Jornalista Filipa Almeida Mendes publica livro sobre “As Mulheres Cientistas que a História Tentou Esquecer”
A Oficina do Livro edita na próxima terça-feira, 3 de março, “O Efeito Matilda, As Mulheres Cientistas que a História Tentou Esquecer”, da jornalista Filipa Almeida Mendes.
Com prefácio de Elvira Fortunato, cientista e ex-ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, este livro “não é apenas um exercício de memória ou um gesto de reparação histórica, é também um alerta“, sublinha a autora, porque “ao apagar sistematicamente as mulheres da narrativa científica, não só distorcemos o passado como empobrecemos o presente e limitamos o futuro“, refere ainda.
Ao longo destas páginas são apresentados 20 percursos científicos em áreas diversas, da Química à Física, da Medicina à Astronomia. Entre eles incluem-se duas mulheres portuguesas, lembrando que este desaparecimento não foi um fenómeno distante nem exclusivo de outros contextos nacionais. A ciência feita em Portugal também conheceu mulheres de exceção cujo reconhecimento tardou ou nunca chegou. Um exemplo particularmente revelador é o de Branca Edmée Marques, química de excelência, que trabalhou em Paris com Marie Curie. A sua paixão pela ciência era tal que, ao decidir casar-se, impôs uma condição invulgar para a época: só o faria se pudesse continuar a sua formação científica em Paris. Este episódio, quase anedótico à primeira vista, é profundamente revelador, porque mostra a determinação de uma mulher que se recusou a abdicar da ciência em nome das convenções sociais e que afirmou, de forma clara, que o conhecimento era parte indissociável da sua vida.

Desfilam aqui, pois, histórias de mulheres brilhantes cuja curiosidade, rigor e coragem desafiaram as normas do seu tempo. Algumas realizaram descobertas fundacionais, desde a estrutura do ADN à composição das estrelas, da matéria escura às bases da genética moderna. Ainda assim, viram o seu contributo minimizado, ignorado ou simplesmente esquecido. Outras foram recordadas apenas como «assistentes de investigação», «esposas» ou notas de rodapé, quando, na realidade, foram protagonistas centrais do avanço científico.
Entre as vinte mulheres retratadas nesta obra, apenas duas receberam o Prémio Nobel. Este dado ganha outra dimensão quando observado em termos globais: ao longo de mais de 120 anos de história do Nobel, o prémio foi atribuído a mulheres apenas cerca de 68 vezes, o que representa aproximadamente 6,5% do total de laureados individuais, enquanto mais de 900 homens foram distinguidos. Esta desigualdade é particularmente mais evidente nas áreas científicas da Física, Química e Medicina, onde o número de mulheres premiadas é ainda residual quando comparado com o contributo efetivo que deram para o avanço do conhecimento. Estes números não revelam uma escassez de talento feminino, mas sim um sistema de reconhecimento estruturalmente desigual.

Tendo como pano de fundo o chamado «efeito Matilda», termo usado em homenagem a uma sufragista para designar a discriminação das mulheres no mundo da ciência, este livro revela as histórias das investigadoras responsáveis por notáveis descobertas científicas – como o desenvolvimento da bomba atómica, a vacina contra a Covid-19 ou a identificação da estrutura do ADN – cujo reconhecimento tardou pelo simples facto de não serem homens.
- Mary Anning – A «princesa da paleontologia»
- Nettie Stevens – A cientista dos cromossomas
- Mileva Marić – A investigadora brilhante que se casou com Einstein
- Lise Meitner – A «mãe da bomba atómica»
- Alice Ball – A cientista que criou uma cura para a lepra
- Seomara da Costa Primo – A investigadora que marcou o sistema educativo português
- Branca Edmée Marques – a «discípula» de Marie Curie
- Cecilia Payne-Gaposchkin – a astrofísica que descobriu do que são feitas as estrelas
- Chien-Shiung Wu – a «primeira-dama da Física»
- Rosalind Franklin – a «mulher inteligente» que desvendou a estrutura do ADN
- Marie Tharp – a mulher que mapeou o fundo do oceano
- Esther Lederberg – a cientista que revolucionou a genética bacteriana
- Marthe Gautier – a investigadora que confirmou a origem da Síndrome de Down
- Vera Rubin – A «mãe da matéria escura»
- Jocelyn Bell Burnell – a jovem que descobriu os pulsares
- Svetlana Mojsov – a «Rosalind Franklin do Ozempic»
- Katalin Karikó – a cientista «obstinada» do ARN
- Donna Strickland – a vencedora do Nobel que não tinha página no Wikipédia
Filipa Almeida Mendes viveu a sua infância e adolescência em Vale de Cambra, tendo regressado à cidade onde nasceu para se licenciar em Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Concluiu o mestrado em Ciências da Comunicação, com uma especialização em Estudos dos Media e do Jornalismo, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É jornalista no Público, onde integra a secção de Ciência. Foi nomeada para vários prémios na área e tem vindo a contribuir ativamente para a divulgação científica em Portugal.
