“Marty Supreme”, de Josh Safdie: sonhar alto no mundo do capital

por Afonso Marrocano de Almeida,    23 Janeiro, 2026
“Marty Supreme”, de Josh Safdie: sonhar alto no mundo do capital
“Marty Supreme”, filme deJosh Safdie / A24

Este artigo pode conter spoilers.

“Marty Supreme” teve a sua imprevista estreia numa sessão surpresa do festival de cinema de Nova Iorque, a 6 de outubro de 2025. Tal berço, espontâneo e nova-iorquino, serve como perfeita ilustração dos instintos do filme e do seu cineasta, Josh Safdie. Do que até aqui fizera com o seu irmão, Benny Safdie, desde o drama-familiar, “Vão-me Buscar Alecrim” (Daddy Longlegs), da tragédia romântica, “Amor, Drogas e Nova Iorque” (Heaven Knows What) aos thrillers criminais, “Good Time” e “Diamante Bruto” (Uncut Gems), todos lidam com marginais e marginalizados a navegar pela “cidade que nunca dorme”, sob ilusão ou em fuga do sonho e capitalismo norte-americanos. Elencos de amadores, buscados das ruas para interpretação de si mesmos, todos sob a lente de um fervoroso naturalismo, um formato de um amadorismo perfeccionista que combina improvisação e exatidão. O espetador transformado num voyeur cujos nervos e coração ardem da viva intensidade das tramas de ciclos viciosos de erros e esperanças.

“Marty Supreme” é um olhar cinematográfico muito típico do cinema de género local, de nativos e fundacionais membros da New Hollywood dos anos 70 e 80 como Martin Scorsese, Abel Ferrara (basta espreitar o elenco do filme) e, sobretudo, “O Eterno Amador”, John Cassavetes. O novo filme de Josh Safdie é uma excelente continuação da pegada artística do realizador, tanto o seu filme mais acessível como mais vasto no que a análise do conflito entre o povo nova-iorquino e ilusões materiais diz respeito.

Josh Safdie e Timothée Chalamet durante as filmagens de “Marty Supreme” / A24

O filme segue Marty Mauser (Timothée Chalamet), um insatisfeito vendedor de sapatos com uma imensa aptidão para o ainda desconhecido desporto do ténis de mesa, enorme talento apenas nivelado pelo seu extrovertido ego e ambição de sucesso. Para constar no torneio mundial de 1952, em Londres, Marty renúncia à sua paixoneta de infância, Rachel Mizler (Odessa A’zion), à sua família e trabalho. Só tem o apoio do seu parceiro desportivo e melhor amigo, Wally (Tyler Okonma; deverão conhecê-lo como Tyler, the Creator), que nada mais pode prestar enquanto afro-americano numa modalidade caucasiana. Em terras de sua majestade, a perícia do jovem carrega-o até à final do campeonato, a sua boca até uma suíte presidencial londrina como residência. Lá conhece Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma antiga estrela de Hollywood descartada pela indústria e reduzida a subserviente esposa de um vendedor de canetas milionário, Milton Rockwell (Kevin O’Leary). Volvido o desfecho do torneio, Marty contra o surdo Koto Endo (Koto Kawaguchi), os vitoriosos EUA contra o derrotado Japão, o excepcionalista norte-americano perde contra a vítima de guerra japonesa. Volvido um ano de insucessos e desilusões internacionais, agora com um bebé de Rachel por nascer, uma enorme multa por pagar devido às suas extravagâncias no torneio, a amante grávida, família, polícia e máfia atrás de si, cabe a Marty reunir 1500 dólares em parcos dias para voltar a competir, derrotar o seu rival japonês e, finalmente, atingir os seus tão desejados sonhos de sucesso. Ricos sonhos de destruição.

