João Martins, diretor artístico do Festival Campus Jazz: “Que seja o início de criação artística e potenciador de muita criatividade na área do Jazz”
Mais do que um festival com a vertente de concertos, na tentativa de trazer a Portugal músicos internacionais emergentes e de renome a Portugal, o Campus Jazz – Festival de Jazz da Universidade de Aveiro, não esquece a vertente educacional, de criação artística e, acima de tudo, do contacto entre novos nomes e artistas já consagrados. Por isso, além de um festival, fala-se de um núcleo que inclui também masterclasses, workshops, o “Concurso Internacional de Jazz”, tal como a exposição “Corpo e Alma”, “que revela um pouco da coleção que o Centro de Estudos de Jazz tem. Estamos a falar das coleções de José Duarte, de Jorge Veloso, ou seja, de figuras marcantes na divulgação do jazz em Portugal, e a universidade tem este material único. “É importante para nós mostrá-lo para tentar, de certa forma, captar pessoas interessadas em investigá-lo e conseguir divulgá-lo de outra forma”. Foi o que João Martins, diretor artístico do festival, revelou à Comunidade Cultura e Arte em entrevista. “A grande característica deste festival é precisamente integrar todos estes pilares da forma mais dinâmica possível. É isso que distingue este festival, na nossa perspetiva, de outros festivais de jazz, porque tem precisamente todos estes pilares, e queremos desenvolver cada um deles e queremos que haja cada vez mais atenção do público a todas estas atividades que foram descritas: não só os concertos, mas também as atividades pedagógicas, o concurso, e todos estes momentos ligados a esta plataforma de desenvolvimento de novos talentos.”, disse-nos ainda.
Este ano, o Campus Jazz, que ocorre entre os dias 30 de Abril e 3 de Junho, conta na sua programação com Philip Lassiter e a Campus Jazz Big Band, Rita Payés com a Orquestra Filarmonia das Beiras, Amaro Freitas Trio e Adam Ben Ezra. João Martins contou, então, à Comunidade Cultura e Arte como é pensar este festival ano após ano, uma vez que vai na sua sexta edição.
Como surgiu a ideia da Universidade de Aveiro (UA) criar um festival, neste caso em particular, dedicado ao jazz?
O festival nasceu com um conjunto de iniciativas que já estavam em andamento. A universidade já mantinha, ao longo dos anos, as celebrações do “Dia Internacional do Jazz”, a 30 de abril. Havia sempre um conjunto de eventos, concertos e masterclasses em torno do dia 30 de abril relacionados com as atividades letivas e académicas da própria Universidade. Na altura, já tínhamos um mestrado em performance em jazz e, basicamente, a ideia foi tentar amplificar esse momento e dar-lhe outra dimensão. Havia, por isso, esta sequência também relacionada com o “Centro de Estudos de Jazz” que a universidade já tinha desde 2007. Surgiu, por isso, através desta organização, através do Centro de Estudos de Jazz, e da sequência desta dinâmica que já existia na universidade.
O próprio João Martins também já estava ligado à universidade.
Sim, tirei um mestrado em ensino na área do jazz e, mais recentemente, também concluí o meu doutoramento na Universidade de Aveiro (UA). Tenho, também, lecionado desde 2019, precisamente no “Departamento de Comunicação e Arte”, ligado à área do jazz. O facto de estar ligado à UA e ao jazz permitiu-me ter um conhecimento mais aprofundado das atividades da Universidade. Foi esse, basicamente, o contexto que me levou a assumir a direção artística do festival.
O festival fará agora seis anos. Como olha para o panorama do jazz nacional há seis anos, quando o festival começou, e agora?
Penso que, particularmente no jazz, tem havido um crescimento exponencial de tudo o que tem a ver com fruição, com formação. Temos tido cada vez mais concertos, mais festivais, cada vez mais masterclasses, assim como uma dinâmica muito maior nos últimos anos. Isso tem-se notado, de facto. Penso que tem acontecido em todas as áreas da música, mas, particularmente, no jazz. Olho para isto com bons olhos e tentamos contribuir para que esta dinâmica seja cada vez maior, sobretudo na nossa região, numa primeira fase. Mas tentamos contribuir para esta dinâmica crescente que tem acontecido nos últimos anos no Jazz.
