Memória adolescente de um poema

por Paulo Rodrigues Ferreira,    26 Novembro, 2021
Memória adolescente de um poema
Fotografia de Kelly Sikkema / Unsplash
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Antes das prédicas em auditórios, das literaturas comparadas, dos métodos analíticos e das teorias rebuscadas, a poesia apareceu-me como amor, como necessidade de encontrar explicações para sentimentos que mergulhavam meu espírito púbere em tempestades emocionais. Se os professores, obcecados com a forma e com figuras de estilo, me despertavam bocejos e me faziam odiar cada verso analisado em aulas nas quais até as moscas desmaiavam, os livros dispersos que amigos mais velhos me recomendavam pareciam dizer tudo acerca da minha pessoa e das paixões assolapadas que me deixavam acordado noites a fio, escrevendo cartas que não chegava a enviar, soprando o nome da amada para a almofada.

Como nasci em casa sem livros, e meus colegas de escola pouco dados eram a leituras, acreditei durante mais tempo do que devia que seria capaz de conquistar raparigas declamando versos de poetas conhecidos que eu fazia passar por meus. Vendo que a estratégia resultava e que minha popularidade entre o sexo feminino crescia, certos elementos do clube de futebol no qual eu partia pernas passaram a pedir que lhes emprestasse versos e frases românticas que serviam de inspiração para mensagens telefónicas e promessas de casamento. Um poeta que sempre me socorreu, tanto na hora de impressionar meninas como em alturas de aflição, foi António Franco Alexandre. Caso a sua obra me tivesse sido apresentada na escola, não me teria impressionado, visto que o que então me movia era a procura de explicações para o buraco existencial, para o sentido das coisas, para a finitude da vida e para a efemeridade das emoções. Sobre nada disso falavam os educadores, e também não creio que valesse a pena abrir essa gaveta. Não acredito que o jovem estudante que fui abrisse o coração para falar em público sobre temas que desarmam a pessoa. 

É claro que não escrevo aqui como crítico, e a verdade é que não tenho interesse em dissertar sobre matérias sobre as quais outros são especialistas. A minha relação com a poesia de Franco Alexandre vem da adolescência, e é para os abraços e beijos com sabor a framboesa que volto quando deparo com um poema seu online ou com o anúncio da publicação de um novo livro da sua autoria. Durante anos, soube dizer de cor os seguintes versos: “Agora vai ser assim: nunca mais te verei. / Este facto simples, que todos me dizem ser simples, / trivial, /e humano, como um destino orgânico e sensato/, Fica em mim como um muro imóvel, um aspecto/esquecido / e altivo de todas as coisas, de todas as palavras” (“eco”, Uma Fábula, 2001). Ignorante que era quando pela primeira vez li a sua poesia, foquei-me naquilo que de sentimental tinha, naquilo que me fazia estremecer por dentro. Nunca mais ver alguém que se ama é um facto trivial que não aparece nos livros de história, que não é comparável aos eventos que marcam a actualidade, mas para mim, que calculava o início e o fim das relações na imaginação, muito antes de conhecer a dama em carne e osso, que achava que cada rapariga seria o amor da minha vida, cada derrota, cada separação era uma espécie de ferida que ficava indefinidamente a sangrar. Talvez por sadismo ou vontade de antecipar futuros, entregava-me a exercícios que implicavam visualizar-me adulto e divorciado, vagueando pelo Chiado a tentar redescobrir a mulher ausente nas pedras da calçada. Era desta maneira triste que me tocavam os seguintes versos do poema acima citado: “Marcávamos férias / em meses diferentes. O fim do ano, a páscoa, / calhavam sempre / em outros dias. Tesouras surdas / rompiam o cordão dos telefones, e por engano / urgentes cartas atravessavam o planeta, apareciam / anos depois no arquivo municipal.” 

Uma parte de mim envergonha-se a ler e, especialmente, a falar da poesia que aprecio. Não me levando suficientemente a sério para seguir os rituais da crítica, dou por mim a ser menino, a enfatizar sentimentalismos que nunca poderão ser citados em bibliografias, a declamar “pudesse eu agora ingenuamente dizer ‘amo-te’ e / ser ouvido pelo ouvido humano da tua boca” com a mesma intensidade de há quinze anos. Uma confusão de sentimentos instiga-me a viajar para o passado com a sensação de esse passado poder conter histórias diferentes daquelas que tenho vivido. Pego numa caneta e, outra vez com a face cravejada de borbulhas e o cabelo empastado de gel e o peito encolhido de timidez, uso versos que não me pertencem para impressionar ninfetas na turma.

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