Moedas sobre Palma ou uma cuspidela no morto

por Henrique Pinto de Mesquita,    23 Setembro, 2026
Moedas sobre Palma ou uma cuspidela no morto
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O desastroso tweet de Carlos Moedas a assinalar a morte de Jorge Palma foi um erro com várias camadas: à cabeça, evocar a música «Primeiro dia», de Sérgio Godinho; depois, publicar novo tweet a explicar que o anterior não tinha sido engano; por fim, a mensagem inicial estar cheia de lugares-comuns e tresandar a Inteligência Artificial.

Quando morre um poeta a sério, como Palma, morre mesmo um poeta a sério. As letras e as canções não são uma brincadeira performativa — são nódoas negras, lágrimas, esquinas por cruzar, cabeças com sangue. Escrever assim dá trabalho, cantar assim dá trabalho, viver assim dá trabalho. Palma era carne cheia de bichos e cheiros e morte: tudo aquilo era genuíno.

Essa conjuntura agrava o tweet de Moedas: perante o poeta, o sensível e o verdadeiro, Moedas respondeu com a máquina, o bruto e o artificial. Respondeu na língua inimiga da de Palma, cuspindo em cada um dos seus versos. O grande poeta morre — mas é a máquina quem responde.

Jorge Palma foi um dos mais importantes homens das letras nos últimos 50 anos. Cantou Lisboa. Tem uma obra como poucos. O mínimo que se esperava do Presidente da Câmara dessa cidade era que se interessasse pela sua morte. Não são precisas lágrimas, basta interesse e solenidade. Basta não delegar num assessor inculto a composição da mensagem que assinala a sua morte. Basta fazer o seu trabalho.

É um logro. Em primeiro lugar, humano: não é normal não nos arrepiar a espinha assinalar a morte de alguém através de um texto escrito por uma máquina. Em segundo lugar, político: Moedas, Presidente da Câmara de Lisboa, passa a imagem de indiferença sobre um dos artistas mais importantes da cidade. Em terceiro lugar, na preparação: políticos incultos são piores políticos porque têm as vistas mais limitadas — depois disto é seguro dizer que a equipa de Carlos Moedas não tem cultura. Em quarto lugar, técnico: como não houve uma cadeia de chefia que apanhasse o erro crasso de evocar a música de Godinho na mensagem de Palma? Em quinto lugar, de atitude: as pessoas gostam de políticos que admitem erros porque elas também os cometem — perante o engano, Moedas insistiu que não o era.

O tweet de Moedas é, no fundo, um retrato perfeito da época: um político pouco cultivado delega num assessor sem cultura a evocação nas redes sociais de um defunto. O assessor, como é ignorante e não conhece o morto, recorre à Inteligência Artificial. Esta escreve um texto redondo, vazio e com erros graves — mas como o assessor não está habituado a ler, tudo lhe parece bem. Cruzar fontes? Fazer pesquisa? Humanizar o texto? Não: há pressa para publicar.

Tudo isto era escusado. Vou contar um segredo: não tem mal não conhecer a discografia completa do Jorge Palma: podemos gostar só de um álbum, de uma música, de um verso, dos seus olhos — e se isso for verdade, evoque-se-o! Mas se o não for, basta: «Hoje partiu Jorge Palma. Paz à sua alma» — é honesto, funciona e não deixa rabos de palha. A necessidade provinciana de os políticos quererem passar por cultos, quando o não são, é uma argolada adiada. O povo é sereno, mas não é estúpido.

Mamã, mamã
Onde estás tu, mamã?
Nós sem ti não sabemos, mamã,
Libertar-nos do mal

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