“Os vencedores das edições anteriores têm-se destacado, de certa forma, no panorama nacional, até graças às parcerias que temos com vários festivais – nomeadamente o “Guimarães Jazz”, o “Estarreja Jazz” e o “Festival de Jazz de Viseu” – em que os vencedores têm a oportunidade de se mostrar e de partilhar o seu talento e criatividade, num espetáculo, digamos, com alguma relevância nacional.”
Numa visão geral, nota que, no panorama do jazz, existem novos projetos, novas pessoas, também à espera de uma oportunidade?
Têm surgido, todos os anos, novos estudantes formados nas nossas universidades e nas nossas escolas profissionais de jazz. Diria que há um mercado em expansão e nós, enquanto entidade promotora de um festival, tentamos dar visibilidade a estes novos talentos emergentes, de várias formas, nomeadamente, com o “Concurso Internacional de Jazz”.
Nessa sequência, o concurso tem, ou pelo menos tentamos que tenha, este valor e este objetivo de criar uma plataforma estruturada de apoio e visibilidade para ensembles emergentes. Como disse, todos os anos surgem novos ensembles. O concurso visa incentivar a criação artística nesta área e promover o intercâmbio entre músicos e, obviamente, contribuir para a renovação do panorama do jazz e posicionar a universidade como um agente ativo neste processo.
Em relação ao próprio festival, como já referiu, uma das vertentes do Campus Jazz é o “Concurso Internacional de Jazz da Universidade de Aveiro”, na promoção de novos talentos. Antes de mais, que balanço faz das edições do concurso até agora?
O balanço tem sido extremamente positivo. A prova disso está no número crescente de candidatos e de inscritos a participar no concurso, como também na qualidade artística que tem sido apresentada ao longo das suas várias edições. É algo que o júri tem destacado. Por outro lado, os vencedores das edições anteriores têm-se destacado, de certa forma, no panorama nacional, até graças às parcerias que temos com vários festivais – nomeadamente o “Guimarães Jazz”, o “Estarreja Jazz” e o “Festival de Jazz de Viseu” – em que os vencedores têm a oportunidade de se mostrar e de partilhar o seu talento e criatividade, num espetáculo com alguma relevância nacional. Isto, no fundo, reflete a dinâmica que o concurso apresenta, tal como o objectivo que tem em se assumir como plataforma de desenvolvimento destes talentos.
Existe também esta preocupação de tentar fomentar parcerias, ou algum tipo de relação entre estes concorrentes, aqueles que participam, e músicos já profissionais? Ou seja, criar aqui uma dinâmica em que quem participa no concurso possa também conhecer ou interagir mais com músicos profissionais de jazz, com mais ou menos nome?
No concurso, essa questão não se coloca de forma tão direta. Há, obviamente, um contacto com os elementos do júri, que são todos músicos profissionais, de reconhecido destaque artístico nacional, e ligados também agora ao ensino, sendo que esses elementos do júri são também professores de instituições que têm expressão curricular no jazz. Mas diria que este contacto com músicos profissionais, de forma mais ativa, é feito através de outras vertentes do festival, e não apenas com o concurso.
Nessa parte, há de facto um contacto, e esse é um dos pilares muito fortes do festival, que é precisamente este aspeto formativo, esta possibilidade de contacto com alguns dos músicos mais reconhecidos internacionalmente. Daí termos desenvolvido workshops, masterclasses, e estágios de big band, que permitem aos estudantes e músicos emergentes, no início das suas carreiras, terem também este contacto. Estas iniciativas são fundamentais para nós, precisamente para a formação dos nossos estudantes e músicos, porque, para além do desenvolvimento técnico e artístico, estes momentos promovem competências de trabalho coletivo, de criatividade, competências essas necessárias no atual conjunto da criação artística. Este contacto direto com artistas de referência permite a estes jovens músicos compreender diferentes abordagens e propostas estéticas, contribuindo para que tenham também uma visão mais ampla e crítica da sua própria prática musical.
