Hoje é 11 de Março

por Hélder Verdade Fontes,    25 Novembro, 2025
Hoje é 11 de Março

Enquanto abria o Word para escrever esta crónica, olhei para as horas não muito recomendáveis que o computador marcava. Apercebi-me logo da data que estava abaixo: 11 de Março. Esfreguei os olhos, a tentar perceber se não era o sono a pregar-me uma partida. Não tinha dado conta que era este o dia de hoje. Não me apercebi de nenhuma notícia, nenhum comentário, nenhum alvoroço. Um pouco estranho, dado que hoje se assinala o aniversário de um golpe de Estado de António de Spínola, e bem sabemos como estas datas do PREC são o alfa e o ómega das celebrações no Portugal de 2025.

Também conhecido como Intentona de 11 de Março, o golpe de Spínola não tem suscitado grande interesse. Talvez por ter sido infrutífero, talvez por não se alinhar com a narrativa presente, talvez por não ter tido base de sustentação real, talvez por nos estarem a entreter com gelados e andamos todos com eles a pingar pela testa abaixo. Pudera, é Março, começa a ficar calor e já não nos controlamos.

Enquanto pensava num gelado que comia em criança e que entretanto diminuiu de tamanho (ou então fui eu que cresci), olhei de novo para o relógio no canto do computador. Fiquei surpreendido ao constatar que hoje não é 11 de Março. Peço desculpa ao leitor pelo engano e espero que não leve a mal que não apague os parágrafos que deixei acima. Afinal, já os leu, já cumprimos o contrato escritor-leitor. Fazem parte do nosso passado, deixemo-los quietos e sossegados. O dia de hoje merece toda a nossa atenção e foco. Afinal, é 28 de Setembro.

Aqui o silêncio noticioso já deve ser propositado. Aliás, provavelmente não haveria melhor homenagem ou forma de recordar a maioria silenciosa de Spínola do que o silêncio inequívoco de todos. A maioria silenciosa foi uma tentativa de manifestação por parte das forças leais a Spínola que não concordavam com o caminho progressivo que se estava a fazer durante o PREC. Alegadamente, uma grande parte do país não estaria de acordo com os desenvolvimentos, mas era silenciosa quanto à sua vontade, e Spínola, com este movimento, tentou acender o seu rastilho. Tentativa falhada, diga-se, porque afinal a maioria silenciosa era uma mera minoria ruidosa.

Fico a pensar quantas minorias ruidosas não temos entre nós, hoje. Sempre existiram, provavelmente, mas agora têm todo o espaço para promover uma ideia, uma matriz, uma narrativa. O tempo apaga muita coisa, muitas celebrações, efemérides, acontecimentos. Pior é se alinharmos um interesse particular com o tempo, pois assim consegue-se reescrever o que antes tinha ficado na pedra. A História é escrita pelos vencedores ou pelos persistentes, teimosos e com dinheiro para a mudar?

Enquanto procurava um caderno no qual escrevi uns apontamentos importantes para esta crónica, olhei de novo para o calendário, desta vez para o que tenho perto da entrada de casa. Reparo que me enganei uma vez mais na data — ainda dizem que os calendários físicos não servem para nada. Peço desculpa, novamente. Ao que parece andamos enganados este tempo todo. Hoje, é apenas mais um dia em que isso acontece.

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