Lobo Antunes: obrigado pela África que nos mostrou
Vem-me à memória, para começar este texto, caro mestre Lobo Antunes, a voz torcida aos sacões numa crise de melancolia de um médico, com a sua cara, no seu livro volumoso e esplêndido “Eu hei-de amar uma pedra”, que diz: “não me sobra um centímetro no coração onde não haja uma ferida”. É exactamente esta a frase que se me tricotou na mente quando soube da sua partida.
Parte o mestre, mas vão consigo tantas figuras que sempre nos fizeram companhia. O António que, e muito bem, soube transformar as paisagens das psiquiatrias cheias de alcoólicos, esquizofrénicos e paranóicos em remédio eficaz para as nossas sombras interiores; o António que, de queixo rente à mão, a partir dos becos do bairro de Benfica com um carro de corda na mão, nos relatava os atalhos da portugalidade; o António furioso que sem piedade combateu todos os cancros do mundo; o António que nos mostrou uma outra África.
Não o vi a partir, Lobo Antunes. A única recordação que tenho de si foi na Feira do Livro há um par de anos; vi-o, no meio da multidão, depois de distribuir autógrafos, debaixo de um sol intenso, a afastar-se aos poucos num passo de um arquejante: a sumir-se com o seu rosto totalmente ensopado de sorriso, a sua calva aninhada no vento a levitar e um enorme gancho de músculo, improvisado no ombro, servindo de cabide ao seu casaco. Vi-o a partir. É esta a partida que tenho de si.
Mas hoje escrevo sobre a minha África, a que descobri na crónica conjunta dos seus livros, na sua voz fragmentada de metáforas. Ninguém como o senhor, Lobo Antunes, soube contar, sem máscaras, o petróleo da hipocrisia que alimentava os disparos em África; a juventude apagada de gente que, como o senhor, em nome do esplendor do império, foi obrigada a envelhecer empoleirada nas matas como bichos. Só você conseguiu exumar, debaixo dos destroços da guerra colonial, uma África que falava por si própria, sem empurrões de intérpretes; uma África que não era só palco da tropa, da guerra, dos pontapés de cuspos cobardes da PIDE, mas um lugar de gente como em qualquer parte do mundo, uma África com vida e com sede de se livrar das armas.
Só o mestre, Lobo Antunes, numa modéstia absoluta, falou de uma África que tantas vezes foi afastada das belas páginas dos relatos, ignorada como uma borbulha na perna que se tapa com pelos e depois com o elástico da meia. A África belíssima de girassóis, a África que o perfilhou, a África que só cabia nos olhos de gente enorme como o senhor, mestre. Mostrou-nos uma outra África, não aquela que terminava como simples elemento de registo, metida à matroca nos arquivos da guerra colonial com selos da PIDE. A África que nas suas azinhagas, tal como disse, lhe ensinou a dolorosa aprendizagem da agonia.
O senhor, de bruços, de gatas e aos cães, a disputar miseráveis latas que eram distribuídas por helicópteros e, mesmo assim, Lobo Antunes, sem medos, a descrever, entre a fronteira da coragem feita por uma fita de arame farpado, a África que partia de Angola para todos os lados, a África tão cheia de música nas suas línguas, a África dos seus longos rios que lhe transmitiam os ventos de Lisboa. A África que lhe serviu o galheteiro certo para temperar as suas cartas de amor.
Tantas vidas, tantos corpos que nunca tiveram um túmulo para o último sono, descansam hoje nos seus livros; andou por África e, à hora da partida, teve a generosidade de carregar os fantasmas da guerra que pairavam por todos os lados mesmo com as armas silenciadas, porque nunca negou a sua missão: registar vozes, falar de uma outra África que ninguém conhecia.
A África que o mestre viu não foi só a África de crianças barrigudas com gravatas enormes de ossos, com nós mal feitos de umbigos e fartas de fome; a África de desesperados selvagens, a África um pouco taralhouca e cheia de galdérios. O senhor, Lobo Antunes, foi capaz de descobrir encanto, beleza e música numa África que era totalmente execrável. Falou da África que o tornou homem, que fez de si um pecador do bem, e talvez seja por isso que o seu último desejo era o mesmo que o do escritor britânico Evelyn Waugh; o desejo que Evelyn Waugh ciciou pela televisão, antes de morrer, aos seus leitores: “rezem pela minha alma pecadora”. Gritou isso tantas vezes, fez eco deste desejo em cada metáfora dos seus textos. E, como num testamento, pediu a José Tolentino de Mendonça e ao Frei Bento Domingues para que rezassem pela sua alma pecadora. Recorda-se, mestre? Não faça fé em mim, mas eu orarei pela sua alma pecadora que tirou tanto pecado da minha pobre África, Lobo Antunes.

