Hiroshima: 80 anos depois

por José Malta,    1 Setembro, 2025
Hiroshima: 80 anos depois
Fotografia de Desmond Tawiah / Unsplash

Este artigo foi escrito após uma visita ao Japão, entre os dias 4 e 18 de Agosto, numa altura em que o país assinalava os 80 anos do lançamento das duas bombas atómicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki. A passagem por Hiroshima decorreu entre os dias 14 e 17 de Agosto, onde foram adquiridas as fotografias, os testemunhos e os relatos apresentados neste artigo.

O Japão é actualmente uma das maiores potências económicas a nível mundial, um dos países com maior população, uma referência do desenvolvimento tecnológico e um exemplo de sucesso no que toca a diversos sectores como indústria, educação e cultura. É também no Japão que encontramos aquela que é a cidade mais populosa do mundo, Tokyo, com cerca de 14 milhões de habitantes na cidade em si, e cerca de 37 milhões na área urbana. Inicialmente denominada Edo, esta passaria a ser a casa do Imperador desde 1869 após a Revolução Meiji, e consequentemente a capital do Império do Japão. Tokyo viria a ser destruída várias vezes por diversos terramotos e por diversos ataques durante a Segunda Grande Guerra como o bombardeamento em Março de 1945, sendo reerguida constantemente de forma rápida e eficaz, tornando-se na maior metrópole do mundo. 

Região Metropolitana de Tóquio vista da Estação Espacial Internacional à noite / NASA

Encontramos ainda outras cidades de enorme renome e dimensão no Japão, como Yokohama, Osaka, Nagoya, Sapporo, Fukuoka, Kobe, Kyoto, e ainda Saitama a fechar a lista das dez cidades mais populosas com Tokyo no topo. Algumas destas cidades são mais conhecidas pela matriz cultural e histórica do que pela sua dimensão em si. Kyoto, por exemplo, é conhecida por essa mesma matriz, pelos templos budistas, pelos santuários xintoístas, por ter sido a capital do império durante mais de mil anos, entre 794 e 1868, e também pelo famoso protocolo assinado em 1997 por grande parte dos países do mundo com o objetivo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Porém, fora das dez maiores cidades do Japão, encontra-se aquela que se tornou mundialmente conhecida e praticamente tão famosa como as anteriores, não tanto pela sua dimensão, mas sim por ter sido alvo de um ataque que comprovaria que o ser humano teria o poder de se autodestruir a si e ao mundo que o rodeia e que culminaria com o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Às oito horas e quinze minutos da manhã do dia 6 de Agosto de 1945, quando o Japão era o único país do eixo que resistia à rendição, numa altura em que os outros dois países do eixo Alemanha e Itália estavam completamente derrotadas, os Estados Unidos da América lançaram Little Boy, o nome de código da arma cuja potência e destruição seriam avassaladoras: a bomba atómica. É aqui que encontramos Hiroshima, uma cidade cujo nome, embora possa estar associado ao que determinou o fim da Segunda Grande Guerra, está associado ao palco de um terror nunca antes testemunhado.

A nuvem em forma de cogumelo sobre Hiroshima após a detonação de Little Boy a 6 de Agosto de 1945 / DR

Na altura, Hiroshima tinha cerca de 400 mil habitantes e uma longa história que remonta desde o século XII, sendo a sétima cidade mais populosa do Japão. Contudo, o grau de destruição foi tal que nunca mais regressou a tal posição no lote das maiores cidades, embora a notável reconstrução tenha permitido a sua recuperação, continuando a ser ainda uma grande cidade japonesa. Revisitar Hiroshima 80 anos depois de um dos maiores massacres da humanidade, que causou vários milhares de vítimas mortais e outros tantos milhares que ficaram gravemente afectados para o resto das suas vidas, é também um momento de reflexão para a paz no mundo. Numa altura em que existem várias guerras a decorrer e a causar sofrimento a milhões de pessoas, ainda continuam a ser produzidas armas nucleares e o desarmamento está ainda muito longe de ser uma realidade.

Porquê Hiroshima? E logo a seguir Nagasaki?

