Memorial dedicado às vítimas do genocídio de 1994 contra os tutsis no Ruanda, criado por Grada Kilomba, é inaugurado esta semana em Paris
Um memorial dedicado às vítimas do genocídio de 1994 contra os tutsis no Ruanda, de iniciativa oficial francesa e concebido pela artista portuguesa Grada Kilomba, é inaugurado terça-feira em Paris, anunciou hoje a Presidência francesa.
O Presidente da República de França, Emmanuel Macron, e o seu homólogo ruandês, Paul Kagame, irão inaugurar o memorial erigido nas margens do rio Sena na terça-feira à tarde, segundo um comunicado do Palácio do Eliseu divulgado pela agência noticiosa AFP.
Iniciativa do Estado francês e da Câmara Municipal de Paris, e batizado de “L’Archive” (“O Arquivo”, em tradução livre), este memorial “foi concebido pela artista Grada Kilomba como um local de recato, em memória dos desaparecidos, e de transmissão intergeracional da memória do genocídio perpetrado contra os tutsis no Ruanda”, indica a Presidência francesa no comunicado.
Os dois chefes de Estado tomarão a palavra no encerramento de uma cerimónia durante a qual também deverão discursar o presidente da câmara da capital, Emmanuel Grégoire, e uma sobrevivente do genocídio, Jeanne Uwimbabazi.
O músico e escritor franco-ruandês Gaël Faye irá ler um poema de outra autora franco-ruandesa, Beata Umubyeyi Mairesse, ela própria sobrevivente do genocídio.
“Esta cerimónia dá continuidade ao processo de memória e reconciliação iniciado há vários anos entre a França e o Ruanda, baseado no diálogo, num trabalho conjunto de investigação e de busca da verdade, no reconhecimento das responsabilidades da França pelo Presidente da República durante a sua visita ao Ruanda em maio de 2021, uma ação determinada no domínio da educação e uma intensificação dos esforços de justiça contra os responsáveis pelo genocídio”, explica o Palácio do Eliseu.
Em 2021, Emmanuel Macron afirmou em Kigali ter viajado para “reconhecer” as “responsabilidades” da França no genocídio, que causou pelo menos 800.000 mortos, na sua maioria membros da minoria tutsi, entre abril e julho de 1994.
Na altura, Macron esclareceu que Paris “não tinha sido cúmplice” dos perpetradores hutus do genocídio e não apresentou desculpas, embora tenha dito esperar o perdão dos sobreviventes.
No entanto, as suas palavras selaram uma aproximação com o presidente ruandês, que não tinha deixado de questionar a França sobre o papel francês antes, durante e após o genocídio, tema que levou mesmo a uma rutura das relações diplomáticas entre Paris e Kigali entre 2006 e 2009.
Emmanuel Macron e o seu homólogo participarão depois num jantar oficial na terça-feira à noite no palácio presidencial, embora o papel do Ruanda no conflito na vizinha República Democrática do Congo, onde apoia os rebeldes do M23, possa ter abrandado uma maior aproximação nos últimos anos.
O presidente francês afirmou, no entanto, em várias ocasiões, querer continuar a dialogar tanto com os líderes ruandeses como com os congoleses, e tentou repetidamente desempenhar um papel de facilitador entre os dois países da região dos Grandes Lagos.
O trabalho da artista interdisciplinar e escritora Grada Kilomba foca-se principalmente no exame da memória, do trauma, da violência, do racismo, do género e do pós-colonialismo, e nas suas obras dá especial relevo a episódios silenciados, apagados ou ignorados pela historiografia oficial ocidental.
No último fim de semana, Kilomba inaugurou a sua maior exposição até à data em Portugal, nas instalações Albuquerque Foundation, em Sintra, onde estão reunidas peças criadas nos últimos dois anos, exibidas anteriormente no Brasil, Alemanha e Espanha.
Intitulada “O Fundo do Mundo”, a mostra apresenta obras de grande dimensão, – como “Compressed Time”, “18 Verses”, e “Opera to a Black Venus” – resultado de uma reflexão sobre memória, violência histórica e crise climática a partir do oceano como arquivo da existência humana.
