João Canijo, o teatro relevador

por Tiago Bartolomeu Costa,    30 Janeiro, 2026
João Canijo, o teatro relevador
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O teatro esteve tantas vezes no olhar e na forma de fazer de João Canijo, cuja morte abalroa um percurso que ganhava uma segunda volta, depois do sucesso nacional e internacional de “Mal Viver” e “Viver Mal”, Urso de Prata no Festival de Berlim, em 2023.

Começou em 1987, na Galeria Monumental, com Diogo Dória, em “Jogos de Praia”, primeira peça de E. A. Whithead (“The Foursome”, no original, 1971), peça cínica sobre os equívocos e tensões no interior de um casal, ideia que haveria de prolongar em tantos dos seus filmes. Muito do eco dessa peça ressoa nos estilhaços que vão deixando as personagens de Leonor Silveira e Rafael Morais em “Viver Mal” (2023).

A peça seria ensaiada na praia da Costa da Caparica, durante três meses, com “uma representação [que] não tinha nada a ver com o que se fazia em Portugal”, disse numa entrevista a Vasco Câmara (“João Canijo, realizador português”, Midas Filmes 2012). Era o tempo da descoberta, do dinamitar das fronteiras entre escolas de interpretação, com uma novíssima geração de atores a começar a navegar entre o teatro e o cinema: Rita Blanco, Suzana Borges, Diogo Dória, Vítor Norte. Muitos continuariam com ele ao longo dos anos, Rita Blanco até ao fim, naquele que ficará como o seu último filme, “Encenação”, que acabara de rodar no final de 2025, peça de teatro dentro de um filme sobre uma companhia. Eco de um outro filme, “Filha da Mãe”, rodado em 1989, no Teatro Nacional D. Maria II, o único filme feito dentro daquele teatro, contemporâneo de outras duas encenações: “Crimes do Coração”, a peça de Beth Henley que estava na origem do filme homónimo de Bruce Beresford (1986, com Sam Shepard, Sissy Spaccek, Jessica Lange e Diane Keaton), tragédia no interior de uma família de irmãs sobreviventes, de si mesmas e do mesmo homem. Haverá de repetir o cenário noutros filmes, numa reescrita emocional cujas margens chegarão a “Sangue do Meu Sangue” (2011).

Seguiu-se “Quem pode, pode”, de David Mamet (1989, “Speed-the-plow”, no original), no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, um ano depois da estreia norte-americana desta variação amarga e irónica sobre as relações de poder no interior do mundo do cinema, e o poder de manipulação da verdade, da descrença e da verosimilhança. No elenco, uma muito jovem Alexandra Lencastre encravada na relação entre a mãe (Lídia Franco) e o amante (José Wilker), ele próprio num vórtice de desejo tóxico com outra mulher (Rita Blanco). Era uma peça onde o edifício do Nacional, do palco aos bastidores, era uma armadilha, um divertimento de feira macabro, como era este teatro cheio de fantasmas, fechado à praça, cheio de sombras, às vezes rasgado por cores de quadros que manchavam de sangue e de raiva os cenários intensamente iluminados onde as personagens se perdiam no seu próprio labirinto. É um filme em contraciclo à intensidade de uma cidade fervilhante, encerrando, e encenando – num arco que encerrará com “La Ronde”, de Arthur Schnitzler, que trabalhou em 2011 com os alunos da escola ACT – a voragem de uma cidade e de uma geração.

Eram peças vindas de um universo que hoje, retrospetivamente, podemos relacionar com o seu modo de fazer cinema, na repetição, no ensaio e na espera, até que do caos possa surgir o espelho no qual nos projetarmos. O documentário “Trabalho de ator, trabalho de atriz” (2011), sobre o processo de encontro das, e com as personagens de “Sangue do Meu Sangue”, é o mais próximo que poderemos alguma vez estar do escarafunchar da ferida feita coluna vertebral dos seus filmes.