Muitos perguntam o porquê do bombardeamento das duas cidades que se tornaram cobaias daquela que viria a ser a arma mais letal alguma vez testemunhada até à data. De facto, a rendição do Japão, que viria ser o fim oficial da segunda grande guerra, seria acelerada caso os Estados Unidos usassem a bomba atómica. Mas outro factor estava geográficamente muito próximo do Japão: a supremacia da União Soviética. Uma eventual demonstração de poder à União Soviética seria para os Estados Unidos uma vitória, quando a guerra já estava practicamente ganha e o mundo passaria rapidamente a estar dividido entre o Leste e o Ocidente. Tal conduziria à Guerra Fria que só terminaria no início da década de 90, após a queda do Muro de Berlim, a desintegração da União Soviética e o fim do regime dos países do Pacto de Varsóvia. 

O projecto Manhattan iniciado em 1942, e liderado por J. Robert Oppenheimer, visava a construção da bomba atómica como medida preventiva para um eventual sucesso da Alemanha Nazi na execução de tal arma. Em 1941, após o ataque do Japão a Pearl Harbour, os Estados Unidos entrariam oficialmente na guerra ao lado do Reino Unido e da União Soviética. O primeiro teste à Trinity, a primeira bomba de implosão de plutónio, só aconteceria a 16 de Julho de 1945 no deserto Jornada del Muerto, no Novo México. A bomba atómica poderia ser assim eventualmente lançada num cenário de combate sendo, à data, a arma mais letal alguma vez descrita na história da humanidade. O produto final deste projecto conseguiria arrasar qualquer cidade, provocando vários milhares de vítimas mortais, e os Estados Unidos tinham essa arma em sua posse. 

Fotografia tirada de um avião japonês durante um ataque de torpedos a navios atracados em ambos os lados da Ilha Ford, logo após o início do ataque a Pearl Harbor / Fotografia da Marinha Imperial Japonesa

Já há muito que os Estados Unidos tinham identificado o Japão como principal alvo de uma eventual arma nuclear. Em 1944 Franklin Roosevelt terá dito numa conversa com o primeiro ministro do Reino Unido à data, Winston Churchill, que uma eventual bomba poderia ser utilizada contra o Japão, de forma a assegurar a sua rendição. Roosevelt, que faleceria em abril de 1945, viria a ser substituído no cargo pelo seu vice-presidente, Harry Truman, que passaria a liderar os destinos do país assim como o seu papel no desfecho da Segunda Guerra Mundial. Consta-se que Truman terá confidenciado a Josef Stalin durante a conferência de Potsdam, que incluiria também o Primeiro Ministro britânico Clement Attlee, sobre o uso de “uma arma potente” caso o Japão recusasse os termos de rendição propostos pelas forças aliadas. 

De facto, o Japão não cedeu aos pedidos de rendição e manteve-se firme na sua posição. É discutível que fosse apenas uma questão de tempo, tendo em conta que já teriam perdido os seus dois maiores aliados e que já se encontravam praticamente isolados. Há quem considere também que o Japão devesse ter apresentado a rendição há mais tempo, nomeadamente quando Tokyo foi bombardeada entre 9 e 10 de Março de 1945, ataque esse que causaria cerca de 100 mil vítimas mortais e que seria um duríssimo golpe para um Japão que ainda resistia em continuar no combate. Apesar de tudo isto, e com o mais recente sucesso da Trinity, para os Estados Unidos, o tempo do Japão já se tinha esgotado, e não havia mais a perder.

Tibbets quando general / Fotografia da Força Aérea dos Estados Unidos

Hiroshima era uma importante cidade industrial com uma vertente militar. Era lá que se situava um dos quartéis-generais do Exército Japonês, e nunca tinha sido alvo de ataques ou bombardeamentos anteriormente. A sua destruição teria um impacto demolidor sobre um Japão que continuava a resistir a uma eventual rendição, quando os outros países do eixo, Alemanha e Itália, já o tinham feito. Às oito horas e quinze minutos da manhã do dia 6 de Agosto de 1945, o avião Enola Gay pilotado pelo coronel Paul Tibbets (o nome do avião foi dado em honra à sua mãe), lançava a bomba que viria a arrasar a cidade. Quanto a Nagasaki esta foi bombardeada três dias depois, a 9 de Agosto. O alvo inicial era uma outra cidade que se encontrava a 200 quilómetros a norte de Nagasaki: Kokura. Porém, as condições climáticas e a fraca visibilidade tornavam difícil observar o alvo e fizeram com que os Estados Unidos optassem pelo plano B, neste caso, Nagasaki. No entanto, Hiroshima foi quem ficou com o maior estatuto por ser a primeira cidade do mundo a ser alvo de uma arma nuclear.

