“MIL Cultura e Política” leva a Lisboa Malcom Ferdinand, Geoffroy de Lagasnerie e Cynthia Cruz, Kate Pasola e Alice Cappelle
A décima edição do MIL vai desdobrar-se em dois momentos distintos. O primeiro é o novo MIL Cultura e Política, que vai realizar-se entre 21 e 23 de maio, na Casa Capitão, reunindo diferentes agentes do setor cultural e pensadores para interrogar criticamente as relações entre cultura, poder e produção de conhecimento. Nesta edição, conta com nomes como Malcom Ferdinand, Geoffroy de Lagasnerie, Cynthia Cruz, Kate Pasola ou Alice Cappelle.
Entre 7 e 10 de outubro, regressa o Festival MIL, agora focado exclusivamente na música.
“Era difícil explicar e dar o devido destaque a tudo o que acontecia no MIL. O projeto foi crescendo e, de uma forma orgânica, começou a refletir sobre outros temas além da música”, explica Gonçalo Riscado, cofundador e diretor da CTL e do MIL. “Decidimos dar autonomia à vertente mais focada na reflexão crítica sobre cultura, políticas culturais e o seu papel no presente.”

O pontapé inicial é dado às 11h30 de quinta-feira, 21 de maio, numa sessão dedicada ao papel das políticas culturais em Portugal. Ao longo da tarde, multiplicam-se as conversas, oficinas e sessões de trabalho que abordam diferentes dimensões da relação entre cultura e política — das condições materiais da criação e construção de conhecimento às formas de produção de sentido e às condições de participação no espaço público.
Os chamarizes do primeiro dia são as keynotes do filósofo e sociólogo francês Geoffroy de Lagasnerie, cujo pensamento cruza teoria crítica e política contemporânea, na senda de Michel Foucault; e de Malcom Ferdinand, engenheiro ambiental e um dos investigadores políticos determinantes do antropoceno, cujo trabalho articula ecologia, história colonial e pensamento decolonial. Este último vem apresentar o seu livro “Uma Ecologia Decolonial”, publicado em Portugal pelas edições Orfeu Negro.
Ao longo da tarde de 21 de maio, destaca-se ainda um fórum sobre direitos culturais em Portugal, com o investigador e consultor cultural espanhol Daniel Granados, um dos impulsionadores da Declaração de Barcelona pelos Direitos Culturais, e mediação de Paulo Pires. Ou uma oficina de análise e reescrita da linguagem no setor cultural, conduzida por Maria Vlachou, diretora executiva da Acesso Cultura.
A convenção continua na sexta-feira, 22 de maio, com três keynotes em destaque. A abrir o dia, às 10h, a jornalista Kate Pasola analisa as transformações do jornalismo cultural no contexto das plataformas digitais, evidenciando as desigualdades que continuam a determinar quem pode escrever, publicar e ser ouvido. Ao início da tarde, Alice Cappelle centra-se na produção e circulação de narrativas políticas e culturais em ambientes digitais, interrogando o papel das plataformas na sua amplificação e simplificação.
A fechar a tarde, a poeta, crítica cultural e investigadora norte-americana Cynthia Cruz parte do seu mais recente ensaio “Melancolia de Classe — Um Manifesto para a Classe Trabalhadora”, editado este ano pela Zigurate, para abordar as tensões entre classe, cultura e mercado. A sua análise de como a cultura contemporânea tende a apagar o conflito de classes — e a moldar as condições de produção artística — é cada vez mais fundamental.
O dia inclui ainda um conjunto de sessões dedicadas às infraestruturas digitais e ao papel das plataformas na produção cultural e na circulação de conhecimento, debatendo as condições de acesso, visibilidade e participação política e coletiva no espaço digital. Destacam-se ainda sessões sobre open source e produção cultural, jornalismo no contexto das redes sociais e modelos de participação e produção coletiva, que aprofundam os temas centrais do programa.
Estes momentos de debate, formação e pensamento contam com a consultoria da Shifter, que acompanhou o desenvolvimento dos conteúdos e a definição das linhas editoriais desta edição.
O programa inclui também a exibição de dois filmes que acompanham o slogan desta edição: “Pressionar o Presente”. Quer Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, na quinta-feira, como Orwell: 2+2=5, de Raoul Peck, na sexta, documentam processos políticos e transformações em curso, oferecendo uma leitura crítica das estruturas de poder, das narrativas dominantes e das tensões que marcam o nosso tempo presente.
Fora do horário laboral, o MIL Cultura e Política tem outra ginga
Nos primeiros dias, o MIL Cultura e Política prolonga-se até perto da meia-noite, com momentos de encontro e criação, incluindo concertos, DJ sets e sessões participativas. O programa noturno de quinta-feira inclui uma jam session com a Soma Cultura, um concerto de Sopa de Pedra e um DJ set dos Irmão Makossa. Na sexta, atuam os Febre 90s o Grupo Coral do Auto-Tune e as Bar Aberto, que editaram agora um magnífico EP. Há ainda uma roda de sample com Cigarra, Puçanga, bieu s2, Don’t Call Me Tako e Marcelo Lopes.
Por fim, no sábado, o programa assume um formato mais centrado na fruição cultural, com menos momentos de conversa e uma programação multidisciplinar que inclui spoken word, exposições, performances, concertos, DJ sets, workshops e mais filmes. Lesma, Manga Cava, Jorge Rosa, Rezmorah & Mahfoud, Rádio Cacheu, Mães Solteiras e a enorme Àkila aka Puta da Silva — a cantar apenas repertório de mulheres brasileiras — estão entre es artistas que integram o alinhamento de 23 de maio.
A maioria das atividades tem entrada livre mediante inscrição através de formulário online, com exceção dos concertos de Sopa de Pedra (dia 21) e Febre 90s (dia 22).