Ainda houve “Confissão ao luar”, adaptação de “A Moon for the bisgotten” (1943), estreada na Casa da Comédia em 1991, com José Eduardo, Rita Blanco e Adriano Luz, sequela de Eugene O’Neill para a sua própria peça “Longa Jornada para a Noite”, e exercício de reconfiguração familiar, que Canijo trará, com os mesmos atores para “Noite Escura” (2004), a primeira de três (menos uma, para usar o título do seu primeiro filme, porque ficou por completar) adaptações das tragédias de Eurípides, no caso “Oresteia”. Aqui, “Ifigénia em Áulide”, transportada para o submundo da prostituição, do tráfico de pessoas, e de uma família no meio de toda essa sordidez moral, afinal constitutiva de uma observação detalhada sobre a ética depois da explosão. Voltaria a Eurípides em “Mal Nascida” (2007), leitura de “Electra”, na serra agreste e árida de Trás-os-montes, na qual se é difícil de nos revermos, não é menos relevante que o olhar que Canijo foi trazendo do teatro para o cinema, e deste enquanto espelho, não é mais do que a materialização da ambição das dramaturgias: produzir escolhas e debater os limites morais. Augusto M. Seabra haverá de escrever em “João Canijo, cineasta português”, que “Mal Nascida” é “um compósito das diferentes versões, desde as clássicas de Sófocles e Eurípides, às mais modernas de Hugo von Hofmmansthal, Jean Griraudoux e Marguerite Yourcenar.” E acrescenta, sublinhando a avidez culta de Canijo: “Canijo gostaria de ter filmado previamente, para ter toda a sequência narrativa, uma ‘Ifigénia em Áulide’, e um ‘Agamemnon’, com as peripécias do rei de Micenas, incluindo a Guerra de Tróia, e portanto também as personagens da ‘Ilíada’, mas este projeto era financeiramente insustentável, inviabilizando a hipótese de uma trilogia. Concentrando-se em ‘Electra’, é surpreendente o nível de fidelidade desta moderna versão à mitologia e às tragédias sobre o tema.”

Na entrevista a Vasco Câmara, incluída no livro citado, João Canijo fala de como chegou à tragédia porque ainda não conseguira chegar a Ingmar Bergman: “Até “’Sangue do Meu Sangue’ a relação com a tragédia teve sempre uma componente de defesa: ancorar a realidade no arquétipo mítico, porque era inquestionável. Demorei anos a perceber uma frase do Ingmar Bergman. Disse: um filme (ou um projeto teatral, ou o que seja, uma obra), tem que ter um conceito preciso para o autor, à partida; e essa ideia tem de estar presente em cada cena e em cada o plano. A ideia, em ‘Sangue do Meu Sangue’, de uma mãe arriscar perder a filha para a salvar, que é a ideia central do amor incondicional, está em cada cena da história entre a Rita [Blanco] e a Cleia [Almeida]. O não poder dizer faz com que ela, a mãe, tenha isso implícito. E foi a primeira vez que o consegui fazer conscientemente. Foi sempre disto que andei à procura, mas como ainda não tinha percebido o que é que o Bergman queria dizer, no ‘Ganhar a vida’ [2001], a “Antígona” servia-me para isso.”

Por essa altura, já Canijo encenara Bergman: “Persona”, a partir do argumento do filme (1966), com Teresa Tavares e Kjersti Kassa, no Teatro Turim, e integrado no Festival Temps d’Images, era, novamente, lugar da relação de dependência que parecia falar quase sempre. O teatro funcionava aqui como intrigante máquina de revelação: uma atriz retirada para recuperação que, quando acompanhada por uma enfermeira, se choca com as confissões desta. Na imobilidade emocional, física, sonora, a possibilidade de imaginar narrativas. No modo como fomos percebendo que Canijo filmava – a espera, a observação, a caça – estas são hipóteses de reinvenção, até de formatos, como se da acumulação de pontos de vista se pudesse, mais do que se chegar ao centro da dúvida (da culpa?) se perguntasse como continuar. Voltaria a Bergman depois, nos vídeos que fez para “Cenas da Vida Conjugal”, numa encenação de Rita Calçada Bastos (2021, São Luiz Teatro Municipal), uma vez mais num jogo de espelhos entre imagens construídas e refletidas.

É possível encontrar a sombra e os seus interesses nos jogos emocionais interpessoais, na escolha que fez para encenar “La Ronde”, com os alunos da escola ACT, rodopio de denúncias, de subornos sexuais, de armadilhas tóxicas e vertigens emocionais e de sobrevivência, na Áustria burguesa da viragem do século XIX e XX. E ainda na colaboração que teve na construção do texto de “O que se leva desta vida”, com Tiago Rodrigues e Gonçalo Waddinton (São Luiz Teatro Municipal, 2009), exercício de confronto amplificado nos bastidores das cozinhas de excelência.

O caos era o lugar onde melhor se situava este homem que construiu um percurso de interpretação dos erros e das estratégias de sobrevivência de cada um. Como se procurasse, com cada confronto, chegar mais perto do que possa ser o que melhor define, no momento da argumentação, cada uma das suas personagens.

Que no filme que deixa por completar, “Encenação”, e na peça que o completava, “As Ucranianas”, se ouça o eco de outra tragédia, “As Troianas”, de Eurípides, talvez lida pelo existencialismo de Sartre; talvez marca, sem necessidade de referências literatas, onde a guerra se conta, como acontece sempre, no feminino. Será, então, revelador da atenção que deu ao que existe para lá da caricatura, do ridículo encenado, e da emoção performativa. Na última entrevista que deu, em Dezembro 2025, no podcast Teatra, do Teatro Nacional D. Maria II, falava da importância que a linguagem tem para a construção de personagens. Disse: “A verdade é sempre individual.”.

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