Little Boy e Fat Man: os dois protagonistas do palco horror

Little Boy e Fat Man foram as duas bombas que arrarsaram com Hiroshima e Nagasaki, respectivamente. Foram, até hoje, as duas armas nucleares a serem utilizadas num cenário de guerra, tornando o Japão o único país que até hoje foi vítima de um ataque com armas nucleares. Little Boy usava como combustível Urânio-235 enquanto Fat Man utilizava Plutónio-239. Ambas as bombas tinham pesos de semelhantes (Little Boy 4.4 e Fat Man 4.67 toneladas), mas a potência de Fat Man era superior à de Little Boy (21 e 15 mil toneladas de TNT – Trinitrotolueno, respectivamente). A potência de ambas era suficiente para arrasar com uma cidade inteira, destruindo grande parte das suas infraestruturas e causando vários milhares de mortos e feridos.

Hiroshima depois do bombardeio de 6 de Agosto de 1945 / DR

Os dois bombardeamentos que causariam a morte de mais de 200 mil pessoas (140 mil em Hiroshima e 74 mil em Nagasaki), levariam a que o imperador Hirohito apresentasse a rendição ao país no dia 15 de Agosto. A rendição formal só viria a ser feita no dia 2 de Setembro quando o general Douglas MacArthur aceitou o pedido apresentado pelo Japão, dando-se o desfecho oficial da Segunda Guerra Mundial. Contrariamente à Alemanha, que fora dividida em diferentes zonas, o Japão foi colocado sob uma única autoridade de ocupação: o Comando Supremo das Forças Aliadas, liderado pelo então general americano Douglas MacArthur. 

Embora outros países tenham participado num papel consultivo através da Comissão do Extremo Oriente e do Conselho Aliado para o Japão, os Estados Unidos detinham o controlo decisivo, pretendendo uma rápida estabilização de forma a impedir a influência soviética. Em 1947 o Japão adoptou uma nova constituição e foram implementadas reformas agrárias, políticas e económicas sob supervisão dos Estados Unidos. Com o Tratado de São Francisco, em 1952, o Japão recuperaria a sua soberania, passando a estar fortemente alinhado com o Ocidente.

Memorial da Paz: o edifício que se tornou num símbolo da cidade

A Cúpula Genbaku, hoje conhecida como a Cúpula da Bomba Atómica ou Memorial da Paz de Hiroshima é a figura central da cidade. Desenhada pelo arquitecto checo Jan Letzel, o edifício teve como finalidade receber exposições, feiras, mercados que pudessem promover a vertente tecnológica e industrial da região. Sendo uma estrutura europeia, não estava, por exemplo, preparada para terramotos como grande parte das estruturas japonesas. Contudo, a cúpula era feita de aço, o que a diferenciava de boa parte das construções japonesas e conferia uma maior resistência. O edifício era semelhante ao do Ministério do Comércio e Indústria de Praga, que fora construído anos mais tarde em 1932, e que continua em funcionamento nos dias de hoje.

Memorial da Paz de Hiroshima / Fotografia de José Malta

A explosão da bomba, que ocorreu 160 metros acima da cúpula, teve praticamente uma força vertical sobre o edifício e não fez com que este tivesse sido totalmente destruído. As condições arquitectónicas e os materiais envolvidos na sua construção, impediram também a sua total destruição. O edifício deveria ser demolido, assim como os restantes em ruínas, após a queda da bomba. No entanto, como fora dos um dos poucos que parcialmente resistiu, foi preservado e em 1996 a UNESCO declarou-o como Património Mundial, simbolizando o sofrimento e os horrores da guerra nuclear bem como o compromisso da humanidade com a paz.

