência entre o jogador e quem gere o negócio.
O grande argumento contra uma maior regulamentação destes jogos é o da liberdade: uma pessoa deve ser livre para fazer o que quer e o Estado não deve proibir a sua ação. E eu concordo em grande parte, é importante deixar claro que não defendo a proibição do jogo. Não acho que uma coisa só por ser má deva ser banida. Aliás, não quero viver numa sociedade em que somos todos fit, ninguém bebe e ninguém fuma por decreto. Contudo, nas várias propostas apresentadas, quer politicamente, quer por médicos especialistas, não estamos a falar disso. Estamos a falar de dar mais informação aos utilizadores e de impedir que existam operadores de jogo que tornem pessoas reféns do vício. No fundo, é sobre dar mais liberdade real de escolha não de a retirar.
Além de todo este problema, toleramos comportamentos eticamente indefensáveis. Há influencers que ganham uma percentagem das perdas dos seus seguidores através de códigos de jogo: quanto mais o seguidor perde, mais o influencer lucra. O incentivo não podia ser mais perverso. Mas há quem vá mais longe e cometa crimes: promovem casas não licenciadas, mostrando-se a ganhar centenas de euros em vídeos fabricados, recrutando seguidores para plataformas onde qualquer um, incluindo menores, pode abrir conta sem qualquer registo de idade. A APAJO já apresentou queixas-crime contra mais de 30 influencers, o Ministério Público abriu inquérito a 17 figuras públicas que promoveram jogo ilegal junto de milhões de seguidores, e nunca foi deduzida nenhuma acusação. O Estado assiste a crimes que acontecem à vista de todos, de braços cruzados. Há momentos em que aplicar a lei não é retirar liberdade, é garantir que ela existe. Fechar casas ilegais e punir quem as publicita não é uma questão ideológica, é um dever do Estado.
Não queremos viver numa sociedade em que o homem é a presa do próprio homem. É precisamente isso que as casas de jogo fazem: vestem-se de liberdade, mas o que oferecem são algemas. Cada promoção, cada bónus de boas-vindas, é um convite cuidadosamente desenhado para prender, não para libertar. Uma pessoa verdadeiramente livre é aquela que toma decisões informadas, sem ser manipulada por algoritmos desenhados para a viciar, ou por publicidade feita por influencers pagos para a enganar. E enquanto não tivermos coragem coletiva de reconhecer isto, o único jackpot garantido continuará a ser o das casas de jogo, à custa do bolso dos portugueses.
Recomendações do cronista:
O segundo episódio do podcast Como Assim dedicado ao jogo online é, a todos os títulos, jornalismo a sério, mas com o ritmo e a tensão de uma série de thriller que nos faz vibrar ao longo do episódio. A montagem, as entrevistas e a narração de Inês Rocha constroem uma história que, se não fosse real, pareceria ficção: um esquema de criminosos a operar à luz do dia, sem consequências. Vale a pena ouvir até pelo valor de entretenimento.
O livro Solaris por Stanisław Lem. Escrito em 1969, acho que ainda hoje é mais atual do que quando foi escrito. Numa era dominada pela Inteligência Artificial e na qual as máquinas parecem falar connosco como se fosse humanos, Solaris leva-nos a investigar as profundezas de nós mesmos, numa viagem espacial. Acho que não há melhor resumo que na contracapa: “O Homem partiu em busca de outros mundos, de outras civilizações, sem conhecer inteiramente os seus próprios recantos, os seus becos sem saída e abismos, e sem saber o que está por detrás das suas portas negras”.