“Uma das grandes conquistas é dar palco e oportunidade para que estes ensembles emergentes possam mostrar todo o seu trabalho criativo.”
E em relação ao concurso, qual é a importância estratégica da parceria com outros festivais de jazz, neste caso o “O Estarreja Jazz”, o “Festival de Jazz de Viseu” e o “Guimarães Jazz”?
Como disse anteriormente, essas parcerias existem e são fundamentais porque permitem uma plataforma de visibilidade para estes novos talentos. Estamos a falar de festivais que já estão consagrados, do ponto de vista nacional, já com uma grande consolidação artística e programática, e é importante, no nosso entendimento, que estes ensembles possam estar nesses palcos, com visibilidade internacional, e portanto com condições profissionais. Para nós, estas parcerias são incrivelmente importantes, porque uma das grandes conquistas é dar palco e oportunidade para que estes ensembles emergentes possam mostrar todo o seu trabalho criativo.
E é fácil organizar um festival como o Campus Jazz, fora de Lisboa e dos grandes centros urbanos?
Nunca organizei um festival em Lisboa ou no Porto, portanto não posso garantir isso. Mas posso falar sobre a experiência que temos em organizar um festival na região de Aveiro e, antes de mais, temos de perceber que é um festival universitário, ou seja, organizado por uma universidade, e como tal o principal desafio é conjugar momentos de fruição, concertos, mas também momentos de formação, tal como uma plataforma de valorização de novos talentos através do concurso e das masterclasses. O objetivo é também equilibrar todas estas dimensões sem comprometer a qualidade artística e pedagógica. Tentamos ter um envolvimento regional, ou seja, o festival é da universidade, mas não acontece apenas na universidade. Tentamos ter um envolvimento regional, daí as parcerias que temos com alguns municípios, nomeadamente o município de Aveiro, o município de Albergaria-a-Velha e o município de Estarreja, onde algumas destas atividades também acontecem em espaços municipais. Tentamos ter esta rede regional e recebemos as escolas que têm currículo em jazz aqui na região, nomeadamente o Conservatório de Aveiro, o Conservatório de Música de Jobra, e o Conservatório de Música de Coimbra. Há um envolvimento regional para que a universidade seja um polo dinamizador de atividades ligadas ao jazz, pelo menos na região, e a verdade é que também temos tido muita recetividade, e temos recebido muitas pessoas que vêm de Lisboa e Porto, de outros centros urbanos, para participar nas nossas atividades, não só nos concertos, mas também no próprio concurso internacional, onde temos tido esta participação muito efetiva de músicos de fora da região de Aveiro.
Tem sido fácil desenvolver esta rede regional, envolvendo outros organismos regionais, como municípios e assim?
Diria que, no geral, temos conseguido criar esta dinâmica com alguma facilidade, porque os nossos parceiros entendem a dinâmica diferenciada que estamos a criar com o festival, tanto do ponto de vista da programação, mas também da formação, da investigação em jazz, e da criação de uma plataforma que permite que novos talentos surjam. Há aqui uma diferenciação no perfil do festival, que tem tido muita recetividade por parte dos municípios, e estamos obviamente muito satisfeitos com isso, porque também ajuda a amplificar o nosso propósito.
O Philip Lassiter e a Campus Jazz Big Band vão atuar juntos, tal como a Rita Payés com a Orquestra Filarmonia das Beiras. Como já tínhamos falado um pouco, acaba por ser importante também para os músicos, tanto da orquestra como da Campus Jazz Big Band, estas atuações no próprio festival.
Sim, temos a Campus Jazz Big Band, que irá atuar com Philipe Lassiter, temos a Orquestra Filarmonia das Beiras, que irá atuar com Rita Payés, e também temos a Orquestra de Jazz da Universidade de Aveiro, que irá partilhar o palco com o guitarrista Gilad Hekselman. Todos estes concertos têm um objetivo comum, que é esta partilha de experiências entre músicos, entre diferentes experiências musicais no mesmo palco, e obviamente estamos a falar de músicos híper consagrados no panorama do jazz.