Para além do memorial, outros elementos existem que fazem parte do chamado Parque do Memorial da Paz de Hiroshima. O Cenotáfio para as Vítimas da Bomba Atómica é um dos elementos em representação das vítimas da bomba atómica de Hiroshima. Em frente a este monumento, encontra-se a chama da paz que permanece acesa até que o mundo abdique do fabrico de armas e de testes nucleares. Para além de outros edifícios e monumentos, existe ainda o Museu da Bomba Atómica, ou Museu do Memorial da Paz de Hiroshima, que se encontra em funcionamento desde 1955 e que pretende mostrar a devastação da cidade do bombardeamento atómico, defender a abolição das armas nucleares e promover uma paz duradoura.

Hibakusha: os sobreviventes da bomba atómica

Existe um nome específico para o grupo de pessoas que foram vítimas dos efeitos da bomba atómica: hibakusha, que significa em japonês “pessoa afectada pela bomba”. Muitos ainda permanecem vivos e guardam as memórias do horror que Little Boy e Fat Man provocaram. O número começou por ser 650 mil, e hoje estima-se que sejam à volta de 100 mil. Para além de graves mazelas provocadas pela radiação, nomeadamente doenças como cancro, queimaduras, doenças de pele e de diversos outros órgãos, os hibakusha foram também discriminados em vários níveis. Criou-se um estigma de que eram “contagiosos”, e a nível de relações pessoais, como casamentos, havia situações que não eram bem aceites por determinadas famílias. Os hibakusha, para além de terem ficado afectados para sempre a nível de saúde e com limitações, lutaram também contra a descriminação que lhes foi feita durante décadas.

Parque do Memorial da Paz de Hiroshima / Fotografia de José Malta

Um dos muitos hibakusha que sobreviveram e que têm muitas histórias para contar a quem visita Hiroshima é Mito Kosei, que permanece todos os dias em frente ao memorial da paz para passar a mensagem sobre aquilo que foi a bomba, sendo um dos rostos dos hibakusha e da cidade. Foi professor de inglês e desde há 20 anos que pratica diariamente o mesmo ritual, pega na sua bicicleta, leva-a até à frente do memorial e ali permanece a contar aquilo que foi a bomba a quem passa, sendo que, na sua opinião “muito foi omitido”. Nos manuais de História do ensino básico do Japão “existem apenas duas linhas sobre a bomba que destruiu Hiroshima”, e por isso a sua missão é mostrar a todos os que passam pelo memorial o seu testemunho. Também pretende mostrar algumas das informações que não estão no museu da bomba de Hiroshima, promovendo um alargamento do conhecimento, tornando-o acessível a todos. O próprio tem um blog, onde mostra fotografias inéditas e toda a sua documentação bem como a da sua família.

A história de Mito Kosei carrega consigo aquilo que foi o resultado da bomba atómica em Hiroshima. A família de Mito já vivia na região há cerca de 300 anos. Quando a bomba caiu, a sua mãe estava grávida de 4 meses e Mito viria a nascer apenas no início de 1946. O seu pai teve uma vida longa e saudável, tendo falecido em 2003 com 93 anos. A sua mãe enfrentou dois cancros na bexiga e algumas fases mais complicadas na sua saúde. Mas como conta Mito, “ela era mentalmente muito forte, e lutou fortemente pela sua reabilitação”, tendo falecido em Janeiro deste ano com uns esplendorosos 106 anos. Os sobreviventes que se encontravam em fase de gestação, os chamados “in-utero survivors” também fazem parte dos hibakusha, sendo também considerados sobreviventes da bomba atómica. Mito Kosei é um dos hibakusha mais novos, completará 80 anos no próximo ano e mantém uma energia e vivacidade invejáveis.

