Jamiroquai no Ageas Cooljazz: a casa funky onde podemos sempre voltar para dançar
Em noite de regresso de Jamiroquai a Portugal, ao fim de oito anos, o recinto do Ageas Cooljazz borbulhava de entusiasmo. Esta noite de festival foi a primeira a esgotar, estando assim já há alguns meses; algo que se notou na afluência de pessoas ao Hipódromo Manuel Possolo. De facto, nunca havíamos visto tanta gente neste festival — o que até acabou por resultar em tempos de espera mais elevados nas filas das diversas bancas do recinto. No entanto, quando o tão aguardado concerto da banda britânica começou, tudo isso passaria para segundo lugar.
Antes disso, a abertura esteve a cargo de Maria Carvalho e Bruno Ponte — que encheram o belíssimo anfiteatro do Parque Marechal Carmona — e de Moullinex, o DJ e produtor português que fez um set especial dedicado à música disco para desenferrujar os pés do público e prepará-lo para os passos de dança que aí viriam. Um DJ set como concerto de abertura acabou por não ser a aposta mais eficaz para animar o público, apesar da seleção impecável de Luís Clara Gomes, que passou por versões e remixes de clássicos de Sister Sledge e Talking Heads (um piscar de olhos ao fabuloso concerto de David Byrne que ali tinha acontecido quatro dias antes), canções mais recentes e até o remix de Mr Mitsuhirato para a sua própria canção, “Love Love Love”.

A ideia de um artista atacar um alinhamento com alguns dos seus maiores êxitos logo à partida é curiosa. Quando isso acontece num concerto de Jamiroquai, não há o risco de perder o gás a meio, pois como as suas compilações de singles provam, toda a carreira da banda está pejada de êxitos. É por isso que a sequência de abertura de “(Don’t) Give Hate a Chance”, “Little L” e “Seven Days in Sunny June” é perfeita para animar o público logo à partida. Este concerto em Cascais, onde terminou o segmento europeu da digressão, foi particularmente especial. Na manhã do concerto, a mãe do carismático vocalista Jason Luís Cheetham (mais conhecido como Jay Kay) revelou-lhe que Cascais foi o sítio onde foi concebido. Para além disso, entre o extenso público encontrava-se também o seu pai, o guitarrista português Luís Saraiva.
Em palco, um batalhão de músicos tocavam as canções de forma tão apurada que era como estar numa festa de escuta de um disco em vez de um concerto. O início focado e fiel às versões de estúdio foi dando lugar a improvisos e interpolações que expandiam o universo musical da banda. “Space Cowboy” desembocou numa exploração particularmente ácida, otimamente executada. Numa versão mais jazzy de “Canned Heat”, pareceu-nos ouvir um excerto de “Blue Monday”, dos New Order, enquanto que “Cosmic Girl” se fundiu com as teclas de “Stayin’ Alive”, dos Bee Gees. Estas sugestões sónicas provam não só o quão adaptável a música da banda é, como também a proficiência dos músicos.

Neste regresso aos palcos, uma das grandes dúvidas era se o mestre de cerimónias, Jay Kay ainda teria o estofo para transmitir a energia que as suas canções requerem. Dúvidas essas que se dissipariam logo no início, tendo em conta a voz impecável que o mesmo apresentou ao longo de todo o espetáculo. Foi tão surpreendente que até considerámos a hipótese de ser playback, suspeita rapidamente afastada pela quantidade de ad-libs e ginástica vocal com que Jay Kay apimentava as canções. Agarrando com fervor o microfone e caminhando (ou saltando) de um lado para o outro do palco, a sua energia foi perfeitamente veiculada para o público, que não parou de se mexer.
Por entre os clássicos, a banda ainda antecipou duas canções do seu nono álbum de estúdio, cuja data de lançamento ainda não está confirmada. Apesar de as canções pertencerem ao novo álbum, podiam perfeitamente fazer parte dos anteriores — afirmação que não é, de todo, pouco elogiosa. O baixo proeminente e elástico de “Shadow in the Night” continua o legado de funk que os Jamiroquai tão consistentemente vêm explorando desde os anos 90. “Disco Stays the Same” ecoa a mensagem de paz e amor transversal a todos os lançamentos da banda, com o mote “No matter what they do to us, the disco always stays the same”.

É exatamente isso que procuramos quando ouvimos Jamiroquai — um sítio seguro no qual podemos dançar. O som otimista e visuais vagamente futuristas da banda levam-nos de volta para o final dos anos 90 e início dos anos 2000, altura em que o futuro parecia promissor. Assistir a um concerto de Jamiroquai é como entrar nessa bolha temporal em que tudo parecia estar bem e a progredir.
Neste tempo entre os seus últimos lançamentos e o presente, vários artistas surgiram cuja proposta nos lembra dos Jamiroquai — por exemplo, as canções mais dançáveis dos australianos Parcels remetem-nos um pouco a mistura de acid jazz e funk da banda. Mas poucos artistas o fazem com tanta garra e músculo como eles. A sua proposta de dançar para expurgar os nossos problemas é perfeitamente executada, sem uma pinga de ironia ou desonestidade. É por isso que, apesar das longas pausas entre edições e concertos (desde 2017 que não lançam um disco), o público continua a procurá-los, algo que a casa cheia em Cascais prova. A melhor coisa foi termos confirmado que os encontraremos, iguais a eles mesmos, sempre quando queremos ou precisamos.





