Jogo online e investimento em moedas digitais: uma praga altamente lucrativa
O jogo online a dinheiro e o investimento em moedas digitais tornou-se um dos maiores fenómenos de sedução da atualidade. É omnipresente, cresce rapidamente entre os jovens, espalha-se sem barreiras em Portugal e já se comporta como uma verdadeira praga moderna. Mas atenção: não é uma peste qualquer, é uma peste organizada, altamente lucrativa, da qual alguns tiram enormes benefícios enquanto muitos outros ficam pelo caminho (viciados e perdidos).
Se, no passado, o cigarro simbolizava para os jovens rebeldes a entrada no “mundo dos adultos”, hoje o jogo a dinheiro cumpre esse papel. Atendendo à história do tabaco, percebemos bem como as armadilhas se constroem, a estratégia foi mudando ao longo do tempo, mas nunca falhou (pelo menos a nível económico). Quando se começou a descobrir que continha substâncias cancerígenas, a indústria reagiu de forma perversa: aumentou a dependência, como transformou o cigarro num símbolo social, chegando a promovê-lo como sinal de emancipação feminina, para o consumo aumentar entre as mulheres.
O jogo online segue exatamente a mesma lógica de sedução que outras indústrias já usaram no passado. Apresenta-se como um mecanismo para a emancipação, e com isso promove a ideia do individualismo e sucesso rápido, bastando um clique para “fazer o dinheiro nascer das árvores”. Mas há uma pergunta que poucos jovens se colocam: se estas plataformas continuam a crescer e a lucrar ano após ano, é porque a “casa” nunca perde. Se o jogo online fosse realmente feito para o jogador ganhar, simplesmente não existiria.
O verdadeiro problema começa, quando se entra no ciclo vicioso. A mente não vai querer aceitar a derrota: e por isso vai tentar recuperar. Só que neste caso a moeda de troca não é tempo nem diversão: é dinheiro real, que desaparece em segundos.
Basta pensar no exemplo dos anúncios de doces, estrategicamente colocados em corredores específicos e sempre nas caixas do supermercado, acompanhados de anúncios brilhantes para despertar o desejo de consumo, também o jogo online e os investimentos em moedas digitais nos são apresentados em permanência, com a mesma lógica de sedução.
O exemplo mais gritante está no futebol, modalidade acompanha pelo país inteiro. Os três maiores clubes do país exibem casas de apostas como patrocinadores principais, o próprio campeonato nacional desfila sob a designação “Liga Betclic”. Não é um detalhe inofensivo, é a legitimação de uma indústria que normaliza o vício e que tenta transformar o desporto-rei português numa montra de dependências, ou até mesmo para quem acompanha a Liga dos Campeões, a competição mais mediática do planeta, é bombardeado por anúncios da Cripto.com. Se abrir o X, o YouTube ou o Instagram é tudo igual, repetido até à exaustão. É um cerco total, montado para que ninguém escape à mensagem sedutora do risco disfarçado de oportunidade.
Não se pode tratar só de negócio e dinheiro, acima disso tudo está uma coisa clara: a saúde pública. Permitir que a principal montra desportiva do país seja dominada por este tipo de publicidade é abrir as portas a uma geração marcada pelo vício.
O desporto, paixão coletiva e motor cultural de milhões de pessoas, também foi capturado por uma indústria cujo lucro depende da vulnerabilidade de quem joga. E, perante este cenário, a pergunta torna-se inevitável: onde está o Estado? Não deveria ser o primeiro a fazer alguma coisa, ou, no mínimo, a limitar de forma séria, a ação de empresas que prosperam à custa da dependência e do desespero de tantos?
Além disso, estudos recentes (ECATD-CAD) mostram que após a pandemia, o jogo a dinheiro cresceu de forma preocupante entre os jovens dos 13 aos 18 anos, tendência esta que pode agravar-se se nada for feito.
Apesar da inação do Governo, a oposição assumiu a iniciativa e apresentou um conjunto de projetos de lei que serão discutidos no próximo dia 26 na Assembleia da República, todos com o objetivo de enfrentar os riscos associados ao jogo e às apostas.
O Livre, apresenta a maiorais dos projetos para limitar esta praga organizada, altamente lucrativa: reforçar os mecanismos de autoexclusão em plataformas online, proibir publicidade por parte de figuras públicas e influencers. Limitar a publicidade em geral como proibir o patrocínio de eventos por empresas do setor, obrigar à inclusão de advertências sobre o risco de adição em todos os jogos de azar tal como se faz no tabaco, e impedir a venda de raspadinhas e lotarias em estabelecimentos de saúde.
Já o Bloco de Esquerda (BE) propõe limitar a publicidade aos jogos e apostas e adotar medidas de prevenção específicas para a lotaria instantânea, alterando o Código da Publicidade.
Por sua vez, o PAN defende o reforço da literacia e da consciencialização dos cidadãos sobre os riscos do jogo, bem como o combate ao jogo patológico, matéria esta, essencial, com base no facto do jogo ser atrativo entre os mais jovens.
Por fim, o PS apresenta uma resolução que recomenda ao Governo medidas de proteção dos consumidores, combate ao jogo ilegal, modernização da regulação e mais investimento no interior.
As mesmas serão discutidas no dia 26 na Assembleia da República, com o propósito de enfrentar um dos mais sérios problemas de saúde pública da atualidade.
E por isso, antes que influencers e patrocinadores do jogo falem em limitações à liberdade, e o culpado é sempre o Estado, é preciso sublinhar que estes projetos de lei não censuram escolhas individuais, mas defendem a saúde pública, protegendo-nos de práticas predatórias.
Apostar não é inofensivo, sobretudo quando envolve menores, e por isso faz sentido exigir advertências, a verdadeira liberdade não está em deixar portas abertas para o vício, mas sim em garantir que todos possam viver sem que a ruína de alguns se transforme em lucro de poucos.

