Manual de instruções para não criar um bom cidadão
Este texto foi originalmente publicado no Instagram do Nelson Nunes e foi aqui republicado com a devida autorização do autor.
Passei boa parte da minha adolescência a fazer pouco de um rapaz efeminado da minha turma.
No meu tempo de escola, ninguém me ensinou a ser sensível à diferença. Nas paredes das aulas de Ciências, havia apenas uns bonecos que explicavam em que buraco encaixava um tubo, graças a movimentos mútuos de ancas. Aulas de cidadania, nem vê-las — só religião e moral, que servia para jogar ao galo.
Fui desnecessariamente preconceituoso durante toda a minha adolescência e causei dano a outros colegas, por causa dos seus trejeitos, penteados ou escolhas estéticas. Viverei para sempre com essa angústia, embora saiba que isso só me aconteceu porque não tive quem me explicasse que a sexualidade está carregadinha de nuances.
Até aos meus vintes, achava que gays eram um conceito ilusório, irrealista, distante. Julgava que não havia disso no meu País, porque ninguém falava do assunto, porque a escola não o mencionava e mal se viam livros sobre comportamentos sexuais para lá do que era considerado “normal”, seja lá o que isso for. Achava que não existiam porque não tinha contacto com eles, e por isso desumanizava-os.
O esforço que tive de fazer para aprender, aceitar e normalizar a homossexualidade enquanto conceito que me era estranho foi muitíssimo maior do que se o tivesse aprendido na escola. Tê-lo-ia absorvido com mais naturalidade, e a energia gasta nessa aprendizagem poderia ter sido direccionada para outra coisa mais útil.
Quanto mais se normalizar que o sexo tem multitudes, menos violência teremos entre as crianças, os jovens e os adultos de amanhã.
Falar de sexualidade nas escolas vai muito para além de questões de género. Sexualidade é também discutir papéis entre homens e mulheres, é ter noções de igualdade, de saúde pública, de decência no modo como lidamos com outros humanos.
Quando não se esforçam para educar jovens e crianças para papéis igualitários entre homens e mulheres, os políticos perdem imediatamente o direito a vir chorar para as TVs a respeito do aumento de casos de violência doméstica ou da incidência de doenças sexualmente transmissíveis.
Às vezes, não se percebe se as cabeças de alguns políticos são um caso de drogas a mais ou drogas a menos.
Agora que o Ministério da Deseducação decidiu retirar da disciplina de Cidadania todos os temas relacionados com sexualidade, debaixo da ideia cansada e tosca de uma suposta “ideologia de género”, sabemos que será repetida a mesma taxa de esforço que eu e os meus colegas tivemos de fazer na idade adulta para tratar decentemente outros adultos. Pelo caminho, muitos serão os miúdos que se perderão no ódio, na ignorância, no preconceito. E o sofrimento causado desnecessariamente será incomensurável.
Os verdadeiros revolucionários só podem ser os professores. Autónomos, conforme previsto na lei, e devidamente debatida em conselho de docente, devem instigar o ensino da sexualidade e das suas nuances, sob a única égide realmente fundamental — educar melhores cidadãos para o futuro.
A Política continua a fazer-se de uma idiotice equiparável a um derby futebolístico. Aqueles contra aqueloutros, quando devia ser um nós em prol de todos. A única diferença? Os únicos derrotados são os que estão nas bancadas, mesmo quando festejam efusivamente, sem noção da sua própria miséria.”