O que tenta sempre ter em conta ao pensar na programação do festival?
A seleção dos artistas baseia-se numa combinação de vários critérios. É a relevância artística, em primeiro lugar, a diversidade estética e estilística, onde também procuramos artistas com identidades próprias que representem diferentes geografias e abordagens ao jazz contemporâneo e, por outro lado, que tenham também capacidade de diálogo precisamente com o nosso contexto pedagógico, com o contexto pedagógico do festival, e que possam contribuir significativamente para as nossas atividades formativas, como masterclasses, workshops, e este contacto direto com os participantes. Estas são as principais premissas que temos ao longo dos anos. Tentamos, depois, encontrar nomes que se enquadrem neste perfil de artistas que queremos trazer ao nosso festival.
Para este ano, o que pensou especificamente?
Foi isso, os critérios foram os que acabei de referir, e todos eles virão com objetivos diferentes. A Rita virá para tocar com a Filarmonia das Beiras, Philipe Lassiter estará ligado ao estágio de Big Band, como expliquei anteriormente, e Amaro Freitas virá fazer o seu concerto com o seu trio. Para nós, foi importante que ele viesse com o seu trio, para termos acesso à forma como interage com os músicos, para além da sua criatividade ao piano, mas também terá a oportunidade de dar uma masterclass com o seu trio, aberta a todos, para que se possa questionar e tentar perceber como toda essa interação acontece. Depois temos Gilad Hekselman, que virá tocar com a Orquestra de Jazz da Universidade, para além de ter dois momentos de contacto através de um workshop e uma masterclass com o guitarrista. Depois temos Adam Ben Ezra, que virá tocar no Cinema Teatro Alba, e que também dará uma masterclass. Sendo um multi-instrumentista – não esquecendo que a sua abordagem ao seu instrumento principal, que é o contrabaixo, é muito distinta e diferenciada do resto dos contrabaixistas – a masterclass também terá esse impacto, na forma como integra várias perspetivas e técnicas de outros instrumentos no seu próprio instrumento. Basicamente, esta é a dinâmica que queremos criar e temos esta expectativa para este ano.
“Tentamos ter um envolvimento regional, daí as parcerias que temos com alguns municípios, nomeadamente o município de Aveiro, o município de Albergaria-a-Velha e o município de Estarreja, onde algumas destas atividades também acontecem em espaços municipais.”
E que espaço o festival quer continuar a ocupar e continuará a ocupar no futuro? Tanto na vertente de trazer artistas internacionais de jazz, como na pedagogia e descoberta de novos talentos, qual é exatamente o espaço que pretende ocupar?
Digamos que a grande característica deste festival é precisamente integrar todos estes pilares da forma mais dinâmica possível. É isso que distingue este festival, na nossa perspetiva, de outros festivais de jazz, porque tem precisamente todos estes pilares, e queremos desenvolver cada um deles e queremos que haja cada vez mais atenção do público a todas estas atividades que foram descritas: não só os concertos, mas também as atividades pedagógicas, o concurso, e todos estes momentos ligados a esta plataforma de desenvolvimento de novos talentos. Também temos patente no nosso Centro de Estudos de Jazz uma exposição intitulada “Corpo e Alma”, que revela um pouco da coleção que o Centro de Estudos de Jazz tem. Estamos a falar das coleções de José Duarte, de Jorge Veloso, ou seja, de figuras marcantes na divulgação do jazz em Portugal, e a universidade tem este material único. É importante para nós mostrá-los para tentar, de certa forma, captar pessoas interessadas em investigá-los e conseguir divulgá-los de outra forma.
O que acaba por ser importante é este lado de incubadora, ou um centro de jazz onde as coisas também possam nascer.
Certamente. Esse é o nosso objetivo. Daí todos estes momentos de partilha com estes músicos, para que seja também um espaço de criação artística, ou seja, que o próprio festival seja o início de criação artística e o elemento potenciador de muita criatividade e criação nesta área.