Mito Kosei / Fotografia de José Malta

Dos quase 100 mil hibakusha, todos possuem um “Livro de Sobrevivente de Bomba Atómica”. Este documento permite que estas pessoas não tenham despesas médicas em qualquer circunstância. Os afectados estão classificados em quatro categorias: 1 – pessoas expostas a menos de 5 quilómetros do epicentro onde ocorreu a explosão da bomba (60% dos sobreviventes), 2 – pessoas que entraram numa área a 2 km do epicentro duas semanas após a explosão da bomba (19% dos sobreviventes), 3 – pessoas que estiveram em contacto com afectados com a bomba quando esta explodiu nomeadamente médicos e enfermeiros (16% dos sobreviventes) e 4 – pessoas que se encontravam em fase de gestação (6% dos sobreviventes). Mito Kosei exibe o seu livro aos visitantes de Hiroshima, onde se pode ver que está na categoria 4, pois trata-se de um sobrevivente que se encontrava em fase de gestação. Mas como conta, o seu pai estava na categoria 1 pois encontrava-se no centro da cidade e a sua mãe na categoria 2. A sua avó, que nunca entrou na cidade após a queda na bomba, ajudou a cuidar de vítimas, ficando classificada na categoria 3.

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O seu avô foi uma das vítimas mortais da radiação. “Ele estava na altura a 600 metros do epicentro onde a bomba explodiu e ficou enterrado nos escombros. Foi desterrado por um grupo de estudantes e levado para casa.” Aparentemente já estava fora de perigo, mas “passados dez dias várias manchas negras apareceram no corpo, e teve sintomas como diarreia e vómitos. Deixou de falar e de conseguir comer o que quer que fosse. Morreria 27 dias depois, com 52 anos”. Apesar de estar ainda em gestação, Mito Kosei nasceu quando Hiroshima ainda recuperava do massacre, assistindo à reconstrução e a uma nova realidade de uma cidade completamente destruída. Conhece histórias de muitos hibakusha afectados e é um activista pelo desarmamento nuclear e pela paz.

Tsurus: os origamis que representam a paz

Os origamis em forma de grou, os chamados tsurus, são um dos símbolos da paz e da abolição das armas nucleares e encontram-se facilmente pelos cantos da cidade. Os tsurus representam saúde, sorte, longevidade e fortuna. A história da associação dos tsurus ao simbolismo da paz baseia-se em Sadako Sasaki, uma menina que ficou doente com leucemia provocada pela exposição à radiação da bomba atómica. A bomba desabou em Hiroshima quando tinha apenas 2 anos, e foi projectada para fora da janela de sua casa, pensando-se inicialmente que estivesse morta. Foi encontrada viva e teve uma vida normal e um crescimento saudável. Mas aos 11 anos foi-lhe diagnosticada uma leucemia devido à radiação a que foi exposta. Quando foi hospitalizada, os médicos deram-lhe apenas um ano de vida, e acabaria por falecer em Outubro de 1955 com apenas 12 anos.

Tsurus, origamis da paz / DR

Uma das lendas japonesas é a de quem dobrar mil tsurus terá direito a pedir um desejo que se tornará realidade. Na esperança de curar a sua doença, Sadako Sasaki tentou dobrar mil tsurus e essa história tornou-se numa das mais emotivas sobre os hibakusha e sobre o modo como ficaram afectados para o resto da vida. Os colegas da sua escola, professores e outros habitantes da cidade, construíram um monumento sem sua honra e em honra das restantes crianças vítimas da bomba, o Monumento Pela Paz Das Crianças, que se encontra a poucos metros do Memorial da Paz de Hiroshima, no mesmo jardim. Debaixo deste monumento existe uma pedra com a seguinte mensagem: “Este é o nosso choro. Esta é a nossa oração. Pela construção da paz neste mundo”.

Para além de Sadako Sasaki, uma outra menina, Yoko Moriwaki, que morreu no dia em que a bomba foi lançada, escreveu um diário sobre os anos do Japão na Segunda Guerra Mundial, tornou-se célebre pelo seu diário, que retrata a vida no Japão quando este participava na Segunda Guerra Mundial. O diário fora publicado no Japão só em 1996 e na língua inglesa em 2013, sendo comparado com uma espécie de Diário de Anne Frank de Hiroshima. A história de Sadako Sasaki fez também com que fosse dada uma maior ênfase às histórias das crianças vítimas mortais do bombardeamento e das que sobreviveram e que ficaram marcadas para toda a vida, sofrendo graves mazelas físicas e psicológicas.

