Moda e política: tendências culturais e estéticas que apontam em direção ao conservadorismo

por Diana G. Ribeiro,    2 Setembro, 2025
Moda e política: tendências culturais e estéticas que apontam em direção ao conservadorismo

Esta crónica também está traduzida para inglês aqui.

A moda sempre funcionou como uma espécie de linguagem política. Ao escolher uma determinada peça de roupa ou dar preferência a uma cor específica, as pessoas sinalizam como querem ser interpretadas: tradicionais, rebeldes, artísticas, femininas, góticas e assim por diante. Grande parte da nossa identidade é construída com base na forma como nos expressamos através do estilo.

Ultimamente, discussões online têm apontado como as tendências da moda e da cultura pop podem atuar como marcadores do surgimento de correntes fascistas ou autoritárias. A feminista e professora de moda italiana, Eugenia Paulicelli, lembra-nos no seu livro “Fashion under fascism” que, sob o fascismo, as roupas e os filmes foram deliberadamente usados como ferramentas para moldar a identidade nacional e promover uma «política de estilo». Quando Mussolini criou a Ente Nazionale della Moda (ENM), ou Organismo Nacional da Moda, no ano de 1930, não se tratava apenas de regulamentar a indústria da moda — era uma forma de incorporar a ideologia fascista na vida quotidiana. Os italianos foram incentivados a adotar códigos de vestuário tradicionais, materiais locais e raízes nacionais «autênticas» como parte de um programa cultural mais amplo.

“A moda é uma expressão artística que vai muito para além da estética e da parte visual e que nada tem de superficial, se não for analisada de uma forma simplista.”

Embora essa história pertença à Itália dos anos 30, o padrão ressoa nos dias de hoje. Desde a reeleição de Donald Trump em 2024, a moda tem sido direcionada visivelmente para uma estética de inspiração conservadora. Tendências como o visual «Clean girl», o «Quiet luxury», o estilo «Old money» e a estética «Tradwife» ecoam um retorno a ideais mais tradicionais, contidos e codificados por classes sociais. Como observa Jordan Anderson na revista NSS Magazine, a moda é inerentemente política: as mudanças no estilo muitas vezes refletem correntes culturais mais profundas e, nos últimos anos, essas correntes têm se movido em direção ao conservadorismo e tradicionalismo.

Capa do livro / DR

A moda, não se limita a ser um espelho que reflete a identidade individual, nesse reflexo também podemos ver, se despirmos as lentes enviesadas e com uma visão direcionada por um dos mais antigos mecanismos sistémicos, cunhado pelo jornalista de investigação Robert Parry como “Perception Management” — o reflexo das mudanças no cenário político. Assim como a Itália fascista usou o vestuário para impor uma ideologia nacional, o renascimento atual da estética conservadora sinaliza um alinhamento entre as tendências culturais e as correntes autoritárias mais amplas.

“O poder silencioso é o mais forte de todos os poderes. E como qualquer outra ferramenta económica dominada pelas elites socais, nada procura para além do lucro e a imposição dos interesses egocêntricos dessas mesmas elites.”

Com o ressurgimento de correntes políticas que reafirmam a hierarquia, os ideais patriarcais e narrativas de retorno ao tradicionalismo, emerge também uma comunicação baseada numa linguagem codificada. Esse discurso, à primeira leitura neutro e não — estratégico, tem, como absolutamente tudo na esfera linguística, um significado subjacente e bastante intencional. Então, permitam-me colocar-vos umas lentes desprovidas de ferramentas sistémicas de controlo e gestão social:

O termo “Quiet luxury”, nada mais é do que uma referência à estética de riqueza e à rejeição da influência democrática da Streetwear. Streetwear essa que tem sido infantilizada, estigmatizada e marginalizada, muitas vezes pelas próprias marcas que as vendem. “Old money” não passa de um reflexo de um sentimento de nostalgia, por parte de elites socais, pela hierarquia aristocrática. “Tradwife” espelha uma narrativa de papéis de género e a tentativa de voltar a reduzir a mulher à domesticidade. E, por fim, a tão famosa estética de “Clean girl” que não passa de um estilo contaminado pela epidemia do minimalismo, assim como, contenção e conformidade disfarçadas de neutralidade.

“As tendências podem normalizar a ideologia antes que ela seja articulada abertamente. O que, inicialmente, parece uma tendência inocente pode, na verdade, ser um mecanismo cultural de soft-power.”

A moda é uma expressão artística que vai muito para além da estética e da parte visual e que nada tem de superficial, se não for analisada de uma forma simplista. Foi e continua a ser um veículo de critica social e quebra de cânones e ideais preconcebidos e estigmatizadores. Contrariamente, as tendências associadas à esfera da moda, nada têm de artístico. São um instrumento político e económico bastante poderoso, precisamente por disfarçar o seu poder. O poder silencioso é o mais forte de todos os poderes. E como qualquer outra ferramenta económica dominada pelas elites socais, nada procura para além do lucro e a imposição dos interesses egocêntricos dessas mesmas elites.
Serão estas tendências impulsionadas por algoritmos? As marcas de moda e as plataformas de média social reforçam a estética conservadora porque se alinham com o lucro e a (suposta) estabilidade. A resposta é bem clara: sim. As tendências podem normalizar a ideologia antes que ela seja articulada abertamente. O que, inicialmente, parece uma tendência inocente pode, na verdade, ser um mecanismo cultural de soft-power.

Historicamente, grupos marginalizados pela sociedade — comunidade Queer, comunidades alternativas e comunidades não-ocidentais — usaram a moda como contrapolítica, resistindo à tendência conservadora dominante. Atualmente, estas comunidades continuam a estar na frente do combate. A questão que fica a pairar é se terão estas comunidades poder suficiente para ganharem a batalha, ou se, como no passado, não vão resistir à aparente inevitabilidade da condição efémera de todos os movimentos de contracultura.

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