“La Grazia”, de Paolo Sorrentino, e o culto da dúvida
Abriu a Festa do Cinema Italiano e abarrotou o Cinema São Jorge. ‘La Grazia’, de Paolo Sorrentino, podia ter este nome: O Culto da Dúvida. Pois é disso que o filme trata: a dúvida de um Presidente da República em atrito constante com a realidade. Promulgar ou chumbar uma lei da eutanásia; conceder ou não dois perdões presidenciais. Ah, dirija-se ao cinema, leitor.
Não haja dúvida: é um filme à italiana e, sobretudo, romano. Corre por Roma adentro. Pela sua arquitetura de pedra antiga, pelas suas lendas e costumes que perduram. A capital italiana surge assim no seu Presidente, Mariano De Santis, o protagonista. Em fim de mandato, após anos de serviço ao país e uma vida dedicada ao estudo do Direito Penal, De Santis é um homem de estabilidade: ouve, pensa e repisa cada ideia.

‘La Grazia’, portanto, retrata um político contracorrente. Cerebral, num tempo de simplificações. Questionador, num meio de certezas. Um homem repleto de falhas conhecidas e adoradas pelos próximos, como o segurança que dele tudo sabe e lhe fornece o cigarro diário no topo do Palácio do Quirinal.
Errata: não no Palácio do Quirinal. Por razões óbvias, o filme não pôde ser filmado no palácio presidencial. Foi-o em Turim – e com o mesmo esplendor. É pelas salas do Palácio, austero e monumental, que o protagonista vai caminhando, ao som da música eletrónica de que aprende a gostar, e da dúvida. Vai cultivando-a de espaço em espaço, repletos de relíquias e jogos de luzes, demonstrando-se – também neste filme – a já longa relação de Sorrentino com a beleza.
A cada magna questão que se coloca, o protagonista vai percorrendo os vários pisos. No decorrer das cenas, um impecável Toni Servillo caminha sobre uma paleta de tons castanhos e cinzentos que, segundo o diretor de fotografia Daria D’Antonio, revelam a luz e a sombra; a certeza e o seu contrário.

Sendo católico, portanto crente na certeza de Deus, o Presidente questiona tudo o que se passa cá em baixo. Deixa-se levar pelo instinto. Rodeia-se de gente que pensa diferente, como a própria filha, e vai à luta. Derrotado no debate, confessa-lhes não saber. Tem essa coragem.
Confia no bom senso, perante as questões que lhe assaltam a racionalidade. Chega a ouvir de uma outra bela personagem – um militar graduado: “Pensávamos, enquanto homens do direito e do Estado, que a lei e a disciplina nos protegeriam da sensibilidade. E não foi assim”.
Sem nunca o revelar ao espectador, Mariano De Santis surge como um admirador de Karl Popper. A afinidade vai-se revelando: surge de fininho. Nos atos, nos gestos, nas perguntas, nos silêncios, o Presidente vai gritando: “não sabemos. Só podemos conjeturar”. Popper na voz de Toni Servillo.
Num momento em que se diz, de peito feito, que todos os cisnes são brancos, ‘La Grazia’ retrata um homem e um Presidente que é feito de carne, osso e dúvida.
São 2 horas e 13 minutos a procurar o cisne negro.