Nihon Hidankyo: o Prémio Nobel da Paz de 2024

A Nihon Hidankyo é a organização japonesa de sobreviventes de bombas atómicas, os hibakusha, que foi laureada com o Prémio Nobel da Paz em 2024, pelos seus esforços em promover um mundo livre de armas nucleares, apelando à paz entre os povos. Fundada em 1956, a Nihon Hidankyo é a maior organização em representação dos hibakusha no Japão, lutando pelos direitos sociais e económicos dos sobreviventes e pela não proliferação de armas nucleares. A organização tem como símbolo os tsurus, os origamis da paz.

“Monumento Pela Paz Das Crianças”, em Hiroshima, Japão / Fotografia de José Malta

São muitas as actividades desenvolvidas pela Nihon Hidankyo que visam defender os hibakusha como apoiar aos sobreviventes da bomba atómica como a exigência de assistência médica e pensões financiadas pelo governo, reconhecimento de doenças provocadas pela radiação e a luta pela paz e pela a abolição de armas nucleares. A Nihon Hidankyo promove também os testemunhos dos hibakusha em todo o mundo para a sensibilização ao combate às armas nucleares, garantindo que esses mesmos testemunhos sejam transmitidos às gerações futuras, nunca sendo esquecidos.

O Milagre Japonês

Após as duas bombas que arrasaram duas cidades importantes, fala-se do célebre “Milagre Japonês”, a rápida reconstrução do Japão que transformaria o país numa das maiores potências económicas a nível mundial. O facto de Hiroshima hoje ser uma grande cidade do Japão tendo o triplo dos habitantes do que tinha em 1945, infraestruturas, indústria (a Mazda corporation está sediada em Hiroshima há mais de 100 anos), recursos naturais (é o maior produtor de ostras do Japão), evidencia esse mesmo milagre. Existem razões pelas quais a radiação provocada pela bomba atómica não permaneceu muito tempo em Hiroshima. Uma das razões foi pelo facto de a bomba ter detonado a 600 metros de altura, tendo havido um rápido decaimento da radiação emitida. Estima-se que esse decaimento tenha sido de 80% só nas primeiras 24 horas embora tal não impedisse que milhares tivessem morrido e outros milhares ficassem para sempre afectados. Outro factor, foram as condições climáticas, nomeadamente o forte tufão Makurazaki em Setembro de 1945, que provocou vários mortos, mas permitiu também que partículas radioactivas se afastassem em direcção ao mar. 

Estas condições facilitaram o renascimento de Hiroshima, mas tal não seria possível sem o espírito japonês de trabalho e superação, o tal milagre económico que aconteceu entre as décadas de 50 e 70 do século XX. Após a rendição, o Japão teve uma forte e predominante influência dos Estados Unidos. Em 1949, o Plano de Dodge, que teve como princípio o equilíbrio do orçamento e da redução de gastos, foi o primeiro passo para a recuperação japonesa. Tendo como principal responsável Joseph Dodge, este plano visava uma ajuda dos Estados Unidos ao Japão de forma a garantir a sua autonomia, numa altura em que a influência soviética crescia na Ásia. Como condições, o Japão tinha que proceder ao seu desarmamento e a uma política de autodefesa, à democratização do país e a reformas económicas.

Hiroshima à noite, em 1999 / Fotografia via Wikipédia

O Japão lucrou com a produção de armas e veículos para a guerra da Coreia entre 1950 e 1953, o que facilitou também a sua recuperação do ponto de vista económico. A indústria passaria a ter como foco a protecção de empresas já existentes, impulsionando sectores como o aço, a construção naval e de veículos, produtos químicos e mais tarde a electrónica. A forte aposta na educação e na formação dos cidadãos também foi marcante, permitindo que fosse implementada uma cultura de lealdade entre trabalhadores e empresas que fosse benéfica para ambos, o chamado Kaizen que em japonês significa “melhoria”. Ao juntar a ligação dos bancos às empresas, com empréstimos controlados pelo governo ao mesmo tempo que se implementava um mercado aberto que conduziria a um aumento elevado das exportações, o Japão reerguer-se-ia muito rapidamente durante este período. Esta explosão económica abrandaria após a década de 70 e permitiria que o Japão se tornasse, desde então, numa das maiores potências mundiais nos mais variados sectores. 