“Marty Supreme” é uma febril comédia de erros sediada em sonhos impossíveis, transformados em sobrevivência popular num mundo hostil de elites parasitas. A dramaturgia é composta por um jovem do povo totalmente consumido pela sede de sucesso, que lhe é prometida pelo vitorioso país, e que cava um buraco sem fim que todos à sua volta engole. As cenas encaixadas num ciclo vicioso em tragédia cómica, com término numa brutal humilhação de classes, depois superada por uma modesta redenção de avassalador poder catártico. A fotografia de Darius Khondji (Se7en, Uncut Gems) com a produção de Jack Fisk (Mulholland Drive, There Will Be Blood) garantem a espontaneidade de íntima claustrofobia às imagens, a precisa montagem de Safdie e Ronald Bronstein tudo alisa e torna digestível, sem nunca tirar o pé do acelerador na progressão narrativa. Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never, para os fãs de música eletrónica) regressa à banda-sonora com os seus sintetizadores e vários hits de new-wave dos anos ’80 que coloca ainda mais lume na fogueira rítmica e presta uma qualidade intemporal ao filme. Não obstante todo o trabalho criativo em sustentar o seu fervoroso ritmo, é no feroz e muito humano desespero capturado que a superfície dramática do filme vinga. Das ilusões do protagonista que vemos quebrar, às pessoas em seu torno: as cujo gênero e etnia lhes impossibilita de sonhar e as cujos sonhos se concretizaram em infortúnio. É tal sentimento de perdição sonhadora que permite tornar credível todo o frenesim textual e garantir a necessária qualidade lacerante à análise política e social dos EUA do pós-guerra.

Ao tratar-se de um filme sobre um jovem a querer futilmente escapar o seu modesto mundo para o das elites que nada querem consigo, tão importante quanto acertar a personagem de Marty Mauser, é garantir o mesmo esforço sobre as pessoas que o rodeiam. Assim sucede o derradeiro triunfo deste filme, o casting de Safdie e de Jennifer Venditti. A seguir a filosofia das suas duas últimas obras, o genial amadorismo de Cassavetes sempre na base, tem-se uma estrela no topo, depois celebridades, amigos e não-profissionais a compor o resto da pirâmide de atores. É alcançada uma qualidade inata a cada uma das personagens, um sentido duplo relativamente a si e às pessoas que as interpretam. Tal como Robert Pattinson e Adam Sandler anteriormente, Chalamet consegue o melhor trabalho da sua carreira ao satisfazer o foco de constante atenção sob a exigente abordagem do cineasta. A’zion a acompanhar o protagonista enquanto reflexo feminino da sua animalesca perdição. Okonma (Tyler escolheu retratar-se nos créditos pelo seu nome de nascença, decisão para respeitar) tem a sua irresistível luz resignada a uma amizade serviçal num desporto que o exclui. Paltrow e Abel Ferrara servem de espelhos do futuro, uma estrela decadente, outra no topo pelos piores motivos. Enquanto pessoas, Ferrara faz de um dos seus condenados protagonistas, Okonma, Paltrow e O’Leary de si mesmos, das reais mágoas dos dois artistas à completa falta de noção do empresário. São um elenco e trabalho de caracterização profundamente comoventes, com o expressivo e generoso olhar de Safdie a prestar várias grandes imagens a cada figura, sobretudo as do desfecho.

Josh Safdie e Timothée Chalamet durante as filmagens de “Marty Supreme” / A24

Enquanto os seus filmes até aqui serviam de representações contemporâneas, “Marty Supreme” é a universalização intemporal do testamento de Safdie sobre o seu povo e país. Dizer que é um filme muito parecido aos seus anteriores é testemunhar que os EUA nunca mudaram. Quer seja um jogador de ping-pong, ou um pai solteiro, um jovem casal de toxicodependentes, dois irmãos assaltantes e um vendedor de joias, todos estão sob a ilusória e, por isso, destrutiva sombra do sonho americano. Fica sobretudo palpável no final disto o sentimento que mais domina a vocação artística do cineasta: um imenso magoado carinho pelas classes populares nova-iorquinas. As mesmas que garantem o funcionamento da engrenagem económica nacional, mas limitadas à impenetrável escuridão do seu fundo, apenas lhes resta a gratidão sobre o falso patriotismo do seu papel e as pequenas virtudes que tal condição lhes traz, da sua terra local, ao amor e à família. É mais um grande filme de um grande talento.

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