“Mendigos e Altivos”, de Albert Cossery: uma lição sobre humanidade e a falta dela

por José Moreira,    2 Setembro, 2022
“Mendigos e Altivos”, de Albert Cossery: uma lição sobre humanidade e a falta dela
Capa “Mendigos e Altivos”, de Albert Cossery (ed. Antígona)
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“Mendigos e Altivos” é a obra seminal de Albert Cossery (1913–2008), autor francês nascido no Egipto que viveu em Paris desde 1945, sempre no mesmo quarto de hotel e por lá morreu. Devido ao seu cepticismo inato chegou a ser conhecido por “Voltaire do Nilo”. Foi contemporâneo e amigo de diversos autores marcantes como Genet, Miller e Camus. 

Este livro, com uma excelente tradução de Júlio Henriques, estabelece Cossery como um mestre do sarcasmo, do escárnio e da ironia, aos quais dedicou grande parte do foco das suas prosas, onde se destaca invariavelmente a vida dos marginalizados (quer o sejam por razões externas ou auto infligidas). Nos seus livros encontramos sempre pontos de vista interessantes sobre a indigência moral e material, segundo o próprio, escreve essencialmente sobre as pessoas que conheceu nas ruas do Egipto. Privilegiou a qualidade e o direito ao ócio em detrimento da quantidade, escrevendo consistentemente “uma frase por dia” ao longo dos cerca de 60 anos de carreira. Publicou “apenas” 8 livros que foram todos editados em Portugal pela editora Antígona, estando vários completamente esgotados excepto este “Mendigos e Altivos” e “As cores da Infâmia”.

A título de curiosidade, em “Conversas com Albert Cossery” de Michel Mitrani (Antígona, 2002) o escritor afirma sobre a expressão Mendigos e Altivos: “É extraído de um provérbio egípcio. A frase exacta resumida em árabe é: «mendigo e que impõe as suas condições». Um  mendigo no Egipto a quem desse uma piastra diria: «Não, não, guarda-a para ti, precisas dela…» Ou seja, o que é uma piastra? Nem a quer. É daí que provém o título.”

Albert Cossery / Fotografia via Antígona

Inicialmente acompanhamos o percurso de Gohar pelas ruas do Cairo, este mendigo é um antigo professor universitário que opta por viver na mais pura miséria material. Ao rejeitar uma vida dedicada à obtenção de bens materiais e do prazer efémero, Gohar encontra nesta escolha um sentimento libertador da ambição mundana que lhe esmagava o espírito. É por assim dizer, um mendigo voluntário que vive num apartamento miserável dormindo numa cama feita de pilhas de jornais velhos e despojado de conforto. Apesar desta miséria que o próprio procurou e da satisfação que lhe trazia, Gohar desenvolve um vício por haxixe que o toma de assalto, dominando as suas vontades e rotinas.

É nos momentos de desejo sufocante do vício que Gohar se vê confrontado com a necessidade de dinheiro, entrando num ciclo de contradição permanente: Deixa a vida “comum” para não estar dependente de dinheiro, torna-se dependente de haxixe e em consequência, de dinheiro. Um dia essa dependência leva Gohar a procurar desesperadamente o seu amigo e traficante Ieguene no prostíbulo de Set Amin. Aqui, na sua espiral de desespero, estrangula uma jovem prostituta para a roubar e subtraindo umas pulseiras de ouro e apaziguar o seu vício. 

“Depois de ter deixado a casa de prostituição onde acabara de estrangular a jovem, Gohar deambulara à procura de Ieguene, correndo as ruas. A obcecação da droga tivera como efeito uma provisória atenuação do sentimento decorrente do seu acto. Lembrava-se dele como dum erro trágico, mas cuja importância se sumia num espaço confuso e indefinido.”, pode ler-se no livro.

Ora vejamos, este ser educado e fundamentalmente pacífico comete assim o maior dos crimes em consequência da sua escolha de vida. Confronta-se com a possibilidade de vir a ser encarcerado por causa da sua ânsia por liberdade, deixando-o assim num frenesim de desespero por ter falhado no seu idealismo, falha sobre a qual se reprime ainda mais do que pelo próprio homicídio. 

“Nunca, em sua consciência, desejara ou premeditara aquele acto repreensível. Não conseguia conciliar a sua aversão inata à violência com a atroz evidência dos factos. Como explicar então um tal crime?” 

A restante acção de “Mendigos e Altivos” desenvolve-se na ressaca do crime apesar de se esbater gradualmente a sua importância na narrativa. O que aqui importa, realmente, é a dança de suspeitas e contradições que recaem sobre Gohar, Ieguene e o jovem El Kordi nas suas deambulações pela cidade. Decorre perante a observação atenta do inspector da polícia Nur El Dine, este, marcado pelo seu respeito às leis e secretamente homossexual, inveja a miséria libertadora em que vivem os seus suspeitos. Nos diálogos e actos subsequentes ao crime vemos explorada toda a moral dos personagens, a sua dignidade, o orgulho, o amor e a amizade. Nur El Dine torna-se o elemento da história que articula o submundo da indigência com o mundo dito civilizado, o paradigma que Gohar representa deixa-o aturdido de curiosidade.

“ — Mas como chegaste tu a tamanha miséria? Ouvindo-te, bem se percebe que és um homem instruído, e mais: um homem de grande cultura. Em condições normais deverias ocupar um lugar elevado na hierarquia social. Ora tu vives como um pedinte. Há nisso um mistério que bem gostaria de descortinar.

— Não é mistério nenhum. Vivo como pedinte porque assim o desejo.
— Valha-me Alá. Que homem mais espantoso me saíste! Essa tua mentalidade foge ao meu entendimento, não a posso compreender.”

Esta narrativa constitui portanto uma soberba lição sobre humanidade, a falta dela e quão frágil são os interstícios entre ambos. São as sublimes contradições filosóficas e existenciais que pautam tanto esta história, como as restantes da obra de Cossery. Não glorifica fundamentalmente a miséria ou o despojamento de bens, apenas explora o orgulho, a altivez e a preguiça que marcam o quotidiano do mendigo, humanizando-o de forma eficaz, por vezes surreal e até humorística.

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