80 anos depois

Oito décadas após o massacre e da rendição do Japão que daria por terminada a guerra, Hiroshima é uma cidade com cerca de 1,2 milhões de habitantes, praticamente o triplo dos que existiam em Agosto de 1945 antes da bomba ter sido lançada. Espaços verdes é coisa que não falta e os jardins do Memorial da Paz são a prova disso. Ouvem-se as cigarras que, durante o Verão, são a banda sonora dos parques e dos jardins no Japão. Os transportes públicos fluem, seja o metro de superfície ou os autocarros que fazem parte do quotidiano da cidade. Os velhos Toyotas que continuam a funcionar como táxis nas cidades mais a sul, como Kyoto e Osaka, também circulam em Hiroshima. As bicicletas são um meio de transporte bastante recorrente dos habitantes, uma vez que a cidade é bastante plana e há condições de segurança para que todos possam andar com a sua.

“Hiroshima mon amour” (1959), filme de Alain Resnais com argumento de Marguerite Duras

Os jovens convivem, andam de skate, conversam nos cafés e divertem-se. As crianças correm pelos parques de mãos dadas com os pais e participam em muitas das actividades lúdicas que a cidade oferece. As pessoas andam na rua muitas vezes com as camisolas roxas do Sanfrecce Hiroshima, o clube de futebol que honra a cidade e que já foi várias vezes campeão do Japão, havendo tarjas por toda a cidade, incluindo em alguns dos transportes. Assim como o clube de beisebol, o Hiroshima Toyo Carp, também com bastantes adeptos, uma vez que é este é um desporto com enorme projecção dentro do Japão. Na cultura popular, temos obras como Hiroshima mon amour de Marguerite Duras, que deu primeiro origem a um livro antes de ter dado origem a um célebre filme de Alain Resnais, bem como outras tantas referências de Hiroshima como cidade e como alvo de um dos maiores ataques alguma vez feitos até hoje que se encontram na literatura, na música, no cinema e nas artes.

Se não soubéssemos o que se passou há 80 anos em Hiroshima, não diríamos que uma bomba atómica teria arrasado por completo com a cidade. Não há sinais de sofrimento nem de assombramento. Mas também não existem sinais de esquecimento sobre o que aconteceu há 80 anos, e isso é visível pela quantidade de edifícios e manifestações pela paz que existem na cidade. Todos os dias 6 de Agosto assinala-se o dia da paz, onde pessoas se reúnem em frente ao memorial para orarem pelas vítimas e por uma paz duradoura. Às oito horas e quinze minutos, é feito um minuto de silêncio em memória das vítimas mortais, seguindo-se de um lançamento de lanternas de papel com mensagens de paz que flutuam pelo rio Motoyasu, o rio que passa em frente ao memorial. O dia conta ainda com eventos e cerimónias educativas e de sensibilização por diversos de forma a promover a consciencialização sobre os perigos nucleares.

Revisitar Hiroshima 80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial é também uma forma de repensarmos o modo com que olhamos para um mundo onde milhões de pessoas estão em constante sofrimento em cenário de guerra. Revisitar Hiroshima 80 anos depois da bomba atómica ter arrasado com a cidade provocando cerca de 140 mil mortos e outros tantos milhares que ficaram afectados para toda a vida, é também um momento em que deveríamos reunir esforços contra os ensaios e o fabrico de armas nucleares. Hiroshima vive, e não é de todo uma cidade assombrada. É uma cidade com vida, mas essa vida só foi recuperada com uma conjugação de condições frutíferas e sobretudo com o enorme esforço do povo japonês. É uma cidade que apela à reflexão sobre como devemos encarar o mundo sem nunca esconder o passado. E, acima de tudo, é uma cidade que nos confere a esperança de que nunca é tarde para dar tréguas e fazer um esforço para conseguirmos ter um mundo melhor, se soubermos fazer uso do pouco de humanismo que ainda nos resta.

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